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Golpes com dados pessoais atingem 45 milhões de internautas no Brasil e expõem dimensão das fraudes digitais

Pesquisa do Cetic.br revela que 32% dos usuários de internet com 16 anos ou mais relataram tentativas de fraude envolvendo informações pessoais em 2025. Aplicativos de mensagens lideram as abordagens, enquanto quase metade dos afetados relata perda de dinheiro próprio ou de familiares.

O uso indevido de informações pessoais tornou-se um dos principais instrumentos utilizados por criminosos digitais no Brasil. Cerca de 45 milhões de usuários de internet com 16 anos ou mais foram alvo de tentativas de golpes envolvendo seus dados pessoais em 2025, segundo levantamento divulgado pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br).

O número representa 32% dos internautas brasileiros nessa faixa etária, aproximadamente um em cada três usuários. Mais preocupante ainda é que 20% afirmaram ter efetivamente sido vítimas desse tipo de fraude — o equivalente a aproximadamente 27,5 milhões de pessoas.

Os resultados fazem parte da terceira edição da pesquisa “Privacidade e proteção de dados pessoais: perspectivas de indivíduos, empresas e organizações públicas no Brasil”, produzida pelo Cetic.br, departamento do NIC.br ligado ao Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), com apoio da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD).

O estudo ajuda a dimensionar uma realidade que deixou de ser pontual: tentativas de fraude circulam por praticamente todos os principais canais de comunicação utilizados pelos brasileiros.

WhatsApp e outros aplicativos de mensagens lideram os golpes

Entre as pessoas que relataram tentativa ou ocorrência de golpe envolvendo dados pessoais, 84% apontaram aplicativos de mensagens como um dos meios utilizados pelos criminosos.

As ligações telefônicas aparecem logo atrás, mencionadas por 79%.

Sites ou aplicativos falsos e SMS foram citados por 71% dos entrevistados, enquanto e-mails aparecem com 69% e redes sociais, com 67%. Como os participantes podiam indicar mais de um canal, os percentuais não precisam totalizar 100%.

Os números demonstram como o crime digital deixou de depender de uma única técnica.

Uma mesma campanha fraudulenta pode começar com uma mensagem no celular, continuar em uma ligação e terminar em um site falso criado para capturar credenciais bancárias ou outras informações.

Dados pessoais tornam os golpes mais convincentes

Uma das razões para a preocupação está na quantidade de informações que criminosos conseguem utilizar durante uma abordagem.

Nome completo, telefone, CPF, endereço, informações familiares e outros dados podem ser utilizados para aumentar a credibilidade de uma mensagem.

Isso cria golpes muito diferentes dos antigos e-mails genéricos enviados indiscriminadamente.

Imagine receber uma mensagem aparentemente enviada por uma instituição conhecida contendo seu nome e alguma informação verdadeira sobre você.

Mesmo que o restante da história seja falso, a presença de dados legítimos pode diminuir a desconfiança inicial.

Esse mecanismo está no centro de diversas modalidades modernas de engenharia social.

Nem todo golpe com dados é necessariamente personalizado

Existe, porém, uma distinção importante.

O fato de uma pessoa perceber que seus dados foram utilizados não significa necessariamente que um criminoso tenha construído manualmente uma fraude especificamente para ela.

Winston Oyadomari, coordenador da pesquisa do Cetic.br, explicou que determinadas abordagens podem envolver disparos em massa. Um SMS com um telefone falso de uma suposta central, por exemplo, pode ser interpretado pelo usuário como uso inadequado de seus dados porque o criminoso possui seu número, mesmo que milhares de mensagens semelhantes tenham sido enviadas simultaneamente.

Essa capacidade de automatização ajuda a explicar a enorme escala das tentativas.

Quase metade relata perda de dinheiro

Os danos não ficam restritos ao susto de receber uma mensagem suspeita.

Entre aqueles que vivenciaram tentativas ou foram vítimas das situações pesquisadas, 48% afirmaram que dinheiro próprio ou de familiares foi roubado.

O impacto emocional aparece ainda mais frequentemente.

Mal-estar ou estresse emocional foi mencionado por 58% dos entrevistados afetados.

Além disso, 43% relataram perda de acesso a contas de e-mail ou redes sociais, enquanto 42% disseram que foram realizadas dívidas ou compras em seu nome ou de familiares.

Outros 42% afirmaram ter sofrido roubo de informações, incluindo dados bancários, números de cartões ou senhas.

Isso mostra que uma fraude digital pode provocar uma sequência de problemas.

O prejuízo não necessariamente termina quando o dinheiro é transferido.

Conta roubada pode ser usada para atacar outras pessoas

Quando um criminoso consegue assumir o controle de uma conta de WhatsApp, Instagram, Facebook ou e-mail, aquela identidade digital pode se transformar em ferramenta para novos golpes.

A partir daí, amigos, familiares, colegas de trabalho ou clientes passam a receber mensagens enviadas por uma conta legítima.

O criminoso pode pedir dinheiro, simular uma emergência ou oferecer produtos inexistentes.

Para quem recebe a mensagem, existe um elemento adicional de confiança: o contato realmente pertence a alguém conhecido.

Por isso, proteger contas digitais também significa reduzir o risco de outras pessoas serem atingidas.

Golpes também atingem famílias inteiras

O levantamento do Cetic.br mostra que o problema não está limitado aos próprios entrevistados.

Entre os usuários consultados, 39% disseram que alguém tentou aplicar um golpe contra uma pessoa de sua família utilizando dados pessoais de algum familiar.

Outros 32% afirmaram que alguém da família efetivamente foi vítima.

Esse dado reforça como informações aparentemente isoladas podem ser combinadas.

Um criminoso pode conhecer nomes de parentes e utilizar essas relações para criar histórias mais convincentes.

Golpes simulando familiares em emergência são um exemplo conhecido desse tipo de engenharia social.

Quem usa somente o celular enfrenta um risco particular

A pesquisa identificou ainda diferenças relacionadas aos dispositivos utilizados para acessar a internet.

Entre usuários que navegam exclusivamente pelo telefone celular, 80% daqueles atingidos pelas situações pesquisadas mencionaram sites ou aplicativos falsos.

Entre quem utiliza celular e computador, o percentual foi de 68%.

Esse foi o único canal pesquisado cuja incidência relatada ficou maior entre os usuários exclusivamente móveis.

Nos aplicativos de mensagens, a diferença é pequena: 83% entre quem utiliza apenas celular e 85% entre quem combina celular e computador.

Nas ligações telefônicas, os percentuais foram de 75% e 81%, respectivamente.

O smartphone virou o centro da identidade digital

Esses números ganham importância porque o celular concentra uma quantidade enorme de informações pessoais.

Para milhões de brasileiros, o smartphone reúne:

aplicativos bancários;

WhatsApp;

e-mail;

redes sociais;

documentos digitais;

fotografias;

serviços públicos;

aplicativos de compras;

carteiras digitais;

e mecanismos de recuperação de senhas.

Isso significa que comprometer o dispositivo ou uma das principais contas associadas a ele pode abrir caminho para diferentes tipos de fraude.

O telefone deixou de ser simplesmente um aparelho de comunicação e tornou-se uma espécie de chave da identidade digital.

Práticas de proteção não estão avançando na mesma velocidade

Outro resultado preocupante do estudo aparece quando os pesquisadores analisam o comportamento dos próprios usuários.

Em 2025, 65% disseram ter lido políticas de privacidade de páginas ou aplicativos.

Em 2021, eram 68%.

Também houve redução na parcela que declarou verificar a segurança de páginas ou aplicativos: o índice caiu de 70% para 63% no mesmo período.

Ou seja, justamente quando as fraudes digitais se tornam mais sofisticadas e disseminadas, algumas práticas de gerenciamento da privacidade não estão avançando.

Usuários estão negando publicidade personalizada

Por outro lado, existem comportamentos que mostram maior preocupação com a utilização comercial dos dados.

A pesquisa aponta que 67% dos usuários recusaram permissão para utilização de suas informações em publicidade personalizada.

Outros 57% restringiram acesso à localização geográfica e 60% limitaram o acesso aos seus perfis em redes sociais.

Entretanto, apenas 40% solicitaram a sites, aplicativos ou mecanismos de busca a exclusão de informações mantidas sobre eles.

Esse último mecanismo ganhou maior relevância com a entrada em vigor da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

Inteligência artificial adiciona uma nova dimensão ao problema

A terceira edição da pesquisa também analisou pela primeira vez questões relacionadas à privacidade no uso de ferramentas de inteligência artificial generativa.

Os resultados revelam uma contradição interessante.

Ao mesmo tempo em que existe preocupação com privacidade, muitos usuários compartilham uma quantidade significativa de informações com chatbots.

Entre os conteúdos fornecidos a ferramentas de IA, 73% mencionaram assuntos de trabalho ou estudo e 58% preferências e gostos pessoais.

Informações ainda mais pessoais também aparecem.

Cerca de 54% mencionam sentimentos ou emoções, 52% compartilham dados relacionados à saúde e 50% fornecem fotografias próprias ou de pessoas conhecidas.

Informações financeiras aparecem com 41%.

37% afirmaram fornecer dados pessoais como nome, endereço, data de nascimento ou CPF.

Brasileiros demonstram preocupação com dados enviados à IA

Essa disposição para compartilhar informações não significa ausência de preocupação.

Segundo o levantamento, 66% dos usuários de ferramentas de IA disseram estar preocupados com a maneira como as empresas responsáveis por essas plataformas utilizam seus dados pessoais.

O cenário cria um novo desafio para educação digital.

Durante anos, campanhas de segurança ensinaram usuários a não fornecer senhas e dados bancários em sites suspeitos.

Com a inteligência artificial, a questão se torna mais complexa.

Uma plataforma legítima pode receber informações que o usuário espontaneamente decide inserir durante uma conversa.

Por isso, empresas e usuários precisam compreender claramente como esses dados são processados e quais informações realmente precisam ser compartilhadas.

IA também pode tornar fraudes mais sofisticadas

A inteligência artificial aparece dos dois lados da disputa.

Ela pode ajudar empresas a identificar atividades suspeitas, analisar transações e detectar comportamentos incompatíveis com o perfil do usuário.

Mas também pode ser utilizada por criminosos.

Ferramentas generativas permitem criar textos convincentes rapidamente, adaptar mensagens para diferentes públicos, produzir imagens falsas e automatizar determinadas etapas de campanhas fraudulentas.

Tecnologias de geração de áudio e vídeo também aumentam a preocupação com deepfakes.

Um criminoso pode tentar reproduzir a voz ou aparência de uma pessoa conhecida para tornar uma fraude mais convincente.

Por isso, pedidos urgentes de dinheiro ou informações sensíveis precisam ser confirmados por outro canal, mesmo quando aparentemente partem de alguém conhecido.

Fraudes de identidade cresceram em 2026

Outros levantamentos recentes reforçam a dimensão do problema.

A Serasa Experian identificou 1.495.696 tentativas de fraude em cadastros e validações de identidade digital somente no primeiro trimestre de 2026, alta de 36,6% em relação ao mesmo período do ano anterior.

O volume equivale aproximadamente a uma tentativa a cada cinco segundos.

Caso não tivessem sido bloqueadas pelos sistemas antifraude analisados pela empresa, essas ocorrências poderiam gerar prejuízos de até R$ 1,98 bilhão para consumidores e empresas.

O setor financeiro concentrou seis em cada dez tentativas identificadas nesse recorte.

Telefonia também aparece entre os setores mais atacados

Um dado particularmente relevante para o mercado de telecomunicações está na distribuição das tentativas de fraude de identidade.

Segundo o Mapa da Fraude da Serasa Experian, meios de pagamento lideraram o primeiro trimestre de 2026 com 644.586 tentativas.

Em segundo lugar apareceu telefonia, com 313.200 ocorrências, seguida por bancos e cartões, com 259.160.

Isso mostra por que mecanismos de identificação e autenticação se tornaram uma questão estratégica também para operadoras e provedores de serviços digitais.

Uma linha telefônica ou conta comprometida pode ser utilizada como etapa intermediária em outras modalidades de fraude.

Crime digital está se profissionalizando

Outro indicador do levantamento da Serasa Experian ajuda a compreender essa transformação.

A companhia identificou aproximadamente 2 mil grupos dedicados à circulação e troca de conteúdo fraudulento no primeiro trimestre de 2026, crescimento de 139% na comparação anual.

Também foram mapeadas 19,7 milhões de mensagens associadas a golpes, uma média de 152 por minuto.

Além disso, foram encontrados mais de 10 mil anúncios, perfis, páginas e aplicativos falsos.

Esses números apontam para um ecossistema criminoso cada vez mais organizado.

Fraude como serviço reduz barreiras para criminosos

Uma tendência importante da cibercriminalidade é a chamada fraude como serviço.

Em vez de cada criminoso precisar dominar todas as etapas de uma operação, diferentes serviços clandestinos podem oferecer ferramentas específicas.

Isso pode envolver listas de dados vazados, páginas falsas, sistemas de envio de mensagens, identidades sintéticas e outros recursos.

A própria Serasa Experian aponta uso indevido de IA, fraude como serviço e identidades sintéticas entre as tendências observadas em 2026.

Esse modelo torna o crime digital semelhante a uma cadeia de serviços.

E reduz a barreira técnica necessária para iniciar determinadas operações fraudulentas.

Proteção precisa ir além da senha

Diante desse cenário, uma senha forte continua importante, mas já não é suficiente.

A proteção das contas depende de diferentes camadas.

Autenticação em dois fatores reduz significativamente o risco de invasões provocadas apenas pelo vazamento de uma senha.

Usuários também precisam desconfiar de solicitações inesperadas envolvendo códigos enviados por SMS, redefinição de senha, instalação de aplicativos ou transferências financeiras.

Outro cuidado essencial é evitar reutilizar a mesma senha em vários serviços.

Quando uma credencial aparece em um vazamento, criminosos podem tentar automaticamente utilizá-la em outras plataformas.

Urgência é uma das principais armas dos golpistas

A tecnologia utilizada muda, mas muitos golpes continuam explorando princípios básicos de engenharia social.

Um deles é criar urgência.

“Seu cartão será bloqueado.”

“Existe uma compra suspeita.”

“Seu CPF será suspenso.”

“Preciso que faça um Pix agora.”

“Seu pacote está retido.”

“Clique imediatamente para evitar o cancelamento.”

Mensagens desse tipo tentam reduzir o tempo disponível para que a vítima analise a situação.

Por isso, uma regra simples continua extremamente eficiente: quando uma mensagem exige ação financeira ou entrega de informações imediatamente, interrompa o contato e confirme a situação diretamente pelos canais oficiais da empresa ou pessoa envolvida.

O desafio agora é proteger a identidade digital

Os números apresentados pelo Cetic.br mostram que o Brasil enfrenta um problema que ultrapassa o conceito tradicional de vírus de computador ou invasão de sistemas.

O alvo passou a ser a própria identidade digital das pessoas.

Criminosos querem dados que permitam se passar pela vítima, conquistar sua confiança ou assumir controle de suas contas.

Com 45 milhões de internautas relatando tentativas de golpe envolvendo informações pessoais em apenas um ano, o problema já alcança uma parcela enorme da população conectada.

E os danos podem ser muito maiores do que uma transferência bancária.

Perda de contas, compras fraudulentas, dívidas, roubo de credenciais e estresse emocional aparecem entre as consequências relatadas.

A combinação entre vazamentos de dados, redes sociais, aplicativos de mensagens e novas ferramentas de inteligência artificial tende a tornar esse cenário ainda mais complexo.

Por isso, a segurança digital passa cada vez mais por uma mudança de comportamento: não basta proteger o computador. É preciso proteger os dados que permitem provar quem somos na internet.

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