
Cientistas identificaram sinais de rádio vindos debaixo do gelo da Antártida, em uma descoberta que reforça previsões da física de partículas feitas há décadas. Ao todo, foram registrados 13 eventos associados ao chamado efeito Askaryan, um fenômeno que ocorre quando partículas extremamente energéticas colidem com materiais densos, como gelo ou rochas.
Esse efeito foi proposto pelo físico Gurgen Askaryan, que previu que tais colisões gerariam uma cascata de partículas secundárias. Esse processo cria um acúmulo de elétrons, resultando na emissão de pulsos de radiofrequência — a chamada assinatura do efeito Askaryan. Embora esse tipo de sinal já tivesse sido observado em experimentos com aceleradores de partículas nos anos 2000 e também na atmosfera, faltava uma confirmação direta no gelo.
Essa evidência foi obtida pelo experimento Askaryan Radio Array (ARA), que realizou 208 dias de medições em 2019 com sensores instalados sob a superfície congelada. Utilizando simulações avançadas, os pesquisadores conseguiram isolar os 13 eventos, atingindo um nível de confiança de 5,1 sigma — considerado o padrão máximo para validação de descobertas na física.
Além de confirmar o fenômeno, os resultados ajudam no estudo de partículas conhecidas como neutrinos, frequentemente chamadas de “partículas fantasmas”. Isso porque elas interagem muito pouco com a matéria, atravessando praticamente tudo sem serem detectadas. Tradicionalmente, sua identificação depende da radiação Cherenkov, que ocorre quando partículas se deslocam mais rápido que a luz em meios como água ou gelo, gerando um brilho azulado característico.
No entanto, essa técnica tem limitações quando se trata de neutrinos de energia extremamente alta, que são raros e difíceis de capturar. Nesses casos, o efeito Askaryan se mostra mais eficiente: em vez de luz, ele produz ondas de rádio capazes de viajar grandes distâncias no gelo com baixa perda de sinal. Isso permite monitorar áreas muito maiores com menos equipamentos, ampliando as chances de detectar esses eventos raros.
A descoberta representa um avanço importante na astrofísica e pode contribuir para compreender melhor fenômenos cósmicos extremos, como raios cósmicos de altíssima energia e eventos que ocorrem nas regiões mais distantes do universo.



