
A venda da operação de telefonia fixa da Oi para a Método Telecomunicações ainda não significa uma transferência imediata das responsabilidades da companhia. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) determinou que a Oi continuará respondendo pela prestação do Serviço Telefônico Fixo Comutado (STFC) até que todas as etapas necessárias para a conclusão da transação sejam cumpridas.
Na prática, enquanto o negócio não receber a anuência regulatória e for efetivamente concluído, é a Oi que permanece responsável perante os consumidores e a Anatel pela continuidade dos serviços.
A decisão ganha importância porque a operação envolve muito mais do que clientes tradicionais de telefonia fixa. Estão incluídos compromissos de atendimento em milhares de localidades e serviços essenciais de comunicação.
Venda para a Método foi fechada por R$ 60,1 milhões
A Método Telecomunicações venceu o processo competitivo pela aquisição da UPI Serviços Telefônicos da Oi com uma proposta de R$ 60,1 milhões.
O contrato entre as empresas foi formalizado em julho, dentro do processo de recuperação judicial da Oi. A transação, entretanto, depende das aprovações necessárias antes que a transferência seja definitivamente concluída.
É justamente essa diferença entre assinar o contrato e concluir regulatoriamente a transferência que está no centro da decisão da Anatel.
Autorizações não são transferidas automaticamente
A posição da agência estabelece que a venda de uma unidade empresarial não produz automaticamente a transferência das autorizações regulatórias.
Isso significa que, mesmo existindo um comprador e um contrato assinado, a responsabilidade continua com o atual prestador enquanto a Anatel não autorizar a mudança e as condições precedentes da operação não forem cumpridas.
Somente depois do fechamento efetivo da transação as responsabilidades poderão passar para a Método.
Operação envolve mais de 6 mil localidades
A importância do negócio aparece principalmente quando se observa o alcance dos serviços envolvidos.
A Oi possui compromissos de continuidade da telefonia fixa em mais de 6 mil localidades, incluindo áreas onde atua como prestadora responsável por assegurar a disponibilidade do serviço até dezembro de 2028.
Muitas dessas regiões possuem baixa atratividade econômica para as operadoras.
Isso significa que simplesmente interromper a prestação porque determinado serviço deixou de ser comercialmente interessante não é uma alternativa.
Existe uma obrigação de continuidade.
Números de emergência também estão envolvidos
A unidade negociada inclui ainda serviços de interconexão e operações relacionadas aos números de utilidade pública de três dígitos.
É o caso de serviços associados a números como 190, 192 e 193, utilizados para Polícia Militar, Samu e Corpo de Bombeiros.
Isso ajuda a explicar por que a Anatel acompanha a transação com atenção especial.
A discussão não envolve apenas o futuro comercial de uma operadora em recuperação judicial, mas também infraestrutura necessária para manter comunicações consideradas essenciais.
Anatel está preocupada com risco de interrupção
A situação financeira da Oi aumenta a complexidade do processo.
A agência já demonstrou preocupação com a capacidade de manutenção dos serviços em milhares de localidades e exigiu medidas para evitar interrupções.
Um dos pontos de atenção envolve milhares de sites atendidos por infraestrutura de satélite e contratos necessários para manter essas operações funcionando.
Isso cria uma situação delicada.
A Oi precisa continuar prestando os serviços enquanto a Método ainda não assumiu oficialmente as responsabilidades.
Ao mesmo tempo, a própria transferência precisa ocorrer de maneira que não coloque a continuidade da telefonia em risco.
Método terá um desafio maior do que simplesmente comprar os ativos
O valor de R$ 60,1 milhões pode parecer relativamente pequeno para uma operação nacional de telecomunicações.
Isso acontece porque o negócio traz consigo obrigações importantes.
A empresa que assumir definitivamente a operação também terá que lidar com serviços em localidades onde a rentabilidade é limitada.
Há ainda uma discussão sobre as garantias financeiras necessárias para assegurar que a prestação continue até o final dos compromissos estabelecidos.
Portanto, a aquisição não deve ser vista apenas como compra de clientes, infraestrutura e contratos.
Ela representa também a assunção de responsabilidades regulatórias.
Oi continua sendo cobrada pela Anatel
Enquanto a transferência não ocorrer, a agência poderá continuar cobrando diretamente da Oi o cumprimento das obrigações relacionadas ao STFC.
Esse ponto evita uma espécie de vazio regulatório durante a transição.
Sem essa definição, poderia surgir uma situação na qual a Oi argumentasse que vendeu a operação enquanto a Método afirmasse que ainda não recebeu formalmente as autorizações necessárias.
A decisão estabelece uma linha clara:
até a conclusão da operação, a responsabilidade continua sendo da Oi.
Telefonia fixa perdeu espaço, mas ainda é infraestrutura essencial
O número de consumidores utilizando linhas fixas tradicionais diminuiu significativamente com a expansão dos smartphones.
Isso poderia dar a impressão de que o STFC perdeu relevância.
Mas a realidade regulatória é diferente.
Em determinadas regiões, principalmente localidades afastadas, a telefonia fixa ainda pode representar uma infraestrutura importante de comunicação.
Além disso, existem serviços de emergência, interconexão e obrigações específicas que precisam continuar funcionando independentemente da redução comercial do telefone residencial.
Venda representa mais um capítulo da transformação da Oi
A negociação com a Método também faz parte de uma transformação muito maior vivida pela Oi.
Ao longo dos últimos anos, a companhia vendeu diferentes ativos e reduziu sua presença em segmentos que durante décadas formaram a base de suas operações.
A telefonia móvel foi negociada com Claro, TIM e Vivo, enquanto outros ativos passaram por processos próprios de alienação.
A venda da UPI Serviços Telefônicos representa mais uma etapa desse processo.
Mas, diferentemente de um ativo puramente comercial, o STFC carrega compromissos regulatórios que precisam sobreviver à mudança de proprietário.
Consumidor não pode ficar no meio da transição
A posição da Anatel reforça um princípio fundamental das telecomunicações: uma negociação empresarial não pode resultar na interrupção de serviços essenciais.
Oi e Método podem negociar ativos, contratos e responsabilidades.
Mas, para quem depende do serviço, a transição precisa ocorrer sem ruptura.
Por isso, a conclusão da venda dependerá não apenas do acordo comercial entre as empresas, mas também da capacidade de demonstrar ao regulador que a Método poderá assumir as obrigações e manter a continuidade dos serviços atualmente sob responsabilidade da Oi.
Até que essa transferência seja efetivamente concluída, a determinação é clara: para a Anatel e para os usuários, a responsabilidade continua sendo da Oi.



