Colunistas
Tendência

Japão: o conselheiro que vem de fora.

Por Fernando Röhsig

Na preparação para minha Jornada Técnica do IBGC ao Japão, uma expressão chamou minha atenção: shagai torishimariyaku. Em tradução livre, “diretor externo”. Mais do que uma palavra difícil de pronunciar, ela representa uma mudança importante na forma de pensar o papel dos conselhos de administração japoneses.

O Japão construiu seu modelo de governança a partir de uma tradição empresarial na qual os profissionais que chegavam ao topo frequentemente haviam construído toda a carreira dentro da própria companhia. Conhecimento do negócio, lealdade e experiência interna eram valores importantes. Mas havia um risco: quando quase todos ao redor da mesa pensam a partir da mesma perspectiva, quem questiona as decisões?

É nesse ponto que ganha relevância o diretor externo – e, sobretudo, o diretor externo independente. Sua contribuição não está em conhecer mais do que os executivos sobre a operação. Está em fazer perguntas que talvez não sejam feitas internamente, confrontar premissas, avaliar riscos e ajudar o conselho a enxergar aquilo que a administração, pela proximidade com o negócio, pode não perceber.

Essa discussão ganhou força depois de episódios como o escândalo da Livedoor, em 2006, e o caso Olympus, em 2011. Em ambos, problemas graves de transparência e supervisão mostraram que controles e estruturas formais não são suficientes quando falta independência para questionar a administração.

O Código de Governança Corporativa japonês, criado em 2015 e posteriormente revisado, reforçou essa direção. Entre seus cinco princípios estão a transparência, a responsabilidade do conselho, o respeito aos acionistas, a consideração pelos demais stakeholders e o diálogo construtivo com investidores. Há aqui uma ideia que me parece especialmente relevante para nós, no Brasil: independência não significa distância; significa liberdade para exercer o julgamento.

O bom conselheiro externo precisa conhecer a empresa, sua estratégia, sua cultura e seus desafios. Mas não pode se tornar prisioneiro da sua história. Precisa ter proximidade suficiente para compreender e independência suficiente para perguntar: “Por quê?”, “E se estiver errado?” e “Que risco ainda não estamos enxergando?”.

Na preparação para a viagem, também descobri o papel do BDTI – Board Director Training Institute of Japan -, organização japonesa dedicada à formação de diretores e à disseminação das boas práticas de governança. A existência de instituições especializadas na preparação de conselheiros revela outra dimensão importante: ocupar uma cadeira no conselho não é apenas receber uma responsabilidade; é preparar-se para exercê-la.

É essa perspectiva que pretendo observar no Japão: não apenas como são formados os conselhos, mas como se constrói, na prática, a coragem de discordar, a qualidade das perguntas e a responsabilidade de decidir.

Talvez essa seja uma das primeiras lições que a Jornada possa trazer: em governança, o valor de um conselheiro não está somente nas respostas que possui, mas na qualidade das perguntas que é capaz de fazer.

Fernando Röhsig – Conselheiro de Administração (CCA – IBGC).

Fernando Rohsig

Conselheiro Independente para Conselho de Administração, Consultivo, Fiscal e de Família. Mestre em Controladoria pela Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS. Especializações em “Managing a Global Business” pela HEC (Paris/França) e Gestão Empresarial, Recursos Humanos, Gestão da Qualidade, Custos e Produção, todos pela UFRGS. Também é pós-graduado em Gestão da Qualidade pela Unisinos. Graduado em Administração de Empresas pela UFRGS. Certificado como Conselheiro de Administração pelo IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa). Realizou cursos complementares pela FIERGS na Stanford School of Business, pela Fundação Dom Cabral na Kellogg School Of Management (Northwestern – Chicago/EUA), Tsinghua University (Beijing/China), Cambridge Univesity (Climate Governance Initiative) e Role of the Chair e Leadership Essentials for Navigating Complexity – IoD Institute of Directors (Londres/Inglaterra) e Univesrity of Pennsylvania - Wharton School – Ai Leadership Program (Pensilvânia/EUA). Professor de Graduação, Pós-Graduação e In Company na UFRGS, ESPM, La Salle, Sicredi, Unicred, Sicoob e Univates. Trabalhos voluntários em diversas entidades, com destaque para Junior Achievement (RS) e IBGC Capítulo Sul. Integrante de grupos do IBGC em Jornadas Técnicas ao Vale do Silício em Ago/18, Israel em Mai/19, Inglaterra em Set/23, China em Out/Nov/24, EUA em Set/25 e Japão em Nov/26. Atuação como executivo por mais de trinta anos em Finanças e Operações. Proprietário da F&F_Allegra_Consultoria. Trabalhos desenvolvidos em nível de conselho e direção para empresas de atuação em cooperativas de crédito, médicos, de infraestrutura de energia renovável (geração e distribuição), empresas de comunicação, telecom, design, varejo (moda), bancos / fintechs, franquias, indústrias de alimentos, metal mecânica, química, explosivos, mineração, equipamentos pesados, odontológicos e de estética, construção civil e de infraestrutura pesada, entre outras.

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo