
Deixa eu começar com uma pergunta que costuma incomodar quem vive dentro de um centro de operações de segurança: o seu time gasta mais energia investigando alerta falso ou caçando ameaça real? Se você medir de verdade, a resposta dói. A maior parte do dia de um analista some na triagem de eventos que não levam a lugar nenhum. E enquanto a equipe se afoga nesse ruído, o incidente que realmente importa passa despercebido, escondido no meio de milhares de sinais irrelevantes.
É exatamente aí que a inteligência artificial generativa entrega valor concreto, e os números do Gartner ajudam a separar o hype do que muda na prática. Segundo o Gartner, até 2027 a IA generativa vai contribuir para uma redução de 30% na taxa de falsos positivos em detecção de ameaças e em testes de segurança de aplicações, refinando os resultados que vêm de outras técnicas. Um outro relatório da consultoria projeta que empresas que combinam IA generativa com uma arquitetura de plataforma integrada terão até 40% menos incidentes ligados a comportamento e cultura de segurança. Mas o dado que mais me chamou a atenção não é uma promessa, é uma ressalva: o próprio Gartner alerta que a IA, mal orientada, pode gerar ainda mais alertas, exigindo mais, e não menos, resposta humana.
Essa ressalva é o coração da questão. No mercado, vejo muita empresa comprando IA como quem compra um substituto para o analista, esperando demitir a complexidade. Não é isso que acontece. A IA generativa brilha na triagem, na correlação de eventos e na redução do falso positivo, ou seja, no trabalho repetitivo que consome o time e não exige julgamento. O que ela faz de melhor é devolver ao analista o tempo para as decisões que só um humano toma: entender o contexto de negócio, avaliar intenção, decidir o que isolar. Já tratei aqui no Café com Bytes da IA como aliada na trincheira da defesa e, do outro lado, dos EDR killers movidos por IA que desligam a proteção antes do golpe. Este é o terceiro vértice do mesmo triângulo: a IA que, bem governada, reduz o ruído que hoje esconde o ataque.
E o mercado brasileiro já entendeu o recado. Tem se repetido por aqui que não é mais possível enfrentar o cibercrime sem inteligência artificial, e o uso estratégico da IA nas operações aparece como uma das tendências centrais de 2026. O risco, para mim, não está em adotar a IA. Está em adotá-la sem governança, terceirizando à máquina a decisão que deveria continuar sendo humana. IA sem supervisão não é maturidade, é uma nova forma de ponto cego.
Então fica a provocação para você levar à sua próxima reunião de segurança: a sua equipe está usando a IA para pensar melhor, ou apenas para gerar mais alertas que ninguém vai ler? Agradeço por acompanhar mais um artigo do Café com Bytes. Se esse tema fizer sentido para alguém da sua rede, compartilhe e deixe seu comentário.
Rodrigo Rocha
Co-fundador e Head de Soluções de Cibersegurança da Gruppen it Security
Fontes
Gartner, “4 Ways Generative AI Will Transform Security Operations” (ID G00793265).
Gartner, “Top Trends in Cybersecurity” (ID G00822766).



