
A explosão da inteligência artificial está criando um problema que não pode ser resolvido apenas com chips mais rápidos: é preciso encontrar eletricidade suficiente para alimentar toda a infraestrutura necessária.
Na Coreia do Sul, essa questão acaba de produzir um impasse bilionário.
A Samsung Electronics e a SK Hynix recusaram uma proposta da estatal Korea Electric Power Corporation (KEPCO) para antecipar aproximadamente 25 trilhões de won, equivalentes a cerca de US$ 18,7 bilhões, em contas de eletricidade dos próximos cinco anos. A concessionária pretendia utilizar o dinheiro para acelerar a expansão da rede elétrica necessária para novos polos de semicondutores e projetos associados à inteligência artificial.
A divisão proposta era igualmente impressionante: aproximadamente 20 trilhões de won seriam antecipados pela Samsung e 5 trilhões pela SK Hynix.
Os valores foram calculados com base no consumo recente das companhias. Em 2025, a Samsung teria gasto aproximadamente 4,1 trilhões de won com eletricidade, enquanto a SK Hynix desembolsou cerca de 900 bilhões de won.
O episódio revela uma transformação estrutural da indústria de tecnologia.
Durante anos, a preocupação central da corrida pela inteligência artificial foi conseguir GPUs.
Agora, outra corrida começa a se tornar igualmente importante:
quem terá energia, redes de transmissão e infraestrutura elétrica suficientes para manter milhões de chips funcionando?
KEPCO queria transformar contas futuras em infraestrutura hoje
A proposta da KEPCO tinha uma lógica financeira relativamente simples.
Samsung e SK Hynix pagariam antecipadamente aproximadamente cinco anos de consumo de energia. Em troca, receberiam remuneração sobre o dinheiro adiantado, enquanto a concessionária utilizaria imediatamente esses recursos para construir linhas de transmissão e subestações.
As quantias antecipadas seriam posteriormente descontadas das contas de eletricidade, juntamente com os juros correspondentes.
A KEPCO chegou a oferecer remuneração superior ao rendimento dos títulos públicos sul-coreanos de dois anos para tornar a operação mais atraente.
Para a estatal, haveria uma vantagem importante: financiar parte da expansão sem precisar aumentar na mesma proporção sua emissão de dívida.
Para as fabricantes de chips, teoricamente existiria outro benefício: acelerar justamente a construção da infraestrutura elétrica da qual suas futuras fábricas dependerão.
Na prática, porém, Samsung e SK Hynix consideraram o compromisso financeiro grande demais.
Cinco anos de eletricidade pagos de uma vez
O tamanho da operação ajuda a explicar a recusa.
As duas empresas precisariam imobilizar dezenas de trilhões de won imediatamente.
Mesmo vivendo um período de forte demanda por memória para inteligência artificial, fabricantes de semicondutores operam em um mercado historicamente cíclico e precisam realizar investimentos gigantescos em novas fábricas e equipamentos.
A SK Hynix, por exemplo, tornou-se uma das principais beneficiárias da corrida pela IA devido à demanda por memórias HBM utilizadas em aceleradores.
Mas justamente para acompanhar essa demanda é necessário continuar investindo pesadamente.
Antecipar cinco anos de energia significaria retirar uma quantidade enorme de caixa que poderia ser utilizada em expansão produtiva, equipamentos e pesquisa.
Segundo relatos da imprensa sul-coreana, essa incerteza sobre o mercado e a necessidade de preservar recursos para futuros investimentos pesaram na decisão das empresas.
O problema está em Yongin
Grande parte dessa discussão está relacionada ao gigantesco complexo de semicondutores planejado para Yongin, ao sul de Seul.
A região está sendo preparada para concentrar novas instalações da indústria de chips e se tornar um dos maiores polos mundiais de semicondutores.
O problema é que fábricas desse porte consomem quantidades extraordinárias de eletricidade.
Produzir semicondutores envolve milhares de equipamentos funcionando continuamente, salas limpas, sistemas de tratamento de água, controle ambiental e processos industriais extremamente intensivos em energia.
Quando essa infraestrutura é combinada à expansão dos data centers de inteligência artificial, a escala muda novamente.
A KEPCO pretendia direcionar os recursos antecipados principalmente para redes de transmissão e subestações destinadas aos polos de Yongin e Honam.
IA pode adicionar dezenas de gigawatts à demanda sul-coreana
Os números mostram por que o governo está preocupado.
O ministro de Energia da Coreia do Sul, Kim Sung-whan, estima que a expansão das fabricantes de semicondutores e dos novos data centers relacionados à inteligência artificial poderá adicionar aproximadamente 25 a 30 gigawatts de demanda elétrica ao país.
É uma quantidade comparável à capacidade de geração de aproximadamente 20 reatores nucleares.
Essa comparação ajuda a colocar o problema em perspectiva.
Não estamos falando simplesmente de instalar alguns novos servidores.
A infraestrutura necessária para sustentar a próxima geração da economia digital começa a exigir capacidade energética equivalente à de sistemas elétricos inteiros.
E isso cria um paradoxo.
A Coreia do Sul possui algumas das empresas mais importantes da cadeia global da inteligência artificial.
Mas fabricar os chips necessários para a IA e construir data centers para utilizá-los exige uma expansão física gigantesca da infraestrutura nacional.
Estimativas chegam perto de 40 GW em grandes projetos
Outras projeções mostram uma pressão ainda maior.
Estimativa citada pela imprensa sul-coreana calcula que três grandes grupos de projetos poderiam demandar juntos aproximadamente 39,7 GW: cerca de 15 GW para o complexo de Yongin, 18,4 GW para data centers de IA e outros 6,3 GW relacionados ao polo de Honam.
Esses valores são projeções de demanda dos projetos, não consumo já existente.
Ainda assim, deixam claro o tamanho do desafio.
Não basta construir novas usinas.
É necessário transportar a energia até onde ela será consumida.
Isso exige linhas de transmissão, subestações, transformadores e uma série de investimentos que podem levar anos para serem planejados, licenciados e construídos.
E justamente essa infraestrutura de rede é o que a KEPCO tentava financiar antecipadamente.
A própria KEPCO enfrenta um problema financeiro
Existe outro elemento fundamental na história.
A concessionária precisa expandir a rede enquanto carrega um volume enorme de dívida.
No fim de junho, a dívida consolidada da KEPCO havia atingido aproximadamente 210,7 trilhões de won, acima dos 205,6 trilhões registrados no final do ano anterior.
A antecipação das contas de Samsung e SK Hynix permitiria acessar recursos sem depender exclusivamente de novas emissões de títulos.
Com a recusa, a companhia precisará avaliar outras maneiras de financiar parte da expansão.
Isso pode significar mais endividamento, outras estruturas financeiras ou eventualmente participação maior do governo e dos próprios usuários da infraestrutura.
Quem deve pagar pela expansão da rede?
Esse é o ponto econômico mais interessante do caso.
Quando uma fábrica ou um gigantesco data center chega a determinada região, a infraestrutura elétrica precisa ser ampliada para atender ao novo consumidor.
Mas quem deveria pagar por isso?
A empresa?
A concessionária?
O governo?
Ou todos os consumidores através das tarifas?
A discussão está aparecendo em diferentes países justamente por causa da inteligência artificial.
Nos Estados Unidos, por exemplo, o Congresso passou a discutir medidas para evitar que consumidores residenciais arquem indiretamente com parte dos custos provocados pela expansão de data centers.
O problema tende a crescer conforme instalações de IA passam a consumir volumes de eletricidade comparáveis aos de cidades.
O mesmo fenômeno já aparece nos Estados Unidos
A pressão energética não é exclusiva da Coreia do Sul.
A Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos projeta que o consumo norte-americano de eletricidade atingirá novos recordes em 2026 e 2027, impulsionado em grande parte pela expansão de data centers relacionados à inteligência artificial e por outros processos de eletrificação.
A previsão é que a demanda total avance de 4,195 trilhões de kWh em 2025 para 4,270 trilhões em 2026 e 4,349 trilhões em 2027.
Isso significa que a discussão sobre energia está se tornando global.
Estados Unidos, China, Coreia do Sul e outros países que desejam liderar a inteligência artificial precisarão não apenas de fábricas de chips e centros de pesquisa.
Precisarão de geração e transmissão de energia em escala.
Energia nuclear volta ao centro do debate
Na Coreia do Sul, essa pressão já está influenciando a política energética.
O país possui atualmente 26 reatores nucleares, responsáveis por aproximadamente um terço da geração elétrica.
Diante das projeções de crescimento da demanda, o governo está discutindo novamente quanto deverá ampliar sua capacidade nuclear no planejamento energético de longo prazo até 2040.
A razão é prática.
Data centers e fábricas de semicondutores precisam operar continuamente.
Isso significa que não basta possuir energia disponível em determinados horários. A infraestrutura precisa contar com fornecimento confiável durante praticamente 24 horas por dia.
Fontes renováveis serão importantes nesse processo, mas sua variabilidade também exige armazenamento, redes mais robustas ou fontes complementares.
Por isso, nuclear, gás natural e diferentes combinações de geração estão retornando ao centro das estratégias energéticas associadas à IA.
Chips podem ficar prontos antes da rede elétrica
Existe ainda um problema de cronograma.
Uma empresa pode encomendar servidores e aceleradores relativamente rápido.
Uma fábrica pode ser planejada e construída em alguns anos.
Mas grandes linhas de transmissão podem enfrentar processos demorados de licenciamento, desapropriação, aprovação ambiental e oposição das comunidades atravessadas pelos projetos.
Isso cria o risco de uma situação aparentemente absurda:
ter chips, fábricas e data centers prontos — mas não ter eletricidade suficiente para utilizá-los plenamente.
É justamente por isso que empresas e governos estão começando a tratar infraestrutura energética como parte da política de inteligência artificial.
O gargalo da IA está mudando
Nos últimos anos, a pergunta mais frequente da indústria era:
quantas GPUs estão disponíveis?
Depois veio outra:
onde construir os data centers?
Agora uma terceira questão começa a dominar os projetos:
de onde virá a energia?
O caso de Samsung, SK Hynix e KEPCO mostra que essa transição já está acontecendo.
A Coreia do Sul possui duas das empresas mais estratégicas do planeta para a cadeia de IA. Samsung e SK Hynix produzem componentes fundamentais para servidores e aceleradores, especialmente memórias de alta largura de banda.
Mas até mesmo essas gigantes dependem de algo muito mais básico.
Eletricidade.
A infraestrutura digital voltou a depender da infraestrutura física
Existe uma ironia nessa transformação.
Inteligência artificial costuma ser apresentada como uma tecnologia essencialmente digital.
Na realidade, quanto mais sofisticados ficam os modelos, mais físicos se tornam seus requisitos.
São necessárias fábricas.
Chips.
Cobre.
Fibra óptica.
Água para refrigeração.
Transformadores.
Subestações.
Linhas de transmissão.
Usinas.
E enormes quantidades de eletricidade.
A recusa de Samsung e SK Hynix não significa que os projetos de expansão serão abandonados. As empresas continuam precisando da infraestrutura e a KEPCO continuará buscando formas de financiá-la.
O episódio revela, entretanto, o tamanho da conta.
A corrida mundial pela inteligência artificial está entrando em uma fase em que ter o melhor algoritmo pode não ser suficiente.
Países e empresas também precisarão garantir algo que durante décadas pareceu uma commodity abundante e previsível:
energia suficiente para ligar as máquinas.



