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Presidenciáveis priorizam conectividade, mas deixam regulação de telecom em segundo plano

Programas de cinco candidatos à Presidência citam 5G, fibra, FUST, espectro e até 6G, mas não apresentam uma estratégia abrangente para regulação do setor e atuação da Anatel.

A infraestrutura digital entrou definitivamente no debate eleitoral brasileiro, mas uma parte importante dessa discussão ainda aparece de forma fragmentada: como será a política regulatória para o setor de telecomunicações nos próximos anos.

Uma análise da Innova Assuntos Públicos sobre os programas de governo de Flávio Bolsonaro, Luiz Inácio Lula da Silva, Renan Santos, Ronaldo Caiado e Romeu Zema mostra que os candidatos apresentam propostas para ampliar conectividade, estimular investimentos e desenvolver novas tecnologias, mas nenhum dos cinco estrutura uma agenda regulatória completa envolvendo temas como outorgas, competição setorial e atuação da Anatel. O levantamento foi divulgado pelo Tele.Síntese nesta semana.

O estudo analisou os programas protocolados no Tribunal Superior Eleitoral em 22 áreas. No segmento de telecom, o ponto de maior convergência é a necessidade de expandir a conectividade, principalmente no meio rural e em localidades que ainda enfrentam deficiências de cobertura.

Conectividade une os programas, mas soluções são diferentes

Embora exista concordância sobre a necessidade de levar infraestrutura digital a mais brasileiros, os caminhos propostos variam.

Lula e Caiado colocam o Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (FUST) entre os instrumentos para financiar a expansão das redes.

Zema, por outro lado, propõe disponibilizar novas faixas de espectro para o 5G como forma de estimular a entrada de concorrentes e melhorar os serviços.

Renan Santos relaciona 5G, 5G-Advanced e futuramente 6G à política de industrialização e desenvolvimento de polos tecnológicos.

Já Flávio Bolsonaro destaca o legado do leilão do 5G realizado durante o governo de Jair Bolsonaro e concentra boa parte de suas propostas futuras em inclusão e transformação digital.

As diferenças mostram que telecom aparece nos programas principalmente como infraestrutura necessária para outras políticas econômicas e digitais, e menos como um setor que demandará decisões regulatórias próprias.

Caiado aposta em compartilhamento de infraestrutura

Entre os programas analisados, o de Ronaldo Caiado reúne o maior conjunto de propostas diretamente relacionadas à infraestrutura de telecomunicações, segundo a Innova.

O plano trata redes, conectividade e data centers como infraestrutura estratégica e propõe ampliar o compartilhamento de ativos como postes, dutos, torres e fibras ópticas.

Também aparece a intenção de aumentar a previsibilidade das regras relacionadas ao direito de passagem, questão relevante para empresas que precisam instalar novas redes em diferentes municípios e regiões.

O FUST seria direcionado a projetos envolvendo escolas, unidades de saúde e conectividade rural.

Lula estabelece metas para fibra e 5G rural

No programa de Lula, telecomunicações aparece integrada à estratégia de economia digital.

Segundo o levantamento, o documento é o único entre os cinco analisados que quantifica o déficit municipal de fibra óptica que pretende enfrentar. A proposta menciona um déficit que alcançaria 11% dos municípios e prevê ampliar a presença do 5G no campo, com prioridade para Norte, Nordeste e periferias.

O FUST também aparece como mecanismo para estimular investimentos.

A estratégia digital é mais ampla e inclui conceitos como soberania digital, desenvolvimento de modelos de linguagem em português e políticas relacionadas à implantação de data centers.

Zema quer mais espectro e competição

Romeu Zema coloca a política de espectro no centro de sua proposta para telecom.

O programa prevê disponibilizar novas faixas para o 5G com o objetivo de atrair concorrentes, reduzir preços e melhorar a qualidade dos serviços. Também são previstas parcerias com o setor privado para ampliar conectividade em regiões remotas.

Na infraestrutura digital de maneira mais ampla, o programa defende menor intervenção estatal e busca estimular investimentos privados em inteligência artificial e data centers.

Renan Santos conecta telecom à indústria e à IA

No programa de Renan Santos, as redes de telecomunicações aparecem principalmente como infraestrutura necessária para uma política de desenvolvimento industrial e tecnológico.

O documento menciona 5G, 5G-Advanced e 6G, além de cabos submarinos, como componentes de uma infraestrutura voltada a polos industriais, inteligência artificial e Zonas Econômicas Especiais.

A estratégia para IA é mais detalhada e inclui a proposta de um Marco Brasileiro de IA, zonas dedicadas à aceleração da tecnologia e iniciativas para estimular data centers.

Nesse desenho, telecom funciona como uma espécie de sistema circulatório para a nova infraestrutura computacional.

Flávio Bolsonaro destaca 5G e digitalização

O programa de Flávio Bolsonaro utiliza o leilão do 5G realizado durante o governo de Jair Bolsonaro como uma das referências para sua política de conectividade.

Segundo a análise da Innova, porém, o documento não apresenta propostas específicas para novas faixas de espectro, reformulação da regulação setorial, FUST ou compartilhamento de infraestrutura.

As propostas tornam-se mais detalhadas quando o assunto passa para transformação digital. Entre elas estão a digitalização do Estado, adoção de inteligência artificial por pequenas e médias empresas e a intenção de transformar o Brasil em um polo internacional de data centers.

Regulação é a grande lacuna

A principal conclusão do levantamento aparece justamente naquilo que os programas não detalham.

Nenhum dos cinco apresenta, segundo a análise, uma agenda prospectiva capaz de integrar espectro, outorgas e regulação da Anatel.

Também não há uma formulação ampla sobre assuntos como redes neutras, MVNOs, Internet das Coisas, competição no mercado de atacado e migração tecnológica das redes legadas.

Essa ausência chama atenção porque o próximo ciclo presidencial coincidirá com mudanças relevantes no setor.

A expansão do 5G continuará avançando enquanto operadoras e fornecedores começam a preparar tecnologias associadas ao 5G-Advanced e ao futuro 6G. Paralelamente, inteligência artificial, computação em nuvem, data centers, IoT e serviços digitais aumentam a importância econômica das redes de telecomunicações.

Telecom passa a ser infraestrutura da economia de IA

Existe ainda uma transformação maior acontecendo.

Durante décadas, telecomunicações foram discutidas principalmente a partir de telefonia, cobertura e acesso à internet. Agora, as redes passam a sustentar praticamente toda a economia digital.

Data centers precisam de conectividade de alta capacidade. Sistemas de IA dependem de infraestrutura distribuída. Indústria 4.0 utiliza redes privadas e IoT. Serviços públicos digitais dependem de conectividade disponível em todo o território.

Por isso, decisões relacionadas a espectro, fibra óptica, compartilhamento de infraestrutura e competição podem influenciar diretamente a capacidade do Brasil de desenvolver uma economia baseada em inteligência artificial e serviços digitais.

O levantamento da Innova mostra que os presidenciáveis já perceberam a importância da conectividade. O próximo passo será transformar propostas dispersas em uma política capaz de responder também às questões regulatórias que determinarão como essas redes serão construídas, compartilhadas e utilizadas nos próximos anos.

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