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Quem governa o dinheiro?

Por Fernando Röhsig

Ao terminar de ler o livro Os Reis do Dinheiro, de Daniel Schulman, uma pergunta permanece martelando: quem, afinal, governa o dinheiro que governa o mundo?
A criação do Federal Reserve, gestada em segredo na ilha de Jekyll e sancionada em dezembro de 1913, nasceu do diagnóstico de que os Estados Unidos precisavam de um emprestador de última instância. Mas o desenho institucional – um conselho em Washington entrelaçado a doze bancos regionais, cujos diretores são em parte indicados pelos próprios bancos associados – consolidou, desde a origem, um arranjo em que a fronteira entre regulador e regulado nunca foi nítida.
Paul Warburg, com seu rascunho publicado no New York Times em 1911, e a órbita de J.P. Morgan, protagonistas centrais da obra de Schulman, não apenas desenharam o arcabouço técnico da nova autoridade monetária: personificam a tese de que a arquitetura financeira americana nasceu para servir, antes de tudo, quem a idealizou.
O FED não é simplesmente um “banco dos banqueiros”. Seu comando institucional está no Board of Governors, enquanto a política monetária é decidida pelo FOMC. Os bancos privados membros possuem ações dos Federal Reserve Banks, mas não controlam o Board of Governors, nem recebem dividendos como acionistas comuns. Ainda assim, a própria arquitetura do sistema nasceu em estreita interação com Wall Street e o setor bancário. É aí que começa a discussão real sobre governança.
Quanto maior a concentração de recursos, informação e influência, maior a necessidade de transparência, independência e mecanismos efetivos de prestação de contas. Essa tensão reaparece de forma visceral em momentos de crise.
O financiamento das guerras mundiais consolidou Wall Street como intermediário essencial entre capital privado e tesouros nacionais – bancos de investimento lucraram com a engenharia financeira dos conflitos, o que não significa afirmar que banqueiros “criaram” guerras, mas sim reconhecer que grandes crises redesenham mercados, dívidas, moedas, commodities e fortunas.
No pós-1945, o pacto informal entre Washington e as monarquias do Golfo ancorou o dólar como moeda de reserva global justamente pela garantia de que o petróleo seguiria precificado nele – o nascimento do petrodólar. Desde J.P. Morgan até a expansão do sistema financeiro internacional, dinheiro e geopolítica caminham lado a lado.
Mais de um século depois, a pergunta continua atual. Os países desenvolvidos carregam níveis elevados de endividamento. A inflação voltou a desafiar os bancos centrais, e os juros altos pressionam governos, empresas e famílias. Quando a geopolítica entra em cena, a política monetária deixa de ser apenas uma questão técnica.
A guerra entre Estados Unidos e Irã, deflagrada em 2026 com o fechamento intermitente do Estreito de Ormuz e choques violentos nos preços de petróleo e gás, oferece um exemplo quase didático. A energia voltou a superar patamares críticos, reacendendo o debate sobre até que ponto interesses energéticos e financeiros se sobrepõem à política externa e prolongando taxas de juros elevadas justamente quando o mercado esperava algum alívio.
E aqui está a provocação. Quem controla o dinheiro talvez não controle o mundo. Mas quem influencia o custo do dinheiro determina profundamente quem ganha, quem perde e quais decisões se tornam possíveis. É por isso que governança não é assunto exclusivo para conselhos de empresas.
Deveria ser uma obsessão quando falamos das instituições que administram as engrenagens do sistema financeiro global.
A história de Warburg, Morgan, Jekyll Island e do FED nos lembra de uma coisa: poder financeiro sem escrutínio suficiente pode ser tão determinante quanto o poder político. E, quando ambos se encontram, o impacto reverbera muito além de Wall Street.
“O processo pelo qual os bancos criam dinheiro é tão simples que a mente o rejeita. Onde o mistério é tão profundo, busca-se naturalmente algo profundamente complexo.”, por John Kenneth Galbraith, 1.975, em Money: “Whence It Came, Where It Went (De onde veio, para onde foi.)”.
Fernando Röhsig – Conselheiro de Administração (CCA – IBGC).

Fernando Rohsig

Conselheiro Independente para Conselho de Administração, Consultivo, Fiscal e de Família. Mestre em Controladoria pela Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS. Especializações em “Managing a Global Business” pela HEC (Paris/França) e Gestão Empresarial, Recursos Humanos, Gestão da Qualidade, Custos e Produção, todos pela UFRGS. Também é pós-graduado em Gestão da Qualidade pela Unisinos. Graduado em Administração de Empresas pela UFRGS. Certificado como Conselheiro de Administração pelo IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa). Realizou cursos complementares pela FIERGS na Stanford School of Business, pela Fundação Dom Cabral na Kellogg School Of Management (Northwestern – Chicago/EUA), Tsinghua University (Beijing/China), Cambridge Univesity (Climate Governance Initiative) e Role of the Chair e Leadership Essentials for Navigating Complexity – IoD Institute of Directors (Londres/Inglaterra) e Univesrity of Pennsylvania - Wharton School – Ai Leadership Program (Pensilvânia/EUA). Professor de Graduação, Pós-Graduação e In Company na UFRGS, ESPM, La Salle, Sicredi, Unicred, Sicoob e Univates. Trabalhos voluntários em diversas entidades, com destaque para Junior Achievement (RS) e IBGC Capítulo Sul. Integrante de grupos do IBGC em Jornadas Técnicas ao Vale do Silício em Ago/18, Israel em Mai/19, Inglaterra em Set/23, China em Out/Nov/24, EUA em Set/25 e Japão em Nov/26. Atuação como executivo por mais de trinta anos em Finanças e Operações. Proprietário da F&F_Allegra_Consultoria. Trabalhos desenvolvidos em nível de conselho e direção para empresas de atuação em cooperativas de crédito, médicos, de infraestrutura de energia renovável (geração e distribuição), empresas de comunicação, telecom, design, varejo (moda), bancos / fintechs, franquias, indústrias de alimentos, metal mecânica, química, explosivos, mineração, equipamentos pesados, odontológicos e de estética, construção civil e de infraestrutura pesada, entre outras.

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