O DIABO VOLTA À RUNWAY
Descubra por que a tão aguardada sequência do clássico dos anos 2000 prova que o talento e o sarcasmo nunca saem de moda.

O fim de “O Diabo Veste Prada” (2006), Emily (Emily Blunt) se dirige à substituta de Andy (Anne Hathaway) e decreta: “Você tem grandes sapatos para preencher. Espero que você saiba disso”. Essa mesma mensagem parecia ecoar para os criadores de “O Diabo Veste Prada
2″. Ao assumir a missão de dar continuidade à comédia mais icônica sobre o mundo fashion, o desafio era colossal.
A nostalgia é uma força poderosa, capaz de arrastar multidões de volta às salas de cinema — mas não sustenta um roteiro fraco. Trazer o elenco de peso de volta (Anne Hathaway, Meryl Streep, Emily Blunt e Stanley Tucci), além da equipe de roteiro e direção, era um excelente sinal. Felizmente, quem tinha medo de se decepcionar pode respirar aliviado: a sequência diverte, encanta e tem substância suficiente para criar uma história própria e relevante.
Dos pequenos easter eggs, como o deslumbrante suéter cerúleo, ao triunfal retorno de “Vogue” da Madonna na trilha sonora, o filme é um presente embrulhado sob medida para os fãs.
O DIABO AGORA É OUTRO
Um bom blockbuster precisa ser leve e alto-astral, mas ganha força quando dialoga com a sua época. Enquanto o original de 2006 satirizava a cultura opressiva das redações de moda, a sequência aponta seus holofotes para uma crise muito atual: o colapso do jornalismo e a chegada dos todo-poderosos do Vale do Silício.
O filme se mostra surpreendentemente atualizado. Demissões em massa,
profissionais reféns de algoritmos, choques de geração e a figura assustadora do bilionário excêntrico que compra empresas centenárias como se fossem brinquedos. Qualquer semelhança com a vida real — como as fofocas recentes de que Jeff Bezos teria tentado comprar a Vogue — não é mera coincidência.
“A mudança mais notória aqui é que Miranda Priestly se torna, oficialmente, alguém por quem a gente acaba torcendo.”
A EVOLUÇÃO DAS NOSSAS HEROÍNAS
Os personagens cresceram conosco. Andy Sachs não é mais a garota ingênua de suéteres questionáveis; é uma jornalista competente e confiante que, diante do desemprego, é convocada para salvar sua ex-chefe, Miranda. A eterna assistente Emily também brilhou longe da revista: agora ela chefia uma grife de sucesso e, mais do que nunca, não leva desaforo para casa.
Mas é Miranda Priestly (Meryl Streep) quem sofre a transformação mais deliciosa.
Se antes era o “diabo”, agora ela é uma anti-heroína lutando para não ser esmagada pelos caprichos dos ricaços que assumem o controle. Suavizar a personagem pode até tirar um pouco do medo que sentíamos dela, mas dá a Meryl Streep o espaço ideal para uma atuação que funciona como uma carta de amor à personagem. Não é à toa que Anna Wintour pareceu não se importar com o filme desta vez.
O restante do elenco brilha com naturalidade, com destaque para Stanley Tucci, o eterno Nigel, que continua a entregar a ternura e a sensibilidade que são o coração oculto desta franquia.
DIVERTIDO E HONESTO: ISSO É TUDO
Nem tudo são flores na primavera de Milão. O ritmo da trama pode soar um tanto acelerado e a vida amorosa de Andy volta a parecer um mero acessório — talvez uma tentativa torta de corrigir o fato de que as mulheres ambiciosas do primeiro filme acabam sozinhas. A estrutura narrativa também bebe muito da fonte original, trocando a busca pelo manuscrito de Harry Potter por uma entrevistada impossível, e Paris por Milão. Mas, sejamos francos: a gente não foi ao cinema em busca de um tratado filosófico denso. Nós fomos pela moda, pela acidez elegante e pela química inegável dessas atrizes gigantescas. “O Diabo Veste Prada 2” entrega um filme que não é uma cópia barata, mas uma extensão calorosa, nostálgica e incrivelmente gostosa de assistir.
Com um humor afiado na medida e looks deslumbrantes, é a prova cabal de que uma comédia dramática bem-feita nunca sai de moda.



