
A Black Friday de 2026 deve movimentar R$13,3 bilhões no comércio eletrônico brasileiro entre 26 e 29 de novembro, crescimento de 20,7% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo projeção da Neotrust, em parceria com o E-Commerce Brasil. A estimativa indica uma temporada aquecida, mas os dados do próprio setor mostram um comportamento que merece atenção: de janeiro a setembro, o número de pedidos cresceu 34,9%, enquanto o valor médio de cada compra caiu 13,4%.
Essa combinação ajuda a entender o momento do consumidor brasileiro. Existe disposição para comprar, mas há também maior atenção ao preço, às condições de pagamento e ao comprometimento da renda. Para as empresas, isso exige uma análise mais cuidadosa sobre o papel do crédito na estratégia comercial, especialmente em um período que concentra a Black Friday e as compras de Natal.
Uma pesquisa da Serasa Experian divulgada em outubro reforça a importância do parcelamento. Segundo o levantamento, dois em cada três consumidores propensos a comprar na Black Friday preferem dividir o pagamento. Essa preferência aparece inclusive entre pessoas de renda mais elevada, o que mostra que parcelar não é necessariamente uma consequência da falta de recursos. Em muitos casos, trata-se de uma decisão sobre como organizar o orçamento e preservar dinheiro disponível para outras despesas.
O comportamento também revela uma mudança importante para o varejo. As condições de pagamento deixaram de ser apenas uma etapa operacional da compra e passaram a influenciar a escolha do estabelecimento, o valor gasto e a própria decisão de consumir.
Para quem vende, entretanto, oferecer mais parcelas não é uma solução automática. Existe um custo associado ao crédito, assim como riscos que variam conforme o perfil do consumidor, o prazo de recebimento e a estrutura financeira de cada empresa. Uma campanha pode apresentar crescimento expressivo em faturamento e, ainda assim, produzir um resultado abaixo do esperado quando esses fatores não são considerados.
Vejo esse ponto como uma das principais questões para os próximos meses. A Black Friday acontece no fim de novembro, mas o consumidor já recebe ofertas ao longo de praticamente todo o mês. Parte das compras de Natal pode ser antecipada, enquanto outra parcela do público chegará a dezembro com menos espaço no orçamento. O varejista precisa considerar esse movimento ao definir promoções, condições de crédito e metas comerciais.
Também é importante reconhecer que consumidores com perfis financeiros diferentes não respondem da mesma forma às ofertas. Há quem procure o menor preço, quem priorize o valor da parcela e quem prefira pagar à vista para evitar compromissos futuros. A análise dessas diferenças permite construir propostas comerciais mais adequadas, sem depender exclusivamente de descontos ou de prazos cada vez maiores.
Nesse contexto, as soluções de crédito integradas à jornada de compra ganham relevância. O uso de dados pode apoiar avaliações mais precisas de risco e ajudar as empresas a oferecer condições compatíveis com a capacidade de pagamento de cada cliente. Essa evolução também abre espaço para que varejistas tenham maior participação na oferta de serviços financeiros, desde que exista uma estrutura adequada de gestão e acompanhamento.
A discussão se torna ainda mais importante diante da proximidade entre as duas datas. O resultado de novembro não pode ser analisado sem considerar seus efeitos sobre dezembro. Antecipar vendas pode ser positivo, mas é necessário avaliar se houve aumento efetivo do consumo ou apenas uma mudança no momento da compra.
Na minha avaliação, a temporada de 2026 exigirá das empresas maior atenção à relação entre crédito, comportamento de consumo e rentabilidade. O volume de vendas continua importante, mas precisa ser acompanhado por indicadores que mostrem a qualidade dessas operações, os custos envolvidos e seus efeitos sobre o caixa.
A Black Friday oferece uma oportunidade comercial relevante. Para aproveitá-la, será necessário compreender não apenas o que o consumidor pretende comprar, mas também como ele deseja pagar e quais condições as empresas podem oferecer de forma sustentável.



