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China reage à pressão dos EUA e defende soberania dos países na corrida global pela IA

Pequim rejeita divisão do mundo em blocos tecnológicos após relatos de que Washington pretende exigir alinhamento exclusivo de parceiros na disputa pela inteligência artificial.

A disputa pela liderança mundial em inteligência artificial está deixando de envolver apenas modelos, chips e data centers para avançar sobre a diplomacia. A China reagiu nesta quarta-feira (19) às informações de que os Estados Unidos pretendem pressionar dezenas de países a escolher entre os ecossistemas tecnológicos de Washington e Pequim, defendendo que cada nação tenha autonomia para definir suas próprias parcerias em IA.

A manifestação foi feita pelo porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Lin Jian. Segundo ele, Pequim se opõe à formação de blocos rivais no campo da inteligência artificial e considera que as decisões sobre cooperação tecnológica devem respeitar as condições e necessidades de desenvolvimento de cada país.

A reação chinesa ocorre depois de a Reuters revelar que o governo dos Estados Unidos prepara uma comunicação destinada a dezenas de países indicando que a participação em uma coalizão de IA liderada por Washington seria incompatível com a adesão a determinadas iniciativas concorrentes promovidas pela China.

EUA querem consolidar um bloco tecnológico

No centro da estratégia norte-americana está a Pax Silica, iniciativa criada para fortalecer cadeias de suprimentos consideradas essenciais para a inteligência artificial, incluindo semicondutores e minerais críticos.

Cerca de duas dezenas de países já participam da iniciativa, entre eles Japão, Austrália, Coreia do Sul e Cazaquistão. A movimentação também alcança os 35 signatários de uma declaração norte-americana de cooperação em IA assinada em junho.

Segundo uma autoridade dos EUA ouvida pela Reuters e uma minuta interna analisada pela agência, Washington pretende deixar mais claro que determinadas formas de participação simultânea em iniciativas americanas e chinesas seriam incompatíveis. O Departamento de Estado não comentou o conteúdo dos documentos internos citados pela reportagem.

Portanto, a estratégia ainda deve ser tratada como uma iniciativa em elaboração, e não como uma regra internacional já implementada.

China responde com discurso de soberania digital

A posição apresentada por Pequim busca colocar a disputa sob outro enquadramento: o direito dos países de escolherem seus parceiros tecnológicos.

Lin Jian afirmou que a China é contrária à lógica de formação de campos rivais na inteligência artificial e defendeu respeito à chamada soberania digital das nações.

Na prática, a discussão sobre soberania digital envolve a capacidade de governos decidirem quais tecnologias, infraestruturas, modelos, fornecedores e políticas digitais pretendem adotar.

Esse conceito ganha importância porque a escolha de uma plataforma de IA pode criar dependências que vão muito além do software.

Modelos avançados dependem de chips, data centers, energia, serviços em nuvem, redes de telecomunicações, dados e cadeias internacionais de fornecimento.

China também criou sua própria iniciativa internacional

A disputa ganhou um novo componente em julho, quando o presidente chinês Xi Jinping lançou uma iniciativa internacional chamada World Artificial Intelligence Cooperation Organization, ou Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial.

A proposta chinesa busca ampliar a influência de Pequim sobre a governança internacional da tecnologia e ocorre em um momento em que modelos de pesos abertos desenvolvidos por empresas chinesas vêm reduzindo parte da distância tecnológica em relação aos sistemas proprietários norte-americanos.

O Cazaquistão tornou-se um caso particularmente importante nessa disputa.

O país aderiu à Pax Silica norte-americana e também à iniciativa chinesa. Segundo a Reuters, essa participação dupla provocou preocupação em Washington.

A questão é estratégica porque o Cazaquistão possui reservas de minerais considerados importantes para tecnologias avançadas.

Chips e minerais estão no centro da batalha

Embora a discussão seja apresentada como uma disputa pela inteligência artificial, parte significativa da batalha acontece muito antes de um usuário abrir um chatbot.

Produzir e operar sistemas avançados de IA exige acesso a semicondutores de alto desempenho e às matérias-primas necessárias para fabricá-los.

Os Estados Unidos vêm utilizando controles de exportação e alianças internacionais para limitar o acesso chinês a determinadas tecnologias avançadas. A China, por sua vez, possui enorme influência sobre cadeias de fornecimento de minerais críticos e processamento de matérias-primas utilizadas pela indústria tecnológica.

Isso transforma a corrida da IA em uma disputa simultaneamente tecnológica, econômica e geopolítica.

Modelos chineses aumentam pressão competitiva

Outro componente está acelerando essa rivalidade: o avanço dos modelos chineses.

Sistemas desenvolvidos na China vêm ganhando competitividade em diferentes benchmarks e, principalmente, ampliando a presença de modelos com pesos abertos.

Esse modelo de distribuição pode facilitar a adoção da tecnologia por empresas, universidades e governos que desejam maior controle sobre a infraestrutura utilizada.

Para Washington, a disseminação internacional dessas tecnologias pode ampliar a influência chinesa sobre o futuro ecossistema global de inteligência artificial. Para Pequim, as restrições norte-americanas representam uma tentativa de limitar sua participação em um mercado estratégico.

As duas potências, portanto, apresentam narrativas bastante diferentes sobre a mesma disputa.

Países podem enfrentar decisões cada vez mais difíceis

A tentativa de organizar blocos tecnológicos cria um dilema principalmente para países que mantêm relações econômicas importantes tanto com os Estados Unidos quanto com a China.

Governos precisam avaliar não apenas qual tecnologia apresenta melhor desempenho, mas também questões como custo, segurança, proteção de dados, disponibilidade de infraestrutura e autonomia tecnológica.

Uma eventual exigência de alinhamento exclusivo poderia tornar essas decisões ainda mais complexas.

E isso tem implicações relevantes para países emergentes.

O que essa disputa significa para o Brasil?

O Brasil não é citado nas informações disponíveis como país que tenha recebido uma exigência para escolher entre Washington e Pequim. Portanto, não há base para afirmar que o governo brasileiro esteja atualmente diante desse ultimato.

O episódio, entretanto, merece atenção brasileira.

A China é o principal parceiro comercial do Brasil desde 2009, enquanto empresas norte-americanas possuem forte presença no mercado brasileiro de nuvem, software, semicondutores e inteligência artificial.

Isso torna uma eventual fragmentação do mercado global particularmente relevante.

Empresas brasileiras podem, no futuro, precisar considerar não apenas desempenho e preço ao selecionar tecnologias de IA, mas também compatibilidade com diferentes ecossistemas internacionais, regras de exportação, localização de dados e restrições impostas por governos.

IA entra definitivamente na geopolítica

Durante os primeiros anos da atual revolução da inteligência artificial, grande parte da competição parecia concentrada entre empresas.

Agora, a disputa está cada vez mais claramente acontecendo também entre Estados.

Quem controlar chips avançados, modelos, infraestrutura computacional, minerais estratégicos e padrões tecnológicos poderá exercer influência significativa sobre a economia digital das próximas décadas.

A resposta chinesa desta quarta-feira evidencia essa mudança.

A questão deixou de ser apenas quem desenvolverá a IA mais avançada. A disputa passa também por quais países utilizarão cada ecossistema tecnológico — e até que ponto poderão trabalhar simultaneamente com os dois lados.

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