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O fim do “sempre fiz assim”: por que mudar nunca foi tão urgente

Por Andressa Aldrighi

Existe uma frase que deveria acender um alerta em qualquer empresa:

“Sempre fizemos assim.”

Ela parece inofensiva. Às vezes, até transmite segurança. Afinal, se um processo funcionou durante anos, por que mexer?

O problema é que o mercado não respeita a tradição operacional.

Clientes mudam. Concorrentes mudam. Custos mudam. Hábitos de consumo mudam. A tecnologia mudou. E, enquanto tudo isso acontece, muitas empresas continuam defendendo processos criados para uma realidade que já não existe.

O “sempre fiz assim” não é apenas uma frase. É, muitas vezes, um sinal de que a organização parou de perguntar por quê. E uma empresa que deixa de questionar seus próprios métodos começa, silenciosamente, a acumular atraso.

O custo invisível de manter tudo como está, nem toda ineficiência provoca uma crise.

Na maioria das vezes, ela se instala devagar, está naquele relatório que alguém leva duas horas para montar toda segunda-feira, na informação que precisa ser digitada em três lugares diferentes, na aprovação que passa por quatro pessoas sem necessidade, no cliente que precisa repetir seus dados porque os sistemas não conversam, na planilha que apenas uma pessoa da empresa entende, ou até no processo que ninguém gosta, mas que ninguém sabe exatamente por que existe.

Nada disso, isoladamente, parece grave.

O problema aparece quando multiplicamos pequenas ineficiências por semanas, pessoas, clientes e anos.

Empresas raramente quebram porque alguém gastou quinze minutos a mais em uma tarefa, mas milhares de pequenos desperdícios acumulados podem custar capacidade de crescimento.

E existe um nome importante para isso: custo de permanecer igual.

Normalmente, quando pensamos em mudança, perguntamos: “Quanto vai custar implantar isso?” mas poucas empresas fazem a pergunta inversa:

“Quanto está nos custando não mudar?” Essa conta costuma ser muito mais interessante.

Processos também envelhecem

Quando uma empresa compra um equipamento, existe a consciência de que em algum momento ele precisará de manutenção ou substituição.

Curiosamente, raramente aplicamos a mesma lógica aos processos.

Um processo que foi excelente cinco anos atrás pode ter se tornado inadequado hoje, não porque tenha sido mal concebido, mas porque as condições mudaram.

Talvez a empresa tivesse dez clientes e agora tenha mil, talvez tivesse três funcionários e agora tenha trinta, talvez todo atendimento acontecesse presencialmente e hoje metade chegue pelo digital, talvez uma tarefa que precisava ser manual hoje possa ser automatizada.

O erro não está em ter criado determinado processo, o erro está em acreditar que ele deve permanecer intocado para sempre. Processos precisam ter validade estratégica, não validade eterna.

Experiência é importante, apego não.

Existe uma diferença sutil entre experiência e resistência.

Enquanto a experiência diz: “Já fizemos isso desta forma e aprendemos algumas coisas.” a resistência diz: “Já fazemos assim e não precisamos discutir.”

A primeira usa o passado como aprendizado, a segunda usa o passado como argumento para evitar o futuro.

Isso acontece com frequência em empresas maduras, especialmente quando um modelo trouxe bons resultados durante muito tempo.

O sucesso anterior pode criar uma falsa sensação de que a fórmula continuará funcionando. Só que o mercado não premia empresas pela história de eficiência, premia pela capacidade atual de entregar valor.

É por isso que algumas organizações jovens conseguem incomodar empresas muito maiores.

Nem sempre porque possuem mais recursos, muitas vezes, porque carregam menos peso, menos sistemas antigos, menos processos herdados, menos burocracia criada por camadas sucessivas de decisões, menos frases começando com “aqui sempre foi assim”.

A inovação mais importante pode não parecer inovação

Quando falamos em inovação, é comum imaginar inteligência artificial, aplicativos, robôs, grandes plataformas ou produtos disruptivos. Mas algumas das melhores inovações empresariais são quase invisíveis, como eliminar uma etapa, redesenhar uma rotina, diminuir uma aprovação, centralizar informações, dar autonomia para quem antes precisava esperar uma decisão, reduzir o tempo entre o pedido do cliente e a resposta da empresa, criar uma forma simples de acompanhar um indicador, permitir que uma informação seja registrada uma vez e utilizada por todos.

Nada disso rende necessariamente uma fotografia futurista, mas pode mudar completamente uma operação.

Talvez precisemos parar de associar inovação apenas ao que uma empresa adiciona.

Inovar também é saber o que retirar, etapas, retrabalho, burocracia, dependências, ruído ou tempo perdido.

Tecnologia não corrige falta de clareza

Existe uma tentação perigosa em momentos de transformação: acreditar que comprar uma nova ferramenta significa modernizar uma empresa, mas nem sempre é.

É possível ter um software excelente operando um processo ruim, é possível automatizar uma burocracia, é possível usar Inteligência Artificial para acelerar uma tarefa que sequer deveria existir, é possível contratar dez plataformas e continuar sem saber qual problema estamos tentando resolver.

Por isso, antes da ferramenta, deveria existir diagnóstico.

Uma empresa que realmente quer evoluir precisa começar fazendo perguntas desconfortáveis.

Por que essa tarefa existe? Quem utiliza essa informação? O que aconteceria se essa etapa desaparecesse amanhã? Por que duas pessoas precisam conferir a mesma coisa? Qual parte desse processo gera valor para o cliente? Qual parte existe apenas porque foi criada anos atrás? Onde dependemos excessivamente de uma única pessoa? Onde estamos usando trabalho humano para realizar tarefas essencialmente mecânicas?

Essas perguntas parecem simples, mas poucas organizações possuem disciplina para fazê-las com frequência.

O maior inimigo da mudança não é o medo. É o conforto.

Empresas em crise mudam, não porque desejam, mas porque precisam.

Cortam custos, organizam equipes, reveem produtos, buscam tecnologia, alteram processos.

O desafio verdadeiro é mudar enquanto as coisas ainda estão funcionando.

É difícil convencer uma organização saudável de que precisa rever algo que aparentemente dá resultado, por isso, a complacência é tão perigosa.

Quando o problema fica óbvio para todos, muitas vezes a mudança já deveria ter começado anos antes.

As empresas mais preparadas não esperam a urgência aparecer, criam pequenos ciclos de revisão antes que os problemas se tornem grandes.

Não perguntam apenas: “Isso funciona?”

Perguntam: “Isso continua sendo a melhor maneira?”

A diferença entre essas duas perguntas pode parecer pequena.

Mas na gestão, é enorme.

Toda empresa deveria fazer uma auditoria do “sempre foi assim”

Existe um exercício que considero especialmente poderoso.

Caminhe pelos principais processos da empresa e peça para as pessoas apontarem tudo aquilo que é feito de determinada maneira porque “sempre foi assim”.

Provavelmente surgirão surpresas.

Um formulário que ninguém sabe por que possui determinada informação, um relatório que ninguém lê, uma reunião criada para resolver um problema que já não existe, uma planilha paralela porque alguém não confia no sistema oficial, uma aprovação criada depois de um erro ocorrido anos atrás, uma regra mantida mesmo depois de a realidade mudar. Cada um desses itens deveria receber três perguntas:

Ainda precisamos disso? Existe uma maneira mais simples? Se começássemos a empresa hoje, faríamos dessa forma?

A última é particularmente poderosa, porque remove o peso da história.

Mudar não significa abandonar tudo

Também existe um erro no discurso da transformação: tratar tudo o que é antigo como ultrapassado, mas não é verdade.

Existem processos antigos excelentes, existem métodos tradicionais extremamente eficientes, existem decisões tomadas décadas atrás que continuam corretas.

Modernizar uma empresa não significa destruir sua história, significa distinguir o que é tradição valiosa do que é apenas hábito acumulado.

O objetivo não é mudar por mudar, é não permitir que o passado tenha poder de veto sobre o futuro.

A vantagem competitiva dos próximos anos

Cada vez mais ferramentas estarão disponíveis para todos.

Tecnologia ficará mais barata, inteligência artificial ficará mais acessível, automação será cada vez mais comum.

A simples posse de uma ferramenta dificilmente será suficiente para diferenciar uma empresa.

A vantagem estará na velocidade com que cada organização consegue identificar mudanças, aprender, testar e incorporar novas formas de trabalhar, ou seja: a grande competência dos próximos anos talvez não seja tecnológica, será adaptativa.

Empresas capazes de aprender rápido terão vantagem sobre empresas que apenas sabem executar muito bem aquilo que já conhecem, e isso exige uma mudança cultural importante, trocar a defesa automática dos processos pela curiosidade.

Trocar: “Sempre fizemos assim.”

por:

“Por que ainda fazemos assim?”

Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes que um líder pode fazer hoje, porque o risco não está apenas em mudar e errar, em mercados cada vez mais rápidos, existe outro risco igualmente relevante:

continuar fazendo exatamente a mesma coisa, mas com excelência, enquanto o mundo passa a precisar de outra.

Andressa Aldrighi

Empreendedora, mentora de startups e especialista em inovação e tecnologia, atua no desenvolvimento de negócios em fase inicial com foco em estruturação, validação e crescimento. É fundadora de startups e trabalha na criação de soluções digitais, com experiência em plataformas, modelos de negócio baseados em tecnologia e conexão de mercados. Como mentora, apoia empreendedores na transformação de ideias em produtos e soluções escaláveis, contribuindo para o fortalecimento do ecossistema de inovação

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