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Planejando 2027: a história recomenda cautela.

Por Fernando Röhsig

À medida que as empresas concluem seus orçamentos e planos estratégicos, um ponto merece atenção especial de empresários, conselhos de administração e consultivos, bem como de lideranças executivas: a possibilidade de 2027 ser significativamente mais desafiador do que indicam as projeções atuais do mercado.

O Relatório Focus projeta para dezembro de 2027 uma inflação próxima de 4,3%, crescimento econômico ao redor de 1,45%, câmbio de R$ 5,28 por dólar e taxa Selic próxima de 12% ao ano. Trata-se de um cenário de desaceleração, mas ainda compatível com planejamento, investimentos e expansão moderada.

A questão é que a história recente mostra que períodos de desequilíbrio fiscal costumam produzir mudanças abruptas nas expectativas econômicas. Em dezembro de 2014, o mercado projetava crescimento de 0,55% para 2015. O resultado efetivo foi uma retração de 3,77% do PIB. A inflação fechou o ano em 10,67%, muito acima dos 6,53% estimados, enquanto a taxa Selic terminou em 14,25%, contra uma projeção de 12,50%.

Em 2016, mesmo após as revisões negativas já incorporadas às projeções, os economistas ainda subestimaram a profundidade da recessão. O PIB recuou 3,59%, levando a economia brasileira a acumular uma contração superior a 7% em apenas dois anos — a maior recessão da história moderna do país. Recentemente, o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga alertou que diversos fundamentos da economia brasileira lembram aspectos observados antes da crise de 2015 e 2016. Seu diagnóstico chamou a atenção justamente por partir de um economista reconhecido internacionalmente e que presidiu o Banco Central do Brasil (1999-2003).

Por essa razão, além do cenário-base de mercado, desenvolvi cenários alternativos para 2027, considerando hipóteses significativamente mais adversas. Entre elas, inflação acima de 6%, crescimento negativo do PIB, câmbio superior a R$ 5,50 e manutenção da Selic acima de 13% ao ano. Não se trata de afirmar que haverá uma repetição exata de 2015 e 2016 — a economia jamais se repete da mesma forma. O alerta é outro: os relatórios de consenso normalmente refletem o cenário mais provável, e não os cenários de maior impacto. As empresas que prosperam em ambientes incertos são justamente aquelas que preparam alternativas antes que a mudança ocorra.

A principal responsabilidade da governança corporativa não é acertar previsões, mas garantir que a organização tenha liquidez, capacidade de adaptação, disciplina financeira e velocidade de resposta caso o ambiente econômico se deteriore. Se o cenário projetado pelo mercado prevalecer, o planejamento conservador terá custado pouco. Mas, se parte dos riscos hoje ignorados se materializar, a preparação poderá fazer a diferença entre preservar o valor gerado ou perder anos de crescimento.

Fernando Röhsig – Conselheiro de Administração (CCA-IBGC).

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