
A corrida pelos robôs humanoides ganhou nesta quarta-feira (19) um novo capítulo no mercado financeiro. A chinesa Unitree Robotics fez sua estreia na STAR Market, segmento tecnológico da Bolsa de Xangai, e viu suas ações dispararem, transformando seu IPO em um dos principais eventos recentes do setor de tecnologia na China.
Os papéis chegaram a avançar cerca de 629% durante o pregão, antes de perder parte da valorização. No fechamento, as ações estavam em 845 yuans, aproximadamente 460% acima do preço definido para a oferta pública inicial. Com isso, a companhia terminou o dia avaliada em aproximadamente US$ 50 bilhões.
O desempenho mostra o entusiasmo dos investidores chineses com uma indústria que Pequim considera estratégica: a combinação de inteligência artificial, automação e robótica avançada.
IPO movimentou cerca de US$ 900 milhões
Antes da estreia, a Unitree havia definido o preço das ações em 150,80 yuans. A operação levantou aproximadamente 6,1 bilhões de yuans, ou US$ 904 milhões, segundo informações divulgadas sobre a oferta.
A procura já dava sinais de que seria elevada antes mesmo da abertura das negociações. A parcela destinada aos investidores de varejo foi mais de 8 mil vezes subscrita, indicando uma demanda muito superior ao volume de ações disponível.
A valorização, entretanto, também chama atenção para os riscos. Antes da estreia, a companhia já havia sido precificada em múltiplos elevados: cerca de 219 vezes seu lucro de 2025 e 36 vezes suas vendas.
De robôs quadrúpedes aos humanoides
Fundada em Hangzhou em 2016, a Unitree ganhou reconhecimento internacional inicialmente com seus robôs quadrúpedes, semelhantes a cães robóticos.
Nos últimos anos, porém, a companhia passou a ocupar espaço importante na corrida pelos humanoides.
Entre seus modelos mais conhecidos estão os robôs G1 e H1, capazes de caminhar, correr e executar movimentos complexos. Demonstrações envolvendo dança e até movimentos de artes marciais ajudaram a popularizar a marca dentro e fora da China.
Em 2025, a companhia registrou aproximadamente 1,7 bilhão de yuans em receita, cerca de US$ 250 milhões. Mais de 40% do faturamento veio de mercados internacionais.
A empresa também apresentou forte expansão operacional: sua receita havia crescido 335% em 2025, segundo documentos apresentados durante o processo de abertura de capital.
China ganha força na corrida dos humanoides
O sucesso do IPO acontece em meio à estratégia chinesa de transformar robótica e inteligência artificial incorporada — a chamada embodied AI — em novas áreas de liderança tecnológica.
Fabricantes chinesas já vêm aumentando rapidamente sua capacidade de produção.
A Unitree informou que vendeu 5.632 robôs humanoides entre 2023 e 2025, além de mais de 33 mil robôs quadrúpedes no mesmo período. Somente em 2025, os embarques de humanoides ultrapassaram 5,5 mil unidades.
A empresa agora ganha uma vantagem adicional: acesso direto ao mercado de capitais para financiar pesquisa, desenvolvimento e ampliação da produção.
Parte dos recursos levantados no IPO deverá justamente ser utilizada para aumentar investimentos em P&D e capacidade industrial.
Robôs ainda precisam provar retorno comercial
Apesar do entusiasmo dos investidores, a indústria ainda enfrenta um desafio importante: transformar demonstrações impressionantes em aplicações comercialmente viáveis.
Humanoides já começam a ser testados em fábricas, logística e outras atividades, mas a adoção em larga escala ainda é limitada.
Durante eventos recentes na China, especialistas e fabricantes passaram a destacar produtividade, autonomia e retorno financeiro dos equipamentos, e não apenas capacidades como correr, dançar ou executar movimentos complexos.
Esse será um dos principais testes para empresas como a Unitree.
O potencial tecnológico é grande, mas os fabricantes terão de demonstrar que os humanoides conseguem executar tarefas de maneira suficientemente confiável e econômica para justificar sua adoção em escala industrial.
Unitree enfrenta restrições nos Estados Unidos
A expansão internacional também encontra obstáculos geopolíticos.
Nos Estados Unidos, novas restrições atingem a entrada de determinados robôs humanoides e quadrúpedes fabricados no exterior por preocupações relacionadas à segurança nacional. O mercado norte-americano representava cerca de 13% das receitas da Unitree, segundo informações relacionadas ao IPO.
A empresa também aparece em uma lista do Departamento de Defesa dos EUA relacionada a companhias chinesas consideradas associadas ao setor militar.
O cenário coloca a robótica em uma posição semelhante à observada em áreas como semicondutores, telecomunicações e inteligência artificial: tecnologias comerciais cada vez mais envolvidas na disputa estratégica entre China e Estados Unidos.
IPO mostra confiança — mas também especulação
A estreia da Unitree representa um marco para o mercado chinês de robótica humanoide.
Ao mesmo tempo, uma valorização superior a 400% em apenas um pregão levanta dúvidas sobre até que ponto os preços refletem expectativas realistas sobre o crescimento da empresa.
Uma análise da Reuters Breakingviews observou que a alta extrema também expõe problemas na precificação de IPOs chineses, com a Unitree chegando a atingir uma avaliação mais de sete vezes superior àquela implícita no preço inicial da oferta durante o pregão.
Para investidores e para a própria indústria, começa agora uma fase diferente.
Depois de provar que consegue fazer robôs correrem, dançarem e executarem movimentos cada vez mais sofisticados, a Unitree precisará mostrar que também consegue transformar essa tecnologia em um negócio global de grande escala.



