ColunistasNews
Tendência

Cultura por influência

Por Luciane Couto

Ana, da segurança da informação, entrou na reunião de marketing com um café na mão e um sorriso discreto. O time estava animado com a ideia de um Drive compartilhado para leads — “agilidade total, sem barreiras!”. Sem budget para impor regras ou chefia para decretar, Ana inclinou a cabeça: “Me contem mais sobre essa pressa. O que rola se não der certo logo?”O marketing desabafou: prazos sufocantes, vendas em jogo. Ana escutou, sem interromper, deixando o ar fluir. Depois, devolveu suave: “Entendo perfeitamente. E se a gente ajustasse as permissões para rodar rápido, sem expor os dados? Eu monto o teste com vocês — velocidade mantida, LGPD tranquila.” Uma hora de conversa, cliques e ajustes, e o time saiu dali não só convencido, mas parceiro: “Isso muda tudo, Ana. Funciona!”

Ana não ordenou. Persuadiu. Ecoando Dale Carnegie em “Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas”, ela soube que influência nasce de fazer o outro se sentir ouvido, de falar nos termos dele. Em segurança, sem poder formal, é assim que as coisas acontecem. Segurança não é departamento fechado — é rede viva, responsabilidade que corre por todos os cantos, do estagiário ao board. E o segredo? Cultura de segurança, tecida por hábitos simples que viram instinto: duplo clique no link suspeito? Pausa e checa. Acesso amplo? Pergunta “preciso mesmo?”. Negociação constrói esses hábitos coletivos.

Pedro, de finanças, era o próximo desafio. Firewall novo na pauta, verba escassa. “Sem espaço agora”, disse ele. Ana, em vez de argumentar custo-benefício seco, começou pelo elogio: “Vocês fecharam o trimestre brilhante — parabéns pela mágica nos números. Esse firewall? Ele blindaria contra R$ 200k em multas de vazamento. Podemos priorizar juntos, com um relatório de ROI que eu preparo?” Pedro pausou, viu o ganho mútuo e topou: “Vamos nessa.” Aos poucos, o hábito se instalou: antes de aprovar gastos, finanças consultava riscos — não por obrigação, mas por conversa fluida.

No SOC, ops pedia acessos amplos: “Preciso de tudo liberado pra não travar.” Ana escutou as frustrações diárias, depois propôs: “Admiro como vocês mantêm tudo rodando. Vamos mapear o essencial? Eu configuro, vocês validam — uptime intacto, portas fechadas.” Teste rápido, confiança construída. Carnegie diria: evite brigas, aponte caminhos. Ana fazia exatamente isso, plantando sementes de cultura: hábitos como “permissão mínima por padrão” viravam rotina, sem memorandos ou treinamentos forçados.Vender priorizações virava conversa natural.

Sem confronto, com escuta e benefícios claros, riscos viravam prioridades compartilhadas. Hábitos floresciam: relatório semanal de “quase-erros” compartilhados, risadas sobre cliques evitados, sensação de time unido contra ameaças. A rede de Ana crescia discreta: um líder por área, convertido em eco. Sucessos compartilhados — “Graças ao toque do marketing, bloqueamos um risco” — viralizavam a cultura. Políticas não eram impostas; eram vividas. Hábitos faziam a diferença: o que começava como negociação virava instinto coletivo, reduzindo brechas sem esforço visível.Governança persuade, não dita. Com Carnegie no bolso, o “não” vira “vamos nessa”. E a cultura de segurança? Torna-se ar que todos respiram. Fácil não é, mas se assim fosse, qual seria a graça?

Luciane Couto

Coordenadora de Segurança da Informação e DPO, atua na construção de ambientes digitais mais seguros, éticos e em conformidade com a LGPD. Com experiência em governança de TI, infraestrutura e cibersegurança, acredita que segurança não é só tecnologia, mas também comportamento, cultura e responsabilidade compartilhada. Escreve para traduzir temas técnicos em reflexões práticas, conectando risco, pessoas e decisões do dia a dia.

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo