
A decisão das principais empresas de tecnologia de firmarem um acordo de autorregulação para a inteligência artificial pode parecer um acontecimento inédito. Na realidade, a história econômica mostra que grandes transformações costumam ser acompanhadas pelo mesmo movimento: os protagonistas de uma revolução buscam construir as primeiras regras do sistema que ajudaram a criar.
Foi exatamente isso que ocorreu na criação do Federal Reserve, em 1913. O projeto nasceu da necessidade legítima de estabilizar o sistema financeiro americano após sucessivas crises bancárias. Mas sua arquitetura foi desenhada com participação decisiva de alguns dos homens mais influentes das finanças da época, como J.P. Morgan, Paul Warburg e representantes dos grandes bancos ligados aos grupos Morgan e Rockefeller. Eles concentravam capital, informação e capacidade técnica em uma economia que rapidamente se tornava a maior potência industrial do planeta.
Mais de um século depois, o cenário se repete em outra escala. Microsoft, Nvidia, Alphabet, Amazon, Meta, Apple e OpenAI ocupam posição semelhante na economia digital. Juntas, representam dezenas de trilhões de dólares em valor de mercado e concentram ativos estratégicos para o século XXI: dados, infraestrutura em nuvem, semicondutores, capacidade computacional e os mais avançados modelos de inteligência artificial.
A diferença é que a disputa atual possui uma dimensão geopolítica explícita. A corrida pela IA tornou-se parte do enfrentamento tecnológico entre Estados Unidos e China. Não se trata apenas de produtividade ou lucro. Está em jogo a liderança em defesa, cibersegurança, pesquisa científica, educação, saúde e influência global.
Nesse contexto, a autorregulação não deve ser vista necessariamente como um problema. Em governança corporativa, é natural que os agentes mais próximos dos riscos sejam os primeiros a criar controles, protocolos e compromissos de conduta. O problema surge quando os responsáveis pela execução tornam-se também os únicos responsáveis pela supervisão.
A principal lição da governança moderna é simples: poder sem supervisão independente gera fragilidades institucionais. Foi assim no sistema financeiro e poderá ser assim na inteligência artificial.
Por isso, o debate não deveria estar restrito à criação de novas leis. O verdadeiro desafio é construir uma estrutura de governança capaz de assegurar transparência, accountability, responsabilidade corporativa e fiscalização externa.
A história do FED mostra que a participação dos protagonistas é importante. Mas mostra também que a legitimidade duradoura nasce quando existe supervisão independente sobre aqueles que concentram o poder.
Fernando Röhsig – Conselheiro de Administração (CCA – IBGC).



