
Em março de 2023, a Bolsa de Tóquio lançou uma iniciativa que parece técnica, mas esconde uma profunda mudança de mentalidade na governança corporativa japonesa: o Action to Implement Management that is Conscious of Cost of Capital and Stock Price. Em tradução livre: uma gestão consciente do custo de capital e do preço das ações.
A pergunta feita às companhias foi simples e, ao mesmo tempo, desconfortável: o capital confiado pelos acionistas está sendo utilizado de maneira eficiente? A empresa gera retorno superior ao custo desse capital? E, se não gera, o que pretende fazer?
A iniciativa começou de forma tímida. Em dezembro de 2023, apenas 49,2% das 1.656 empresas do segmento Prime haviam divulgado suas ações. No segmento Standard, eram somente 18,5%. O resultado, pouco mais de dois anos depois, impressiona. Em junho de 2026, 94% das empresas do Prime – 1.462 companhias – já haviam divulgado suas iniciativas. No Standard, eram 56%, ou 877 empresas.
Mas o mais importante não é a quantidade. É a qualidade da mudança. Desde janeiro de 2026, a Bolsa deixou de mostrar apenas quem divulgou ou não divulgou. Passou a permitir que investidores comparem o conteúdo das estratégias: metas de retorno, política de dividendos, recompra de ações, venda de ativos, reorganização de negócios e, principalmente, critérios para alocação do capital.
Mais significativo ainda: 76% das empresas do Prime que haviam divulgado suas iniciativas já tinham atualizado suas informações até junho. Ou seja, a discussão começa a deixar de ser um exercício pontual de divulgação para se transformar em processo permanente de gestão. É aqui que a história japonesa interessa diretamente aos conselhos de administração.
Governança não é apenas fiscalizar resultados passados. É questionar como a administração pretende utilizar, daqui para frente, os recursos disponíveis para criar valor sustentável. A pergunta que a Bolsa de Tóquio colocou para suas empresas talvez também devesse estar sobre a mesa de muitos conselhos brasileiros: “Estamos apenas administrando a empresa ou estamos, de fato, criando valor com o capital que nos foi confiado?”
Talvez essa seja uma das melhores perguntas que um conselho possa fazer.
Fernando Röhsig – Conselheiro de Administração (CCA – IBGC).



