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O paradoxo da confiança: por que 95% dos líderes se sentem preparados para a IA, mas só 33% realmente estão

Uma pesquisa recente da SAP e da Oxford Economics mostra que 82% das empresas brasileiras já convivem com o uso não autorizado de ferramentas de IA. Entenda os riscos e por que governança, não proibição, é o caminho.

Nesta semana, em uma pesquisa recente da SAP em parceria com a Oxford Economics, me deparei com um número que resume bem o momento que as empresas brasileiras atravessam com a inteligência artificial: 82% delas convivem, hoje, com o uso não autorizado de ferramentas de IA por parte de seus colaboradores.

O dado por si só já seria motivo de atenção. Mas o que realmente chama atenção é outro número, levantado por um estudo complementar da Read AI: 95% dos líderes empresariais dizem confiar na preparação de suas organizações para lidar com os riscos da IA. Apenas 33% delas, no entanto, atingem o que a pesquisa classifica como padrão ouro de maturidade em segurança.

Entre a confiança declarada e a maturidade real, há uma distância que nenhuma liderança deveria ignorar.

Por que o Shadow AI cresce

O fenômeno tem nome técnico, Shadow AI, mas a explicação por trás dele é bastante simples. Segundo a Read AI, 68% dos profissionais brasileiros usam inteligência artificial diariamente no trabalho. Apenas 31% deles, porém, têm acesso oficial a ferramentas aprovadas ou algum tipo de treinamento formal.

Diante dessa lacuna, a resposta natural é a adaptação individual. Um levantamento da KnowBe4 mostra que 40% dos profissionais recorrem a ferramentas próprias de IA no ambiente corporativo, muitas vezes por conta própria e sem qualquer supervisão. A Cisco, por sua vez, identificou que 58% dos participantes brasileiros já inseriram informações corporativas não públicas em ferramentas generativas.

O colaborador não está, na maioria dos casos, agindo de má fé. Está apenas resolvendo um problema real com a ferramenta que tem à mão.

Os riscos concretos, em números

Quando o uso de IA acontece fora de qualquer governança, as consequências deixam de ser hipotéticas. O mesmo estudo da SAP e da Oxford Economics mostra que, entre as empresas que convivem com Shadow AI, 43% já sofreram vazamento de dados ou exposição de propriedade intelectual, 32% identificaram vulnerabilidades de segurança e 31% registraram violações de compliance.

Há também um custo financeiro direto. Segundo o relatório Cost of a Data Breach 2025, da IBM, organizações com alto nível de Shadow AI pagam, em média, cerca de US$ 670 mil a mais por incidente de segurança do que aquelas com uso mínimo de ferramentas não autorizadas.

Para uma liderança executiva, esse é o tipo de número que transforma um assunto de TI em pauta de conselho.

A lente da LGPD

No Brasil, o uso não autorizado de IA carrega ainda uma camada regulatória que poucas lideranças param para considerar com a devida atenção. Quando um colaborador insere dados corporativos em uma ferramenta de IA não sancionada, a empresa perde o controle sobre pelo menos três frentes exigidas pela LGPD.

A primeira é a base legal para o tratamento, muitas vezes indefinida nesse tipo de uso. A segunda é a localização dos dados, que passam a residir em servidores e provedores fora do conhecimento formal da organização. A terceira é a transparência com os titulares, que seguem sem saber que suas informações circulam por ferramentas às quais nunca deram consentimento explícito.

(Na minha experiência à frente de áreas de tecnologia, tenho visto repetidamente que esse tipo de exposição raramente nasce de má intenção. Nasce da ausência de um caminho oficial, claro e rápido o suficiente para competir com a praticidade de uma ferramenta gratuita a um clique de distância.)

Governança como vantagem competitiva

A resposta mais comum ao Shadow AI costuma ser a proibição. É também a menos eficaz. Bloquear ferramentas sem oferecer alternativa formal apenas empurra o uso para debaixo do radar, tornando o risco menos visível e mais difícil de gerenciar.

A alternativa que tem se mostrado mais eficiente combina três frentes complementares. A primeira é um inventário claro das ferramentas de IA autorizadas, com critérios objetivos de avaliação e contratação. A segunda é uma classificação de risco que diferencie usos triviais de usos sensíveis, evitando tratar todo uso de IA com o mesmo grau de restrição. A terceira é uma política corporativa acompanhada de monitoramento contínuo e, sobretudo, de capacitação recorrente das equipes.

Governança, nesse sentido, deixa de ser um freio para se tornar um diferencial competitivo. Empresas que constroem esse caminho com clareza permitem que suas equipes usem IA com confiança e velocidade, sem transformar cada interação em um risco não mapeado.

Diante de um cenário em que 82% das empresas brasileiras já convivem com uso não autorizado de IA, a pergunta que fica não é mais se a sua organização será afetada por esse fenômeno. É se, quando isso acontecer, existirá algum tipo de estrutura pronta para responder, ou se a confiança que hoje parece sólida vai se revelar, como para tantas outras, apenas aparente.

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