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A Era da Fraude Industrializada e as Tendências e Desafios para 2026

Relatórios globais apontam que, mesmo com leve queda no volume de ataques, a sofisticação das fraudes cresceu rapidamente, impulsionada por IA, roubo de dados biométricos e abusos em reembolsos. Por Calza Neto

O ecossistema global de fraudes digitais atravessa o seu momento de transformação mais radical. Após anos marcados pela “democratização”, onde ferramentas baratas permitiam que qualquer amador cometesse crimes cibernéticos, 2025 consolidou o que especialistas classificam como a “Virada da Sofisticação” (Sophistication Shift).

Estudos abrangentes sobre pagamentos e identidade revelam um paradoxo: enquanto as taxas globais de fraude de identidade recuaram ligeiramente de 2,6% para 2,2% no último ano, houve um aumento alarmante de 180% na “fraude sofisticada”. Isso indica que, à medida que os sistemas de defesa barram ataques amadores, os criminosos profissionais investem em operações complexas, coordenadas e impulsionadas por Inteligência Artificial (IA).

A Industrialização via Inteligência Artificial

A IA deixou de ser uma novidade para se tornar o motor central da fraude. O mercado clandestino evoluiu para o modelo de “Fraude como Serviço” (Fraud-as-a-Service), onde ferramentas avançadas são alugadas para criar ataques em escala industrial.

As principais tendências tecnológicas identificadas incluem:

Agentes de Fraude Autônomos: Não se trata mais apenas de bots simples. O ano de 2025 viu o surgimento de “agentes de IA” capazes de conduzir processos de verificação completos, ajustar estratégias em tempo real e interagir com sistemas de segurança sem intervenção humana. Previsões indicam que, em 2026, esses agentes operarão de forma totalmente autônoma, utilizando navegadores com múltiplos perfis para contornar detecções.

O Roubo da Biometria: Com a popularização da autenticação biométrica em bancos, os criminosos mudaram o foco. Malwares modernos agora coletam não apenas senhas, mas selfies, vídeos e impressões digitais diretamente dos dispositivos das vítimas para criar identidades sintéticas futuras.

Deepfakes de Alta Fidelidade: Ferramentas de IA generativa criam documentos com detalhes microscópicos (hologramas e texturas) e vídeos sintéticos que burlam verificações de vivacidade (liveness), imitando microexpressões humanas.

A Guerra dos Sinais: Manipulação de Telemetria

Uma das descobertas mais técnicas dos relatórios é a mudança do ataque ao “conteúdo” para o ataque ao “contexto”. Os fraudadores não estão apenas apresentando documentos falsos; eles estão manipulando os dados que os sistemas usam para validar a transação.

Conhecida como adulteração de telemetria, essa tática envolve o uso de ferramentas de desenvolvedor (responsáveis por 44% das ferramentas de evasão detectadas), emuladores e injeção de código. O objetivo é mascarar o dispositivo real e fazer com que uma sessão fraudulenta pareça vir de um celular legítimo e confiável, enganando os sistemas de segurança.

Métodos de Pagamento e Abuso de Reembolso

O alvo financeiro mudou. Estatísticas mostram que os métodos de pagamento ultrapassaram os documentos de identidade como o vetor com a maior taxa de fraude, atingindo 6,6%. Isso ocorre porque os criminosos buscam monetização imediata através de carteiras digitais e cartões roubados.
Além disso, relatórios focados em e-commerce destacam o crescimento vertiginoso do abuso de políticas de reembolso e da chamada “fraude amigável” (onde o próprio cliente contesta uma compra legítima).

• 57% dos comerciantes relataram um aumento no abuso de reembolsos no último ano.
• As principais táticas incluem alegações falsas de “item não recebido” ou devolução de itens usados/danificados.
• Cerca de 60% dos comerciantes viram um aumento no uso indevido de primeira parte (first-party misuse), muitas vezes atribuído a consumidores aprendendo a “enganar o sistema” ou a emissores de cartões facilitando demais a abertura de disputas.

Outra ameaça renascida é o “Carding” via Carteiras Digitais. Criminosos estão inserindo dados de cartões roubados em carteiras como Apple Pay e Google Wallet para realizar pagamentos por aproximação (tap-to-pay), utilizando técnicas de retransmissão de sinal (NFC Relay) para contornar controles geográficos e de segurança.

Panorama Regional: Desigualdade Global

Os dados regionais ilustram como a sofisticação da fraude varia conforme a maturidade digital de cada mercado:

• América Latina: A região exemplifica o paradoxo da sofisticação. Enquanto o Brasil mantém taxas de fraude geral baixas (0,9%) graças a regulações rígidas, o país viu um crescimento de 126% no uso de deepfakes. Outros países, como o México, viram os deepfakes aumentarem 484%, provando que a complexidade técnica substituiu o volume.
• América do Norte: EUA e Canadá apresentam taxas de fraude baixas (cerca de 1,3% a 1,4%), mas enfrentam um aumento massivo em deepfakes (+237% nos EUA) e fraudes de identidade sintética, focadas em burlar sistemas maduros de verificação.
• Ásia-Pacífico (APAC): A região é um campo de batalha duplo. Mercados maduros como Singapura veem fraudes gerais caindo, mas ataques de deepfake subindo 158%. Já mercados em rápida digitalização, como a Malásia, viram a taxa de fraude disparar 197%.
• África: A região enfrenta um cenário crítico, com países como a Zâmbia registrando que 37% dos candidatos aprovados em processos de verificação estavam envolvidos em redes de fraude. O uso de deepfakes cresceu exponencialmente, com aumentos superiores a 300% em diversas nações africanas.

Setores em Risco e Confiança do Consumidor

A confiança digital está sob pressão. Pesquisas apontam que o setor de Namoro Online possui a menor confiança dos consumidores (apenas 42 pontos em 100), devido à prevalência de golpes românticos impulsionados por IA.

• Serviços Profissionais: Este setor viu um aumento surpreendente de 232% nas fraudes ano a ano, impulsionado pela verificação remota de credenciais e falsificação de documentos para contratações.
• iGaming e Cripto: As apostas online (iGaming) viram uma transformação fundamental: deepfakes e identidades sintéticas agora representam mais da metade de todos os casos de fraude no setor, usados para burlar verificações de idade e abusar de bônus.

O Futuro: 2026 e Além

O consenso entre os relatórios é claro: a batalha contra a fraude não é mais sobre construir muros mais altos, mas sobre desenvolver sistemas de inteligência capazes de ver, aprender e se adaptar mais rápido do que a ameaça. Para sobreviver a 2026, as empresas precisam transcender a adoção de ferramentas isoladas e instituir uma cultura antifraude que permeie toda a organização, transformando a segurança de um centro de custo para um ativo estratégico de confiança.

A Morte dos Silos: A Convergência FRAML A era das equipes isoladas acabou. Estudos indicam que a fragmentação entre departamentos de conformidade (compliance) e prevenção a fraudes tornou-se uma vulnerabilidade crítica que as empresas não podem mais custear. A tendência dominante para os próximos anos é a consolidação dessas funções em unidades unificadas de inteligência de risco. Essa abordagem, conhecida no setor como FRAML (fusão de Fraud e Anti-Money Laundering), permite que dados de verificação de identidade e monitoramento de transações fluam livremente, criando uma visão holística que detecta anomalias invisíveis para departamentos segregados,

Proatividade via Verificação Contínua A mentalidade de “verificar uma vez, confiar para sempre” tornou-se obsoleta diante de identidades sintéticas e contas de aluguel (money mules). A proatividade exige a mudança para a avaliação contínua, onde a confiança não é um status fixo, mas uma pontuação dinâmica,

• Biometria Comportamental: A defesa proativa monitora como o usuário age, ritmo de digitação, movimento do mouse e navegação, identificando fraudadores que possuem as credenciais corretas, mas exibem comportamentos não humanos ou coagidos,
• Inteligência Adaptativa: Sistemas modernos não apenas bloqueiam ataques; eles aprendem com eles em tempo real. A adoção de IA defensiva permite identificar novos padrões de ataque (como o uso de emuladores para mascarar dispositivos) sem a necessidade de intervenção humana imediata.

A Cultura de “IA contra IA” Com 88% dos especialistas convictos de que a fraude se tornará predominantemente impulsionada por IA, a cultura interna das empresas deve evoluir para um cenário de “máquina contra máquina”. Isso exige que as organizações aceitem que a verificação manual é insuficiente contra deepfakes de alta fidelidade. A proatividade, neste contexto, significa investir em ferramentas que validam a integridade dos metadados e da telemetria, detectando não apenas se a imagem é falsa, mas se a câmera usada é virtual ou se o fluxo de dados foi manipulado,

Responsabilidade Compartilhada e Educação Por fim, a cultura antifraude deve se estender para fora dos muros da empresa. Pesquisas mostram que 55% dos consumidores acreditam que a prevenção deve ser uma responsabilidade compartilhada entre empresas e governos. Isso impõe às corporações o dever de educar seus usuários, especialmente sobre golpes de engenharia social e recrutamento de laranjas, transformando o cliente final de elo mais fraco em primeira linha de defesa,

Em suma, vencer a fraude em 2026 não dependerá apenas da tecnologia mais recente, mas da velocidade com que as organizações conseguem integrar inteligência, derrubar barreiras internas e antecipar movimentos de um adversário que já opera de forma automatizada e industrializada.

Calza Neto

Advogado e estrategista em Direito Digital, Proteção de Dados, Propriedade Intelectual e Governança de Inteligência Artificial. Fundador do CNK Advogados e do CNK Digital Trust, atua como DPO, perito judicial e consultor em projetos complexos de LGPD, cibersegurança e compliance regulatório para empresas, instituições públicas e organizações altamente reguladas. Reconhecido por unir rigor jurídico, visão estratégica e pensamento tecnológico, trabalha na proteção de ativos intangíveis, na mitigação de riscos e na construção de confiança digital como vantagem competitiva. Conselheiro da Rwd Lider a Digitais e Membro Efetivo do IASP

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