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Uso diário de IA na escola está associado a desempenho menor, mas OCDE alerta: problema não é simplesmente usar inteligência artificial

Resultados do PISA 2025 mostram que estudantes que recorrem quase todos os dias a chatbots para tarefas escolares tendem a apresentar notas menores em ciências. Dados, porém, não provam que a IA seja a causa da queda e indicam que uso moderado, orientado e acompanhado de educação crítica pode trazer benefícios.

A inteligência artificial já faz parte da rotina escolar de milhões de adolescentes, mas a frequência e, principalmente, a forma como essas ferramentas são utilizadas podem fazer diferença no aprendizado.

Dados divulgados nesta terça-feira, 8 de setembro de 2026, pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que estudantes que utilizam chatbots de inteligência artificial quase diariamente para atividades escolares tendem a apresentar desempenho inferior em ciências quando comparados a alunos que não utilizam essas ferramentas.

A conclusão aparece nos novos resultados do PISA 2025, avaliação internacional que acompanha conhecimentos e competências de estudantes de aproximadamente 15 anos.

Mas há uma ressalva essencial: a OCDE não concluiu que usar IA diariamente causa diretamente pior desempenho escolar.

Os resultados mostram uma associação estatística.

Existem diversos fatores — como perfil socioeconômico, motivação, dificuldades anteriores, acesso à tecnologia e maneira como a IA é utilizada — capazes de influenciar essa relação.

Por isso, transformar o levantamento em uma recomendação para simplesmente proibir ChatGPT e outras ferramentas seria uma interpretação excessivamente simplificada.

IA já está presente na vida escolar

O levantamento mostra o tamanho da transformação ocorrida desde que os chatbots generativos começaram a chegar ao público no fim de 2022.

Em apenas alguns anos, a utilização dessas ferramentas para atividades escolares se tornou comum na maioria dos países e economias avaliados.

Entre os estudantes pesquisados, somente cerca de 14% afirmaram nunca ou quase nunca utilizar IA para nenhuma das atividades escolares analisadas pelo PISA.

Isso significa que, de alguma forma, a grande maioria já teve contato com chatbots para estudar.

O uso quase diário, entretanto, é bem menor.

Em média nos países da OCDE, aproximadamente um em cada cinco estudantes declarou utilizar IA quase todos os dias para atividades relacionadas à escola.

Estudantes usam IA para diferentes tarefas

O PISA perguntou especificamente sobre quatro tipos de utilização.

Os estudantes disseram recorrer aos chatbots para:

resumir textos que precisavam ler;

realizar pesquisas preliminares sobre novos assuntos;

redigir textos para trabalhos;

e ajudar no aprendizado de maneira geral.

Essa separação é importante porque os resultados mostram que o impacto associado à IA muda conforme a maneira como ela é utilizada.

Pedir para um chatbot escrever um trabalho não é pedagogicamente equivalente a utilizá-lo para explicar um conceito difícil.

Usuários diários apresentaram desempenho menor

Quando a OCDE analisou os resultados em ciências, encontrou uma relação complexa.

Estudantes que afirmaram utilizar IA para ajudá-los a aprender semanalmente apresentaram desempenho semelhante ao dos não usuários depois do ajuste pelo perfil socioeconômico.

Já aqueles que utilizavam IA com muita frequência — todos ou quase todos os dias — tenderam a apresentar pontuação inferior.

Curiosamente, estudantes que recorriam à ferramenta apenas ocasionalmente também apareceram com resultados menores em algumas comparações.

O padrão sugere que existe uma espécie de ponto intermediário no qual a tecnologia pode funcionar como apoio sem necessariamente substituir o esforço intelectual.

Para tarefas específicas, quem não usa IA geralmente se sai melhor

O resultado muda quando são analisadas atividades específicas.

Em tarefas como resumir textos e realizar pesquisas preliminares, estudantes que não utilizavam IA geralmente apresentaram desempenho superior aos usuários.

Entre aqueles que recorriam aos chatbots, entretanto, os usuários moderados — aproximadamente entre uma vez por mês e duas vezes por semana — frequentemente superaram tanto os usuários muito ocasionais quanto os usuários intensivos.

No caso da utilização da IA para redigir trabalhos, a vantagem observada entre usuários moderados foi menos evidente.

Correlação não significa causa

Esse é provavelmente o ponto mais importante do estudo.

O PISA não permite concluir que a IA provocou a redução das notas.

É possível, por exemplo, que estudantes com dificuldades escolares recorram mais frequentemente aos chatbots justamente porque precisam de ajuda.

Nesse cenário, a dificuldade poderia existir antes do uso intensivo da ferramenta.

Também existem diferenças de renda, acesso tecnológico, motivação e comportamento.

Portanto, seria incorreto afirmar simplesmente:

“usar ChatGPT todos os dias piora as notas”.

O que os dados permitem afirmar é que o uso muito frequente está associado a desempenho inferior em determinadas condições, e essa relação precisa ser investigada.

Outro relatório da OCDE já havia feito alerta semelhante

Os resultados do PISA reforçam conclusões apresentadas anteriormente no OECD Digital Education Outlook 2026.

O relatório, publicado em janeiro, analisou pesquisas sobre inteligência artificial generativa na educação.

Uma das principais conclusões foi que produzir um trabalho melhor com ajuda de IA não significa necessariamente aprender mais.

Esse é um problema central para a educação na era dos chatbots.

Aluno pode entregar trabalho melhor e aprender menos

Imagine que um estudante precise escrever um texto argumentativo.

Sem IA, ele precisa pesquisar.

Organizar informações.

Escolher argumentos.

Construir frases.

Revisar.

Identificar erros.

Esse processo exige esforço cognitivo.

Com um chatbot, é possível produzir um texto tecnicamente superior em poucos segundos.

A nota daquele trabalho pode melhorar.

Mas parte do processo mental necessário para desenvolver a habilidade pode ter sido terceirizada.

Vantagem pode desaparecer quando IA é retirada

Pesquisas analisadas pela OCDE encontraram justamente esse fenômeno.

Estudantes com acesso a ferramentas generativas frequentemente conseguem produzir resultados melhores durante a execução das tarefas.

Quando posteriormente realizam avaliações sem acesso à IA, entretanto, essa vantagem pode desaparecer — e em alguns estudos até se inverter.

Isso sugere que existe uma diferença importante entre performance assistida e aprendizado efetivo.

OCDE fala em risco de “preguiça metacognitiva”

O Digital Education Outlook utiliza um conceito particularmente interessante: metacognitive laziness, ou preguiça metacognitiva.

A ideia não é simplesmente dizer que estudantes ficam preguiçosos.

Metacognição envolve pensar sobre o próprio processo de pensamento.

Quando uma pessoa enfrenta um problema, precisa avaliar:

“O que eu sei?”

“O que não entendi?”

“Qual estratégia devo utilizar?”

“Minha resposta faz sentido?”

“Preciso procurar ajuda?”

Se a IA executa constantemente essas etapas, o estudante pode praticá-las menos.

Terceirização cognitiva é o verdadeiro risco

Esse talvez seja o centro da discussão.

O problema não está necessariamente em utilizar IA.

Está em terceirizar para ela justamente o processo que o estudante deveria desenvolver.

Uma calculadora oferece um exemplo simples.

Ela é extremamente útil depois que uma pessoa compreende operações matemáticas básicas.

Mas entregar uma calculadora a alguém antes que desenvolva qualquer compreensão sobre números pode prejudicar a formação da habilidade.

Com inteligência artificial, essa questão alcança leitura, escrita, pesquisa, raciocínio e argumentação.

IA também pode melhorar aprendizado

Os próprios dados da OCDE impedem uma interpretação exclusivamente negativa.

Quando ferramentas generativas são utilizadas com objetivos pedagógicos claros, os resultados podem ser positivos.

Sistemas de IA projetados especificamente para educação podem funcionar como tutores.

Em vez de simplesmente entregar a resposta, podem fazer perguntas.

Dar pistas.

Identificar erros.

Adaptar explicações.

Estimular o estudante a justificar seu raciocínio.

Essa diferença é fundamental.

Bom tutor não entrega simplesmente a resposta

Imagine dois chatbots.

O primeiro recebe uma equação e responde imediatamente com a solução.

O segundo pergunta:

“Qual seria o primeiro passo?”

Depois analisa a resposta do aluno.

Se estiver errada, fornece uma pista.

Se estiver correta, aumenta a dificuldade.

Os dois utilizam inteligência artificial.

Mas pedagogicamente funcionam de maneiras completamente diferentes.

A OCDE considera que sistemas desenvolvidos com essa segunda lógica possuem potencial muito maior para produzir aprendizado sustentável.

Saber avaliar a IA pode melhorar resultados

O PISA 2025 encontrou outro dado especialmente relevante.

Cerca de seis em cada dez estudantes nos países da OCDE disseram ter recebido, durante as aulas, alguma atividade para avaliar a qualidade das informações produzidas por inteligência artificial.

Entre os alunos que utilizavam IA frequentemente para aprender, aqueles que também tinham oportunidades escolares para analisar criticamente respostas geradas por IA apresentaram desempenho ligeiramente superior.

Isso aponta para uma mudança importante na educação.

Escola precisa ensinar aluno a desconfiar da IA

Durante anos, alfabetização digital significava aprender a utilizar computadores e pesquisar na internet.

Agora existe uma nova competência.

O estudante precisa aprender a perguntar:

De onde veio essa informação?

A resposta possui evidências?

Existe alguma fonte?

A IA inventou alguma coisa?

O argumento é lógico?

Há vieses?

Outra explicação seria possível?

Esse tipo de pensamento crítico pode se tornar tão importante quanto aprender a utilizar a própria ferramenta.

IA pode criar uma nova desigualdade educacional

Existe, entretanto, um problema adicional.

A oportunidade de aprender a avaliar criticamente conteúdo produzido por IA não está distribuída igualmente.

Segundo a OCDE, estudantes de contextos socioeconômicos mais favorecidos relatam com maior frequência receber esse tipo de orientação.

Isso cria o risco de uma nova divisão digital.

Antes, a desigualdade estava principalmente em quem tinha computador e internet.

Agora pode estar em quem aprende a utilizar IA corretamente.

Acesso sozinho não resolve desigualdade

Distribuir ferramentas de inteligência artificial para estudantes pode parecer uma política de democratização.

Mas, sem orientação, o efeito pode ser diferente.

Um estudante com apoio familiar, professores preparados e boa formação digital pode utilizar IA para aprofundar conhecimento.

Outro pode simplesmente pedir respostas prontas.

Os dois possuem acesso à mesma tecnologia.

Mas o resultado educacional pode ser completamente diferente.

Professores também já utilizam inteligência artificial

A transformação não ocorre somente entre estudantes.

Dados anteriores da OCDE mostram que 37% dos professores do ensino secundário inferior utilizaram IA profissionalmente em 2024.

Entre eles, aplicações incluem planejamento de aulas, produção de materiais, elaboração de exercícios e apoio a diferentes tarefas administrativas.

Ao mesmo tempo, 72% dos professores pesquisados acreditavam que IA poderia prejudicar a integridade acadêmica, facilitando que estudantes apresentassem como próprio um trabalho produzido por uma ferramenta.

Essa tensão resume bem o momento atual.

Proibir completamente pode não ser a melhor solução

Diante dos riscos, algumas instituições adotaram inicialmente políticas extremamente restritivas.

Mas a popularização dos modelos tornou uma proibição completa cada vez mais difícil de implementar.

Chatbots estão sendo incorporados a mecanismos de busca, smartphones, navegadores, editores de texto e sistemas operacionais.

A questão tende a deixar de ser:

“permitir ou proibir IA?”

E passar a ser:

“em quais atividades ela deve ser utilizada e em quais o estudante precisa trabalhar sozinho?”

Habilidades fundamentais continuam necessárias

A OCDE defende uma abordagem centrada no desenvolvimento das capacidades humanas.

Estudantes precisam aprender conhecimentos e habilidades fundamentais sem depender permanentemente de IA.

Depois, podem utilizar sistemas educacionais baseados em inteligência artificial.

E finalmente ferramentas generativas de propósito geral.

Essa sequência tenta impedir que a tecnologia substitua a construção das competências que deveria ajudar a desenvolver.

Avaliações também terão de mudar

A chegada da IA cria ainda outro desafio.

Trabalhos realizados integralmente em casa tornam-se cada vez menos confiáveis como prova de aprendizado individual.

Um texto excelente pode ter sido produzido pelo estudante.

Pode ter sido revisado por IA.

Pode ter sido parcialmente escrito por um chatbot.

Ou pode ter sido produzido praticamente inteiro pela ferramenta.

Isso pode aumentar a importância de avaliações presenciais, apresentações orais, resolução de problemas em sala e atividades nas quais o aluno precisa explicar seu próprio raciocínio.

“Detectores de IA” não resolvem o problema

A alternativa de simplesmente tentar identificar automaticamente textos produzidos por IA também possui limitações.

Detectores podem produzir falsos positivos e falsos negativos.

Além disso, conforme modelos evoluem, distinguir estatisticamente texto humano de texto gerado tende a ficar mais difícil.

A solução educacional mais robusta provavelmente estará no desenho das atividades e não apenas na tentativa de vigiar o resultado final.

O desafio brasileiro é ainda maior

Para o Brasil, as conclusões possuem importância especial.

O País precisa lidar simultaneamente com adoção de novas tecnologias e desigualdades históricas de aprendizagem, infraestrutura e acesso digital.

Escolas possuem condições tecnológicas muito diferentes.

Professores também possuem níveis distintos de familiaridade com inteligência artificial.

Uma política educacional baseada simplesmente em liberar ferramentas pode ampliar diferenças existentes.

Formação de professores será fundamental

O professor passa a ocupar uma posição ainda mais importante.

Para orientar estudantes, precisa compreender minimamente:

como modelos generativos funcionam;

por que podem produzir informações falsas;

como verificar respostas;

quando a IA ajuda;

quando prejudica;

como estruturar atividades;

e como avaliar aprendizado em um ambiente no qual chatbots estão sempre disponíveis.

Isso exige investimento em formação continuada.

IA não é vilã nem solução automática

Os resultados do PISA 2025 trazem uma mensagem mais sofisticada do que a manchete “IA piora desempenho escolar”.

Os dados mostram que uso excessivo ou pouco orientado pode estar associado a resultados piores.

Ao mesmo tempo, utilização moderada e pedagogicamente estruturada pode funcionar como apoio ao aprendizado.

A diferença está menos na existência da tecnologia e mais na maneira como ela é incorporada ao processo educacional.

O aluno precisa continuar pensando

Esse talvez seja o princípio mais importante apresentado pelas evidências reunidas pela OCDE.

Inteligência artificial pode explicar.

Pode questionar.

Pode adaptar exercícios.

Pode ajudar professores.

Pode ampliar acesso a tutoria.

Pode estimular pesquisa.

Mas, quando começa a realizar continuamente o esforço cognitivo que deveria ser feito pelo estudante, a tecnologia deixa de funcionar como ferramenta e passa a funcionar como substituta.

E educação não é apenas chegar à resposta correta.

É desenvolver a capacidade necessária para chegar até ela.

O alerta da OCDE, portanto, não é para retirar a inteligência artificial das escolas. É para impedir que, ao ganhar uma ferramenta capaz de responder praticamente tudo, os estudantes deixem justamente de aprender a pensar por conta própria.

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