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Ligent Technologies busca até US$ 727 milhões em IPO e reforça corrida pela infraestrutura física da inteligência artificial

Fabricante de módulos ópticos usados em data centers pretende estrear na Bolsa de Hong Kong em setembro; crescimento das vendas ligadas a IA e computação em nuvem mostra que a disputa tecnológica vai muito além de chips e modelos

A corrida global pela inteligência artificial está criando oportunidades bilionárias muito além das empresas responsáveis por modelos como ChatGPT, Claude e Gemini. A Ligent Technologies, fabricante de equipamentos de comunicação óptica utilizados em data centers, pretende levantar até HK$ 5,7 bilhões, aproximadamente US$ 727 milhões, em uma oferta pública inicial de ações em Hong Kong.

A companhia está oferecendo aproximadamente 172 milhões de ações a HK$ 32,96 cada. Informações do prospecto indicam uma avaliação de mercado próxima de HK$ 32,4 bilhões, cerca de US$ 4,1 bilhões, caso a operação seja concluída nas condições apresentadas.

A negociação das ações está prevista para começar em 22 de setembro de 2026, colocando a Ligent entre as empresas que tentam aproveitar o enorme fluxo de capital direcionado à construção da infraestrutura necessária para sustentar inteligência artificial.

Mas existe um detalhe particularmente interessante nessa operação.

A Ligent não fabrica modelos generativos.

Não possui um chatbot disputando usuários com OpenAI ou Google.

Seu negócio está em uma camada menos conhecida — e absolutamente fundamental — da infraestrutura de IA: as conexões ópticas responsáveis por transportar enormes quantidades de dados dentro e entre data centers.

A IA precisa movimentar quantidades gigantescas de dados

Quando milhares de GPUs trabalham conjuntamente no treinamento ou na execução de um modelo, elas precisam trocar informações constantemente.

Quanto maiores ficam os clusters computacionais, maior é a quantidade de dados circulando entre servidores, switches e diferentes partes da infraestrutura.

É nesse ambiente que entram os transceptores ópticos.

Esses componentes transformam sinais elétricos em sinais ópticos e vice-versa, permitindo transmitir grandes volumes de dados através de fibras ópticas com velocidades extremamente elevadas.

A Ligent desenvolve justamente esse tipo de tecnologia.

Seu portfólio inclui transceptores de 400G, 800G e 1,6T, além de chips ópticos, terminais de rede e tecnologias de interconexão destinadas a aplicações de IA, computação em nuvem e telecomunicações.

Isso coloca a companhia dentro de uma cadeia de fornecimento que ganhou importância estratégica com a explosão da IA generativa.

O gargalo não está somente nas GPUs

Durante os primeiros anos do boom da inteligência artificial, grande parte da atenção ficou concentrada nas GPUs.

A Nvidia tornou-se o principal símbolo desse movimento.

Mas construir um cluster de IA não significa simplesmente colocar milhares de aceleradores dentro de um prédio.

É necessário conectar essas máquinas.

E conforme os modelos ficam maiores, a eficiência dessa comunicação passa a determinar parte importante do desempenho do sistema.

Uma GPU extremamente poderosa perde eficiência se permanecer esperando dados provenientes de outras máquinas.

Por isso, a infraestrutura de rede tornou-se uma das áreas críticas dos novos data centers.

A Ligent afirma estar desenvolvendo tecnologias especificamente para essas demandas, incluindo soluções ópticas de alta velocidade e baixo consumo energético voltadas aos clusters de inteligência artificial.

Vendas para data centers já são o maior negócio

Os números financeiros ajudam a explicar por que a empresa decidiu buscar capital justamente agora.

Nos seis primeiros meses de 2026, a Ligent registrou receita de aproximadamente 5,39 bilhões de yuans, avanço de quase 28% em relação ao mesmo período do ano anterior.

O lucro líquido chegou a cerca de 661 milhões de yuans, crescimento próximo de 30%.

O desempenho relacionado aos data centers foi ainda mais expressivo.

As vendas de transceptores destinados a esse segmento cresceram 36,6%, alcançando aproximadamente 3,74 bilhões de yuans no semestre. A própria companhia atribuiu parte importante desse crescimento ao aumento da demanda associada à inteligência artificial e à computação em nuvem.

Isso significa que aproximadamente sete de cada dez yuans obtidos pela empresa no período vieram dessa categoria de produtos.

A inteligência artificial, portanto, já não representa apenas uma promessa futura para a Ligent.

Está impulsionando seu negócio atual.

IPO financiará pesquisa e aumento da produção

Segundo o prospecto, parte dos recursos levantados será destinada ao desenvolvimento de novos produtos e tecnologias.

Outra parcela deverá financiar expansão da capacidade produtiva, além de necessidades corporativas gerais.

Esse movimento é importante porque a próxima geração de data centers exigirá conexões progressivamente mais rápidas.

A companhia já trabalha com módulos ópticos de 1,6 Tbps e apresentou tecnologias ainda mais avançadas para redes de IA.

Em setembro, por exemplo, revelou uma solução XPO de 12,8 Tbps, destinada a cenários de alta densidade e refrigeração líquida, além de tecnologias ópticas voltadas a futuras arquiteturas de interconexão.

É uma indicação da velocidade com que a infraestrutura está evoluindo.

Não basta construir GPUs mais rápidas.

A rede precisa acompanhar.

Investidores institucionais já garantiram quase metade da oferta

Outro sinal importante está na composição do IPO.

Investidores considerados “cornerstone” comprometeram aproximadamente US$ 340 milhões, equivalentes a cerca de 47% da oferta-base.

Esse grupo inclui instituições como Primavera Investment Fund, Mirae Asset Securities HK, PAG, Barings, GF Fund e E Fund, além de empresas ligadas ao setor tecnológico.

Investidores cornerstone assumem antecipadamente compromissos de compra de ações, normalmente sujeitos a determinadas condições e períodos de bloqueio.

Sua presença não garante que uma empresa terá bom desempenho depois da abertura de capital, mas reduz a quantidade de ações que precisa encontrar compradores durante a oferta e pode funcionar como sinal de interesse institucional.

Hisense continuará como acionista relevante

Existe ainda uma companhia bastante conhecida por trás da Ligent: a Hisense.

O conglomerado tecnológico chinês controla a fabricante de equipamentos ópticos e possuía, junto com sua subsidiária de Hong Kong, aproximadamente 48,6% da Ligent antes da oferta.

Caso a opção adicional de venda de ações não seja exercida, a participação da Hisense deverá ficar em aproximadamente 40,1% depois do IPO.

A operação, portanto, permitirá à Ligent captar recursos significativos sem romper sua relação de controle com o grupo.

Uma empresa pouco conhecida em um mercado gigantesco

Apesar de não possuir a mesma exposição pública das gigantes de semicondutores, a Ligent já ocupa uma posição relevante no setor.

Dados apresentados para a oferta indicam que, em 2025, a companhia ficou em quinto lugar mundial entre fabricantes especializados de transceptores ópticos, considerando receita, com aproximadamente 4% do mercado global.

Na China, teria ocupado a terceira posição, com participação de aproximadamente 10,1%.

A companhia também possuía, em 5 de setembro, 1.581 patentes concedidas e 726 pedidos de patente pendentes mundialmente.

Esses números ajudam a mostrar que o IPO não envolve simplesmente uma startup tentando aproveitar o entusiasmo em torno da inteligência artificial.

Trata-se de uma empresa estabelecida em uma área que pode se tornar ainda mais importante conforme os clusters computacionais crescem.

Hong Kong tenta capturar o boom da infraestrutura de IA

A operação também precisa ser observada dentro de um movimento maior.

Hong Kong vem recebendo uma sequência de ofertas relacionadas à infraestrutura tecnológica e à inteligência artificial.

Para empresas chinesas, o mercado oferece acesso a investidores internacionais sem depender de uma listagem nos Estados Unidos, justamente em um período marcado por crescente rivalidade tecnológica entre Washington e Pequim.

A Ligent inicialmente avaliava uma operação ainda maior.

No início de setembro, informações obtidas pela Reuters indicavam que a empresa pretendia captar aproximadamente US$ 800 milhões e buscava uma avaliação próxima de US$ 4,2 bilhões.

O tamanho final apresentado ficou um pouco abaixo dessa expectativa inicial.

Ainda assim, uma captação superior a US$ 700 milhões demonstra a quantidade de capital que continua buscando exposição à infraestrutura de IA.

Existe uma segunda corrida acontecendo por trás dos modelos

O IPO também ajuda a revelar uma característica frequentemente esquecida do boom da inteligência artificial.

Existe uma corrida visível envolvendo OpenAI, Anthropic, Google, Meta, xAI e outras empresas tentando desenvolver os modelos mais avançados.

Mas existe outra corrida acontecendo nos bastidores.

Ela envolve Nvidia, AMD e fabricantes de chips.

Fabricantes de memória.

Empresas de equipamentos para semicondutores.

Operadores de data centers.

Fornecedores de energia e refrigeração.

Empresas de networking.

E fabricantes de componentes ópticos como a Ligent.

Quanto maior a quantidade de computação utilizada pelos modelos, maior tende a ser a infraestrutura necessária para interligar tudo isso.

O próximo desafio será consumo de energia

Essa evolução também cria um problema técnico.

Transmitir quantidades crescentes de dados utilizando conexões tradicionais aumenta o consumo energético.

Em data centers contendo dezenas ou centenas de milhares de aceleradores, pequenas diferenças de eficiência podem representar enormes quantidades de eletricidade.

É justamente por isso que tecnologias como LPO, NPO, CPO e XPO estão recebendo investimentos.

A ideia geral é aproximar cada vez mais componentes ópticos dos processadores e switches, reduzindo consumo, latência e complexidade das conexões.

A Ligent afirma já ter desenvolvido e colocado em produção módulos baseados em tecnologias LPO e LRO e continua avançando em arquiteturas ópticas voltadas aos futuros clusters de IA.

A grande aposta depende da continuidade do boom da IA

Existe, naturalmente, um risco.

Boa parte dessa expansão pressupõe que empresas continuarão investindo centenas de bilhões de dólares em infraestrutura computacional.

Caso o crescimento da inteligência artificial desacelere significativamente — por limitações econômicas, regulatórias ou tecnológicas — fornecedores da cadeia também poderão ser afetados.

Essa possibilidade ganhou atenção recentemente após executivos e pesquisadores voltarem a discutir a velocidade de desenvolvimento dos modelos de fronteira.

Por outro lado, mesmo uma mudança na estratégia dos laboratórios não necessariamente eliminaria a demanda.

Inferência, aplicações empresariais, agentes de IA e serviços de nuvem também precisam de infraestrutura.

O verdadeiro debate é sobre qual será a velocidade desse crescimento.

O dinheiro da inteligência artificial está descendo pela cadeia

A tentativa da Ligent de levantar até US$ 727 milhões oferece uma fotografia interessante da atual fase da inteligência artificial.

O primeiro grande ciclo financeiro beneficiou empresas responsáveis pelos modelos.

Depois vieram os fabricantes de aceleradores.

Agora o capital começa a atingir de maneira cada vez mais intensa componentes menos conhecidos, mas essenciais para fazer toda essa infraestrutura funcionar.

É uma consequência natural da escala.

Quando milhares de GPUs precisam operar como se fossem uma única máquina gigantesca, conectar esses processadores passa a ser quase tão importante quanto fabricar os próprios processadores.

E é exatamente nessa camada que a Ligent está apostando.

O IPO de Hong Kong mostra, portanto, que a corrida pela inteligência artificial não está acontecendo apenas dentro dos modelos — ela também está acontecendo nos quilômetros de fibra óptica que conectam as máquinas responsáveis por executá-los.

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