Colunistas
Tendência

A memória acabou: a corrida da IA esvaziou as fábricas de chips e a conta chegou no seu orçamento de TI

O plano de renovação de computadores que a sua empresa aprovou em janeiro provavelmente já não compra o mesmo parque de máquinas hoje. Não foi a inflação, não foi o câmbio e não foi o fornecedor esticando a margem. Foi a inteligência artificial, que passou a disputar com você cada chip de memória que sai das fábricas. E nessa fila, a sua empresa está atrás.

Em 4 de julho de 1993, uma explosão atingiu a planta da Sumitomo Chemical em Niihama, no Japão. A fábrica concentrava a maior parte da produção mundial da resina epóxi usada para encapsular chips de memória. Em questão de dias, o preço da RAM disparou no planeta inteiro, e a indústria descobriu, da pior forma possível, que a cadeia global de tecnologia dependia de um único ponto de falha do tamanho de um galpão.

Trinta e três anos depois, a indústria descobriu que ainda não internalizou essa lição. A diferença é que, desta vez, ninguém explodiu nada. O gargalo de 2026 foi construído de propósito, contrato a contrato, pelos maiores compradores de tecnologia da história: os data centers de inteligência artificial.

A máquina que come memória

A explicação técnica cabe em uma frase: os aceleradores de IA usam um tipo de memória chamado High Bandwidth Memory (HBM), e as fabricantes redirecionaram suas linhas de produção para ele. Segundo a distribuidora Avnet, a oferta global de DRAM deve crescer apenas 16% em 2026, e a de NAND, 17%, bem abaixo da faixa histórica de 20% a 30%. O efeito é multiplicado por um detalhe de fabricação: a Micron estima que produzir HBM consome cerca de três vezes mais capacidade de wafer do que a memória DDR5 comum. Cada lote de memória para IA que entra na linha empurra três lotes de memória convencional para fora.

Some a isso a concentração de compradores. Reportagens replicadas pelo Olhar Digital indicam que Samsung e SK Hynix teriam comprometido até 40% da produção global de DRAM com um único projeto de infraestrutura ligado à OpenAI, e estimativas de mercado reunidas pela Octopart apontam que os data centers de IA podem consumir até 70% da produção de DRAM de ponta em 2026. (Se parece exagero, lembre que há dois anos esse consumo era minoritário frente ao de eletrônicos de consumo. A pirâmide inverteu.)

Os números que doem

O resultado apareceu na etiqueta. O preço da DRAM para servidores praticamente dobrou no primeiro trimestre de 2026, e a Counterpoint Research registrou altas de 80% a 90% em um único trimestre para DRAM, NAND e HBM. A Tom’s Hardware reporta que os contratos de DRAM devem subir mais 13% a 18% no terceiro trimestre, uma desaceleração apenas aparente depois dos saltos de cerca de 60% do trimestre anterior. A Deloitte projeta que a memória para servidores de IA quadruplique de preço ao longo de 2026 e não espera capacidade produtiva nova relevante antes de 2029.

A conta já começou a ser repassada. Em 23 de agosto, a Bloomberg noticiou que a Nvidia avisou grandes clientes de que os servidores das gerações Grace Blackwell e Vera Rubin ficarão mais de 15% mais caros (a Reuters ressalvou que não conseguiu confirmar os detalhes de forma independente). A Apple elevou preços de produtos em até 20% e a Amazon subiu o Echo Dot em 60%, ambas citando o custo de memória. Até a Crucial, marca de varejo da Micron presente em qualquer loja de informática, deixou de existir: em dezembro, a fabricante encerrou a linha de consumo para realocar tudo em memória empresarial e HBM. Um kit de 32 GB que custava 90 dólares em julho de 2025 chegou a ser listado por 459 dólares.

O elefante brasileiro na sala

O Brasil não fabrica um único chip de memória. Tudo o que a sua empresa compra, do notebook do estagiário ao servidor do ERP, chega importado e precificado em dólar, o que significa que a crise aterrissa aqui com o câmbio embutido. O tema já saiu do nicho técnico: a Superinteressante dedicou a coluna de tecnologia de 24 de agosto à crise da memória. E os números explicam o interesse. A Gartner projeta queda de 10,4% nos embarques globais de PCs em 2026, não porque as empresas decidiram comprar menos, mas porque o preço subiu e a resposta foi adiar a troca. A recomendação da consultoria, reportada pela Channelweb, é dura: ou o orçamento de renovação cresce de 8% a 12% para manter o mesmo volume de máquinas, ou o parque atual terá de durar mais. É a segunda via que está vencendo: o ciclo de vida médio do PC corporativo deve se alongar cerca de 15% em 2026.

E não adianta achar que migrar tudo para a nuvem resolve. Os hiperescaladores compram a mesma memória, na mesma fila, e repassam o custo na assinatura. A Micron declarou que a escassez deve perdurar além de 2026, a Gartner fala em aperto até pelo menos o primeiro semestre de 2027, e as projeções mais conservadoras citadas pelo setor falam em preços altos por mais dois anos. Ou seja: isso não é turbulência de um trimestre, é o novo cenário de planejamento.

O que muda para o CIO em 2026

A primeira é de orçamento. Reprecifique agora o plano de 2027. A referência da Gartner, de 8% a 12% a mais apenas para manter o volume de máquinas, é o piso da conversa com a diretoria, não o teto. Levar esse número ao comitê antes do fechamento do orçamento custa menos do que explicar o estouro depois.

A segunda é de ciclo de vida. Alongar a vida do parque deixou de ser sinal de TI mesquinha e virou estratégia recomendada por consultoria. Separe quem realmente precisa de máquina nova de quem precisa apenas de manutenção e armazenamento mais rápido, e documente o risco: equipamento mais velho exige mais atenção com segurança e suporte.

A terceira é de contrato. Compra de memória virou disciplina de suprimentos. Antecipe pedidos, trave preço e volume com fornecedores homologados e desconfie do mercado avulso: escassez é o habitat natural do componente falsificado e do intermediário criativo.

A pergunta que fica

Há uma ironia fina nessa história. A promessa da inteligência artificial é reduzir custos, e o primeiro efeito macroeconômico visível dela foi encarecer o computador de quem trabalha. A tecnologia que veio para otimizar o seu orçamento começou comendo uma fatia dele, antes mesmo de você decidir se vai adotá-la.

Enquanto a sua empresa ainda discute o que fazer com a IA, a IA já decidiu o que fazer com o seu orçamento; a pergunta é se o seu planejamento de 2027 percebeu.

  • • •

Até o próximo Café com Bytes, com ceticismo saudável e café bem passado.

Ricardo Brasil

Especialista em IA Responsável e Diretor de TI na GWS Engenharia

Colunista Café com Bytes  |  Tecnologia  |  Inteligência Artificial

Sobre o Autor

Ricardo Brasil é Diretor de TI e Gestão Corporativa da GWS Engenharia, especialista em IA Responsável, transformação digital e governança de TI. É colunista da série Café com Bytes, onde escreve semanalmente sobre tecnologia, inteligência artificial e seus impactos no ambiente corporativo brasileiro.

Fontes

24/7 Wall St., com dados da Counterpoint Research e da Deloitte sobre preços de DRAM, NAND e HBM (23 de agosto de 2026); Bloomberg, sobre o reajuste de mais de 15% nos servidores da Nvidia, com ressalva de verificação da Reuters (23 de agosto de 2026); Tom’s Hardware, projeções de contratos de DRAM e NAND para o terceiro trimestre de 2026 (agosto de 2026); Avnet, projeção de crescimento da oferta global de DRAM e NAND em 2026; Olhar Digital, sobre o comprometimento de produção de Samsung e SK Hynix com projeto ligado à OpenAI (2026); Octopart, estimativas de consumo de DRAM de ponta por data centers de IA (2026); Gartner, projeções de embarques de PCs, orçamento corporativo e ciclo de vida, via Channelweb (2026); Micron, declarações sobre a duração da escassez, via Tecnoblog (2026); Superinteressante, coluna de tecnologia de Bruno Garattoni sobre a crise da memória (24 de agosto de 2026); Fury, levantamento de preços de kits de memória DDR4 e DDR5 (agosto de 2026).

Ricardo Brasil

Executivo de IA e Transformação Digital | Colunista Café com Bytes Com mais de 20 anos liderando inovação e transformação em larga escala nos EUA e América Latina, trago para o Café com Bytes uma perspectiva estratégica sobre o futuro da IA corporativa. Minha jornada começou em cibersegurança, onde construí expertise em gestão de riscos e governança de TI, alicerces que hoje orientam minha atuação em IA Responsável e Agentic AI. Foi na Microsoft que adquiri minha experiência mais significativa em IA, desenvolvendo frameworks de governança e estratégias empresariais que garantem que a IA seja implantada com impacto, ética e escala. Sou autor do livro “5 Passos para a IA Responsável”, onde sistematizo essa abordagem prática para implementação ética de IA nas organizações. Já liderei equipes globais de 500+ profissionais e conduzi integrações pós-M&A e programas de excelência operacional. Combino visão estratégica com execução disciplinada, sempre traduzindo tecnologias emergentes em resultados de negócio mensuráveis. Aqui no Café com Bytes, compartilho insights práticos sobre IA corporativa, governança tecnológica, cibersegurança e liderança em transformação digital para executivos que precisam navegar a revolução da IA com confiança, segurança e clareza estratégica.

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo