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Quando o fabricante vira consultor: o que muda quando OpenAI e Anthropic decidem vender mão de obra junto com modelo

Por RICARDO BRASIL

Em sete dias de maio, US$ 5,5 bilhões reposicionaram a indústria de serviços de IA. O integrador brasileiro precisa decidir o que vai fazer com isso.

Em 1991, a IBM estava perdendo dinheiro. O mainframe, que tinha sustentado a empresa por três décadas, virou commodity, e o cliente corporativo já não comprava metal pelo metal.

Faltava alguém que entrasse na empresa, redesenhasse o processo e entregasse a peça de TI funcionando dentro do fluxo de trabalho. Nesse ano, a IBM criou o IBM Consulting Group. Quatro anos depois, em 1995, consolidou tudo em uma única operação global, o IBM Global Services, e descobriu que vender hora de engenheiro embarcado no cliente dava mais margem do que vender o computador. Em 2002, a divisão comprou a consultoria da PricewaterhouseCoopers por US$ 3,5 bilhões e dobrou de tamanho da noite para o dia.
Trinta e cinco anos depois, na semana passada, o mesmo movimento aconteceu duas vezes. Em sete dias.

O movimento que ninguém esperava na mesma semana No dia 4 de maio de 2026, a Anthropic anunciou em comunicado oficial uma empresa nova de serviços corporativos de Inteligência Artificial (IA), em parceria com Blackstone, Hellman & Friedman, Goldman Sachs e um consórcio que inclui Apollo, Sequoia, GIC, General Atlantic e Leonard Green. Aporte inicial: US$ 1,5 bilhão, conforme reportagem da CNBC publicada no mesmo dia. Foco declarado: empresas de porte médio do portfólio dos fundos de private equity envolvidos, em saúde, manufatura, serviços financeiros, varejo e imóveis.

No dia 11 de maio, sete dias depois, a OpenAI lançou a OpenAI Deployment Company, segundo comunicado próprio. Capital inicial superior a US$ 4 bilhões, parceria com TPG, Advent, Bain Capital, Brookfield, Goldman Sachs, SoftBank e Warburg Pincus, mais o que a empresa chamou de "founding integration partners": Bain & Company, Capgemini e McKinsey & Company. No mesmo movimento, anúncio de compra da Tomoro, consultoria britânica especializada em deployment de IA, que entrega 150 engenheiros embarcados de partida.

Avaliação pré-investimento, segundo a Axios em 11 de maio: US$ 10 bilhões. Em sete dias, US$ 5,5 bilhões foram comprometidos em algo que, há dois anos, ninguém na Anthropic ou na OpenAI dizia que ia fazer: serviço.

O que está sendo vendido, na prática
Os dois movimentos compartilham a mesma mecânica. O cliente corporativo compra um modelo, GPT ou Claude, e descobre que o modelo sozinho não faz nada. Falta alguém que entenda o processo da empresa, reescreva o fluxo de trabalho para acomodar agentes, integre com o sistema legado, treine a área de negócio e fique disponível para corrigir o que sair errado nos primeiros seis meses. Esse alguém, até abril de 2026, era a consultoria contratada à parte: McKinsey, Bain, BCG, Accenture, Deloitte, Capgemini ou alguma boutique de IA.
Agora a própria fabricante do modelo passa a ofertar essa camada de serviço. Em termos técnicos, é o Forward Deployed Engineer, modelo popularizado pela Palantir nos anos 2010. Em termos comerciais, é venda casada: assina o contrato do modelo, contrata também a equipe que faz o modelo funcionar.

A OpenAI foi explícita sobre escala. O comunicado oficial fala em colocar engenheiros especializados dentro das empresas clientes para redesenhar fluxos, melhorar operações e integrar IA no dia a dia do negócio. A Anthropic descreveu o mesmo desenho, com a diferença de que o consórcio de fundos vai usar as próprias empresas de portfólio como laboratório inicial, segundo reportagem da Bloomberg em 4 de maio.

Em outras palavras, o cliente piloto não precisa ser convencido. Ele já está no fundo.

O elefante de US$ 90 bilhões na sala
A indústria de consultoria de IA não é pequena, mas também não é tão grande quanto a entrada das duas fabricantes faria supor. Levantamento publicado pelo Management Consulted em 2026 estima o mercado em US$ 11 bilhões em 2025, com projeção de chegar a mais de US$ 90 bilhões em 2035, taxa composta de crescimento anual de 26%. O número faz mais sentido olhando o que as Big consulting já faturam. A Boston Consulting Group reportou em comunicado de fevereiro de 2026 que 25% da sua receita de US$ 14,4 bilhões em 2025 veio diretamente de trabalho ligado a IA, ou cerca de US$ 3,6 bilhões. A Accenture, em relatório de resultados do segundo trimestre fiscal de 2026, divulgou US$ 18 bilhões de receita no trimestre e US$ 22,1 bilhões em novos contratos fechados; triplicou a receita de IA avançada para US$ 2,7 bilhões em 2025 e comprometeu US$ 3 bilhões adicionais para dobrar a equipe de IA, hoje em 77 mil profissionais.

Esses números ajudam a entender por que Goldman, Blackstone, TPG, Bain Capital e o resto da turma de Wall Street toparam montar empresa do zero ao lado de duas startups de IA. A margem está saindo da venda do modelo (que vira commodity) e indo para a camada de serviço. Quem chegar lá primeiro com escala, ganha.
O detalhe que não apareceu nos press releases é que Bain & Company, Capgemini e McKinsey assinaram como parceiros da OpenAI Deployment Company. Ou seja, as próprias consultoras tradicionais entraram no veículo do fabricante para não ficar de fora. A Anthropic não chamou nenhuma Big consulting publicamente, mas trouxe Goldman e Blackstone, que têm dezenas de portfolio companies cada uma. O resultado é o mesmo: quase ninguém ficou de fora porque ninguém quis ficar.

O que não apareceu no slide
A leitura otimista é que cliente corporativo médio vai ganhar acesso a Forward Deployed Engineers treinados pela fabricante, com custo total mais baixo do que contratar McKinsey de fora. A leitura cética olha quem está na sala e quem ficou fora. Quem está na sala: empresas de portfolio de Blackstone, Goldman, TPG, Apollo, Bain Capital, Brookfield, Warburg Pincus. Essas empresas tendem a ser mid-market americano, europeu e
algumas asiáticas, com EBITDA entre US$ 50 milhões e US$ 500 milhões. Empresa brasileira média não está nessa lista.

Quem ficou fora: o integrador local. No Brasil, o mercado que hoje absorve a demanda corporativa de IA tem como expoentes Stefanini, com 38 mil funcionários e plano de R$ 1 bilhão em fusões e aquisições até 2026 segundo balanço de outubro de 2025; CI&T, listada na Bolsa de Nova York; TIVIT; e a operação local de Accenture, Capgemini, Deloitte e Kyndryl.

Esse grupo vinha vendendo, há dois anos, exatamente o que a Anthropic e a OpenAI vão vender agora, com a vantagem de cobrar em reais e entender a legislação brasileira de proteção de dados.

A pergunta concreta, para qualquer Chief Technology Officer (CTO), Chief Information Officer (CIO) ou Chief Information Security Officer (CISO) de empresa brasileira de porte médio, é simples. Quando o fornecedor do modelo passa a vender também o serviço de implantar, com engenheiros treinados internamente pela fabricante, qual é o argumento para continuar comprando integração de uma empresa que não construiu o modelo?

A resposta honesta tem três camadas: idioma e cultura local; soberania de dado, regulação e LGPD; suporte direto a quem entende a operação brasileira. As três importam. As três podem virar argumento de marketing fácil de neutralizar quando o fabricante decidir abrir frente em São Paulo.

O que muda no orçamento de 2027
A consequência mais imediata é contratual. Quem hoje tem três fornecedores separados (modelo, integrador, consultoria estratégica) vai começar a receber proposta combinada da fabricante. Pacote único, com SLA único, métrica única de sucesso, ponto único de contato. Comodidade real. Risco também real: dependência maior de um único fornecedor para a camada que mais cresce no orçamento de tecnologia.

A segunda consequência é de governança interna. Forward Deployed Engineer da OpenAI ou da Anthropic embarcado em processo crítico levanta a questão de onde o dado é processado, em qual região da nuvem, com que política de retenção e auditoria. A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) já sinaliza, em manifestações públicas de 2026, que vai pedir explicação sobre tratamento de dado pessoal em fluxos automatizados por agente.

A terceira é estratégica. O movimento da semana passada não vai ser revertido. A pergunta não é se as fabricantes de modelo vão competir com Big consulting; é em quanto tempo, e em quais setores primeiro. Saúde, financeiro e manufatura, pelas listas das portfolio companies envolvidas, são os três que entram primeiro.
A IBM Global Services demorou onze anos, de 1991 a 2002, para virar a maior consultoria de TI do mundo. A OpenAI e a Anthropic não pretendem demorar tanto.

A pergunta que fica
Em 1995, quando a IBM consolidou o Global Services, o cliente corporativo precisou decidir se queria continuar comprando consultoria de TI de quem não fazia o produto, ou se preferia a conveniência de comprar tudo do mesmo fornecedor. A maioria escolheu a conveniência. A indústria de consultoria de TI levou uma década para se reorganizar. Em 2026, o cliente brasileiro de IA está diante da mesma decisão, comprimida em meses, não em anos. Quem hoje assina contrato de Claude pela API ou de GPT pela Azure não vai contratar engenheiro da Anthropic ou da OpenAI? E o integrador local, que hoje vende esse serviço, em que ele se diferencia quando o fornecedor do modelo abrir o próprio time embarcado?

A pergunta não é se o seu fornecedor vai mudar. A pergunta é quem você quer dentro da sua
empresa em 2027, e por quê.

Fontes: Anthropic (04/05/2026), CNBC (04/05/2026), Bloomberg (04/05/2026), OpenAI (11/05/2026), Axios (11/05/2026), Management Consulted Industry Report 2026, BCG (fev/2026), Accenture Q2 FY2026, TI Inside (out/2025), IBM Corporate Archives.

Até o próximo Café com Bytes, com ceticismo saudável e café bem passado.

Ricardo Brasil | Especialista em IA Responsável e Diretor de TI na GWS Engenharia —
Colunista Café com Bytes | Tecnologia | Inteligência Artificial

Sobre o Autor
Ricardo Brasil é Diretor de TI e Gestão Corporativa da GWS Engenharia, especialista em IA
Responsável, transformação digital e governança de TI. É colunista da série Café com Bytes,
onde escreve semanalmente sobre tecnologia, inteligência artificial e seus impactos no
ambiente corporativo brasileiro.

Ricardo Brasil

Executivo de IA e Transformação Digital | Colunista Café com Bytes Com mais de 20 anos liderando inovação e transformação em larga escala nos EUA e América Latina, trago para o Café com Bytes uma perspectiva estratégica sobre o futuro da IA corporativa. Minha jornada começou em cibersegurança, onde construí expertise em gestão de riscos e governança de TI, alicerces que hoje orientam minha atuação em IA Responsável e Agentic AI. Foi na Microsoft que adquiri minha experiência mais significativa em IA, desenvolvendo frameworks de governança e estratégias empresariais que garantem que a IA seja implantada com impacto, ética e escala. Sou autor do livro “5 Passos para a IA Responsável”, onde sistematizo essa abordagem prática para implementação ética de IA nas organizações. Já liderei equipes globais de 500+ profissionais e conduzi integrações pós-M&A e programas de excelência operacional. Combino visão estratégica com execução disciplinada, sempre traduzindo tecnologias emergentes em resultados de negócio mensuráveis. Aqui no Café com Bytes, compartilho insights práticos sobre IA corporativa, governança tecnológica, cibersegurança e liderança em transformação digital para executivos que precisam navegar a revolução da IA com confiança, segurança e clareza estratégica.

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