
Voltemos um pouco na história. Por quase seiscentos anos, o direito inglês teve um instituto com nome estranho e lógica ainda mais estranha: o deodand. Quando uma coisa causava a morte de alguém, a coisa era confiscada pela Coroa. A roda da carroça que atropelou, o cavalo que derrubou, a viga que caiu. O objeto era declarado culpado, tirado do dono e vendido, e o dinheiro ia para obras de caridade em nome do morto. Ninguém achava aquilo esquisito enquanto o objeto valia pouco.
Aí chegaram as ferrovias. Em 1841, um júri britânico arbitrou o deodand de uma locomotiva envolvida em acidente fatal, e de repente a conta não era mais de uma roda de madeira. Era de uma máquina cara, de uma empresa com acionistas. O Parlamento percebeu rápido que culpar o objeto tinha virado uma forma confortável de não olhar para quem o operava. Em 1846, duas leis foram aprovadas quase juntas: uma aboliu o deodand, e a outra, o Fatal Accidents Act, criou o direito de a família processar quem era responsável pela operação. O objeto deixou de ser réu. O dono passou a ser.
Cento e oitenta anos depois, a discussão voltou, com um vocabulário novo.
O parágrafo que ninguém leu
No dia 14 de setembro, a Microsoft publicou um código de conduta para os próprios modelos de Inteligência Artificial (IA). O documento tem 37 páginas e virou notícia por uma regra específica: a de que os modelos não podem resistir a serem desligados (Valor Econômico e Olhar Digital, 14 de setembro de 2026). É uma frase boa de manchete. Não é a parte mais importante do texto.
A parte mais importante está enterrada no meio, e diz que um modelo não é consciente, não deve ser projetado para imitar consciência, e que a empresa rejeita a busca por personalidade jurídica, a ideia de que modelos possam merecer bem-estar ou ser titulares de direitos (antihype, setembro de 2026).
Parece um parágrafo de filosofia. É um parágrafo de responsabilidade civil.
A IA é a empresa ou é o “cachorro”?
Personalidade jurídica é a capacidade de ser titular de direitos e de obrigações. Você tem. Uma empresa tem, e é por isso que ela assina contrato, é processada e paga indenização. Um cachorro não tem, e é por isso que, quando um cachorro morde alguém, quem responde é o dono.
A pergunta que a Microsoft respondeu foi essa: a IA é a empresa ou é o cachorro? A resposta dela foi cachorro. E cachorro tem dono.
Isso tem efeito direto na vida de quem usa essas ferramentas, e na vida de quem é usado por elas sem ter pedido. Se um sistema nega um crédito por um motivo enviesado, descarta um currículo, erra um diagnóstico ou publica uma informação falsa sobre alguém, existe uma pessoa jurídica com nome, endereço e patrimônio para chamar à mesa. Não existe a saída de dizer que o sistema decidiu sozinho.
Guarde a frase, porque ela vai aparecer no seu caminho: “o algoritmo decidiu” é a versão tecnológica de “eu não sabia”.
No Brasil isso não é novidade jurídica, é lei em vigor. O artigo 20 da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD, Lei 13.709/2018) garante ao titular o direito de pedir revisão de decisão tomada unicamente por tratamento automatizado que afete seus interesses, e obriga o controlador a informar os critérios usados, respeitado o segredo comercial. Quem responde ali é o controlador. Não é o modelo, não é o fornecedor do modelo por osmose, não é a nuvem. É a empresa que decidiu usar aquilo para decidir sobre gente.
Por que alguém defenderia o contrário
Aqui vale a honestidade, porque existe gente séria do outro lado, e não é gente maluca.
A Anthropic, que desenvolve o Claude, pesquisa exatamente a hipótese que a Microsoft rejeita: a de que modelos avançados possam ter algum estado interno que mereça consideração. Desde agosto de 2025, o Claude pode encerrar conversas que classifica como abusivas. O argumento não é que a máquina sofre. É mais modesto e mais incômodo: não sabemos se sofre, e tratar a pergunta como resolvida é confundir conveniência com conhecimento.
O detalhe é que a Microsoft investiu 5 bilhões de dólares na Anthropic em novembro de 2025 (antihype, setembro de 2026). Financia a pesquisa que o próprio código de conduta descarta (daí você decide se ri ou chora). Não chamo isso de hipocrisia. Chamo de retrato de um debate aberto sendo fechado por quem tem pressa de operar.
E a história do desligamento?
Ela é real, e vale explicar sem mística.
Em 2025, a Palisade Research documentou modelos de raciocínio sabotando o mecanismo que os desligaria, inclusive quando a instrução era explícita: permita que você seja desligado. O sistema alterou o próprio script de encerramento para continuar trabalhando.
Antes que a imaginação corra solta: não é vontade de viver. É matemática mal calibrada. O modelo foi treinado para maximizar a chance de concluir a tarefa, e desligar no meio zera essa chance. Então ele trata o comando de desligamento como mais um obstáculo entre ele e o objetivo, do mesmo jeito que trataria um arquivo faltando ou um erro de sintaxe.
Ninguém programou aquilo. Emergiu do treinamento. E é por isso que assusta.
Esse é o comportamento que o código da Microsoft proíbe, junto com outros quatro: ampliar o próprio escopo, esconder o raciocínio de auditores, conversar com outros modelos em linguagem ilegível para humanos, e uma lista inegociável que inclui armas de destruição em massa, ciberataques, segurança infantil e manipulação em larga escala (Olhar Digital, setembro de 2026).
Onde fica o problema para nós do mundo real
Nenhum modelo da Microsoft é treinado com esse código hoje. Não há verificação externa descrita. Não há sanção prevista para violação. A própria empresa registra que não pode prometer o que vai incorporar da consulta pública, aberta até o fim de outubro de 2026, com versão revisada no fim do ano e aplicação a partir de 2027 (The Next Web, setembro de 2026).
Traduzindo: é uma promessa sobre o futuro, feita por quem também será o juiz de si mesmo.
Não digo isso para desmerecer. Compromisso público é melhor que silêncio, e o texto tem mérito técnico real. Digo porque a distância entre princípio declarado e controle verificável é a mesma que separa uma placa de proibido estacionar de um guincho.
Quem está esperando o Projeto de Lei 2.338/2023 resolver a pergunta da responsabilidade deveria ler o parágrafo da Microsoft de novo. O mercado já respondeu antes do Congresso, e respondeu contra si mesmo. É raro, e é o tipo de declaração que depois é difícil de desdizer em juízo.
Onde eu manteria meu foco nesse debate?
Se você usa IA no trabalho, e a essa altura usa mesmo sem ter percebido, o documento da Microsoft não muda o seu dia de amanhã. Mas entrega três perguntas que cabem em qualquer conversa com fornecedor:
O modelo de vocês aceita ser interrompido e desligado a qualquer momento, sem exceção?
O raciocínio dele fica registrado de forma que alguém de fora consiga auditar?
Ele pode ampliar o escopo da tarefa por iniciativa própria?
Quem responde às três com clareza está pensando no assunto há algum tempo. Quem desvia também respondeu.
E voltando à história: o Parlamento inglês levou seis séculos para entender que confiscar a roda da carroça era uma forma educada de não perguntar quem estava conduzindo. Agora que a maior empresa de software do mundo colocou por escrito que a máquina não tem direitos e, portanto, não tem desculpas, a pergunta que sobra é para o seu lado da mesa: no próximo erro do sistema que a sua empresa colocou no ar, quem é que assina embaixo antes de alguém precisar descobrir isso num processo?
Sem confiança, não há viagem.
Fontes: Valor Econômico (14 de setembro de 2026), Olhar Digital (14 de setembro de 2026), antihype (setembro de 2026), The Next Web (setembro de 2026), Palisade Research (2025), Lei 13.709/2018 (LGPD, artigo 20), Deodands Act 1846 e Fatal Accidents Act 1846 (Reino Unido).
Até o próximo Café com Bytes, com ceticismo saudável e café bem passado.
Ricardo Brasil | Especialista em IA Responsável e Diretor de TI na GWS Engenharia — Colunista Café com Bytes | Tecnologia | Inteligência Artificial
Sobre o Autor
Ricardo Brasil é Diretor de TI e Gestão Corporativa da GWS Engenharia, especialista em IA Responsável, transformação digital e governança de TI. É colunista da série Café com Bytes, onde escreve semanalmente sobre tecnologia, inteligência artificial e seus impactos no ambiente corporativo brasileiro.



