
O crédito consignado destinado aos trabalhadores da iniciativa privada está se transformando em uma das maiores disputas do mercado financeiro brasileiro.
Depois de crescer rapidamente desde a reformulação do produto, em março de 2025, bancos, fintechs e gestores do mercado financeiro avaliam que a carteira poderá alcançar aproximadamente R$ 300 bilhões nos próximos dois anos, praticamente dobrando novamente de tamanho.
Os números ajudam a explicar o entusiasmo.
Dados do Banco Central mostram que o saldo do consignado privado alcançou R$ 117,7 bilhões em julho de 2026, crescimento de 3,8% em relação aos R$ 113 bilhões registrados em junho.
Na comparação anual, a expansão é muito maior.
Em julho de 2025, a carteira estava em R$ 49,9 bilhões.
Isso significa que o volume mais que dobrou em apenas 12 meses.
Mercado trabalha com números diferentes para a carteira
Existe uma diferença importante entre os números utilizados pelo Banco Central e pelo Ministério do Trabalho e Emprego.
Enquanto a série do BC aponta R$ 117,7 bilhões em julho, dados utilizados pelo Ministério colocam o mercado atual próximo de R$ 140 bilhões.
É a partir desse segundo patamar que participantes do setor projetam uma carteira próxima de R$ 300 bilhões em aproximadamente dois anos.
Portanto, os R$ 300 bilhões não são uma previsão oficial garantida pelo governo. Trata-se de uma estimativa de mercado baseada no potencial de expansão do produto.
Mudança de 2025 abriu mercado
O principal ponto de transformação ocorreu em março de 2025, com a reformulação do consignado destinado aos trabalhadores do setor privado.
Historicamente, esse mercado enfrentava uma limitação importante.
Para oferecer consignado, bancos normalmente dependiam de acordos com os empregadores.
Isso tornava o produto muito mais acessível aos funcionários de grandes companhias do que aos trabalhadores de pequenas empresas.
O novo modelo reduziu essa barreira.
Com a integração ao eSocial e à Carteira de Trabalho Digital, instituições habilitadas passaram a conseguir oferecer crédito sem depender do tradicional convênio individual entre banco e empregador.
O resultado foi uma enorme ampliação do mercado potencial.
Mais de 47 milhões de trabalhadores entram na disputa
O público potencial supera 47 milhões de trabalhadores com carteira assinada.
Também estão incluídos grupos como empregados domésticos e trabalhadores rurais elegíveis às regras da modalidade.
Apesar desse universo gigantesco, executivos do setor estimam que a penetração do consignado privado ainda esteja próxima de 20%.
A base atual seria de aproximadamente 10 milhões de tomadores.
É justamente essa diferença entre o número de trabalhadores elegíveis e o número de clientes atuais que sustenta as projeções mais otimistas.
Governo trabalha com até 25 milhões de usuários
A perspectiva governamental também aponta para uma expansão expressiva.
A projeção é que aproximadamente 25 milhões de trabalhadores possam utilizar o consignado privado dentro de um horizonte de até quatro anos.
Se isso acontecer, a base de usuários poderá mais que dobrar.
Mas crescimento no número de clientes não significa necessariamente aumento proporcional da carteira.
O resultado dependerá de fatores como valor médio dos empréstimos, juros, renda, desemprego e critérios de concessão utilizados pelas instituições financeiras.
Concessões voltaram a acelerar
Outro indicador acompanhado pelo mercado são as novas concessões.
Em julho, aproximadamente R$ 8,8 bilhões foram concedidos na modalidade.
Em junho, haviam sido R$ 7,7 bilhões.
A retomada ocorre depois de mudanças regulatórias que provocaram uma desaceleração temporária no ritmo das operações.
O comportamento dos próximos meses será importante para determinar se a aceleração é sustentável.
Por que os bancos gostam tanto do consignado?
A principal característica do consignado é simples.
A parcela é descontada diretamente da remuneração do trabalhador.
Isso reduz parte do risco de inadimplência enquanto o vínculo empregatício permanece ativo.
Para o banco, menor risco pode permitir juros inferiores aos cobrados em modalidades sem garantia ou desconto automático.
Para o consumidor, isso cria uma oportunidade de substituir dívidas muito mais caras.
Trocar cartão por consignado pode reduzir juros
Essa é uma das principais teses defendidas pelos participantes do mercado.
Um trabalhador endividado no cartão de crédito ou cheque especial pode contratar um consignado com custo inferior e utilizar o dinheiro para quitar a dívida anterior.
Nesse cenário, não existe necessariamente aumento do endividamento total.
Existe uma migração de dívida cara para uma modalidade potencialmente mais barata.
Essa substituição pode se tornar um dos principais motores do crescimento.
Mas consignado continua sendo dívida
O fato de possuir juros menores não transforma o consignado em dinheiro barato sem consequências.
Existe um aspecto especialmente importante para o trabalhador:
a parcela é retirada da renda antes que o dinheiro esteja disponível para outras despesas.
Quanto maior o comprometimento da folha, menor será a renda efetivamente disponível todos os meses.
Para famílias com orçamento apertado, isso pode representar um problema relevante.
Fintechs enxergam oportunidade gigantesca
A expansão também abriu espaço para empresas menores desafiarem os bancos tradicionais.
Um exemplo é a fintech YouCred, fundada por Leonardo Kogut, ex-executivo do Santander e do Itaú BBA.
A companhia captou R$ 5 milhões em uma rodada seed e afirma ter como meta originar aproximadamente R$ 1 bilhão em Crédito do Trabalhador no próximo ano.
A estratégia envolve utilização intensiva de inteligência artificial para automatizar diferentes etapas da operação.
É importante destacar que R$ 1 bilhão é uma meta declarada pela própria fintech, e não um volume já alcançado.
IA pode mudar economia das operações de crédito
O uso de inteligência artificial ajuda a explicar por que fintechs acreditam conseguir competir em um mercado tradicionalmente dominado por grandes instituições.
Modelos podem auxiliar em tarefas como análise de risco, documentação, atendimento, prevenção a fraude, avaliação cadastral e cobrança.
Processos que anteriormente exigiam equipes maiores podem ser parcialmente automatizados.
Isso reduz o custo operacional por contrato.
Em um mercado com dezenas de milhões de potenciais clientes, pequenas diferenças de custo podem produzir vantagens importantes.
Crédito vira uma disputa tecnológica
A competição pelo consignado privado, portanto, não será determinada apenas pela taxa de juros.
Bancos e fintechs disputarão eficiência.
Quem consegue analisar melhor o risco?
Quem identifica fraude mais rapidamente?
Quem possui menor custo de aquisição?
Quem consegue aprovar uma operação mais rapidamente?
Quem oferece melhor experiência digital?
Nesse cenário, dados e inteligência artificial passam a fazer parte diretamente da estratégia de crédito.
eSocial muda a distribuição financeira
Existe também uma mudança estrutural.
No modelo antigo, possuir relacionamento com grandes empregadores era uma vantagem competitiva enorme.
Com a nova infraestrutura, a distribuição do crédito fica mais aberta.
Uma instituição digital pode disputar trabalhadores de empresas com as quais nunca teve relacionamento comercial direto.
Isso aumenta a competição.
E competição pode pressionar taxas.
Bancos tradicionais continuam com vantagens importantes
Isso não significa que fintechs tenham o caminho livre.
Grandes bancos possuem bases gigantescas de clientes.
Também possuem histórico financeiro.
Dados transacionais.
Modelos de risco consolidados.
Capital.
Funding.
Estruturas de cobrança.
Relacionamento com milhões de trabalhadores.
Uma fintech pode ser extremamente eficiente tecnologicamente, mas ainda precisa financiar os empréstimos que concede.
Funding pode definir vencedores
Esse é um ponto frequentemente esquecido quando se fala em fintechs de crédito.
Conceder R$ 1 bilhão em empréstimos exige acesso a capital.
A empresa pode utilizar capital próprio, fundos, securitização, parcerias bancárias ou outras estruturas financeiras.
Quanto menor o custo desse dinheiro, maior a capacidade de oferecer juros competitivos.
Portanto, a disputa envolve simultaneamente tecnologia, dados, risco e funding.
O grande alerta está na inadimplência
Existe, entretanto, um número que contrasta fortemente com o otimismo.
A inadimplência do consignado privado atingiu 10% em julho de 2026.
Foi o maior nível registrado desde o início da série histórica do Banco Central, em 2011.
Em apenas um mês, houve aumento de aproximadamente 1,3 ponto percentual.
Esse indicador merece atenção especial porque o principal argumento econômico do consignado é justamente seu menor risco.
Trabalhador privado possui risco diferente
Existe uma diferença estrutural entre emprestar para um servidor público e para um trabalhador da iniciativa privada.
O servidor tende a possuir maior estabilidade no vínculo de trabalho.
No setor privado, demissões e mudanças de emprego fazem parte do mercado.
Quando o trabalhador perde o vínculo, o mecanismo normal de desconto daquela folha é interrompido.
Isso muda o perfil de risco.
Desemprego vira variável fundamental
Por essa razão, o desempenho do consignado privado está diretamente relacionado ao mercado de trabalho.
Se o emprego formal cresce e permanece estável, a carteira tende a apresentar comportamento mais previsível.
Em uma recessão acompanhada por demissões, o risco pode aumentar rapidamente.
Bancos precisam considerar essa possibilidade ao definir taxas e limites.
Risco da empresa empregadora também importa
Não é apenas o trabalhador que precisa ser analisado.
A empresa onde ele trabalha também pode influenciar o risco.
Imagine dois funcionários com salários idênticos.
Um trabalha em uma companhia financeiramente saudável.
Outro está empregado em uma empresa próxima de entrar em recuperação judicial.
Os dois podem possuir a mesma renda hoje.
Mas a probabilidade de continuidade dessa renda é diferente.
Modelos de crédito mais sofisticados podem incorporar esse tipo de informação.
Regulador já apertou algumas regras
O crescimento acelerado também provocou ajustes regulatórios.
Em abril de 2026, novas regras estabeleceram limites relacionados às taxas das operações que utilizam garantias vinculadas ao FGTS.
Depois da mudança, o mercado registrou uma redução significativa nas novas concessões.
Em determinados períodos imediatamente posteriores à alteração, as quedas ficaram entre aproximadamente 22,8% e 29%.
O movimento mostrou como mudanças nas regras podem alterar rapidamente o apetite das instituições.
R$ 300 bilhões não são inevitáveis
Por isso, a projeção para 2028 precisa ser interpretada como cenário e não como certeza.
Existem argumentos fortes para crescimento:
47 milhões de trabalhadores potenciais;
penetração ainda baixa;
digitalização da contratação;
competição entre instituições;
possibilidade de refinanciamento de dívidas caras;
uso crescente de IA.
Mas existem riscos igualmente relevantes:
inadimplência;
desemprego;
mudanças regulatórias;
taxas máximas;
fraudes;
custo de capital;
e deterioração econômica.
Consignado público ainda é muito maior
Apesar do crescimento impressionante, o consignado privado continua menor que o mercado destinado a servidores e outros públicos tradicionais.
Na comparação utilizada pelo Banco Central, o consignado público estava próximo de R$ 390 bilhões.
Ou seja, mais de três vezes o volume privado registrado na mesma referência.
Mas a diferença está na velocidade.
Enquanto o mercado tradicional é maduro, o privado ainda está em processo acelerado de expansão.
Mercado pode mudar estrutura do crédito pessoal
Se a carteira realmente se aproximar dos R$ 300 bilhões, o impacto poderá ir além do próprio consignado.
Cartão de crédito.
Cheque especial.
Crédito pessoal.
Empréstimos digitais.
Renegociação.
Todos esses mercados podem sentir os efeitos.
Isso acontece porque o trabalhador possui capacidade financeira limitada.
Se uma parcela maior de sua renda estiver comprometida com consignado, haverá menos espaço para outras linhas.
Bancos podem disputar a dívida que o cliente já possui
Uma das grandes oportunidades pode estar justamente na migração.
Em vez de convencer uma pessoa sem dívida a tomar um novo empréstimo, instituições podem procurar clientes que já possuem obrigações caras.
O argumento comercial passa a ser:
troque uma dívida cara por uma mais barata.
Essa estratégia pode ampliar rapidamente a carteira sem necessariamente provocar o mesmo crescimento no endividamento agregado das famílias.
Competição pode beneficiar consumidor — se houver transparência
Quanto mais instituições disputam um cliente, maior tende a ser a pressão competitiva sobre preços.
Mas isso só funciona bem quando o consumidor consegue comparar propostas.
Taxa mensal isolada pode não ser suficiente.
O trabalhador precisa observar o Custo Efetivo Total (CET).
Prazo.
Valor da parcela.
Valor total pago.
Seguro eventualmente incluído.
Condições de antecipação.
E consequências para a renda mensal.
Desconto automático pode esconder peso da dívida
Existe também um risco comportamental.
Como o pagamento acontece automaticamente, o consumidor pode perceber menos a dívida do que perceberia um boleto mensal.
Mas o impacto financeiro permanece.
Um empréstimo com prazo longo pode comprometer parte relevante da renda durante anos.
Por isso, crescimento saudável do consignado depende também de educação financeira.
Fintechs podem acelerar uma segunda fase
A primeira fase de expansão foi impulsionada principalmente pela mudança regulatória e pela abertura proporcionada pelo eSocial.
A segunda pode ser tecnológica.
Inteligência artificial pode permitir que empresas menores operem milhões de análises de crédito com estruturas muito mais enxutas.
Open Finance pode enriquecer modelos de risco.
Automação pode reduzir custos.
APIs podem simplificar distribuição.
E novos modelos de funding podem ampliar a competição.
O verdadeiro teste começa agora
Dobrar uma carteira relativamente pequena é uma coisa.
Dobrar novamente quando ela já ultrapassa a casa dos R$ 100 bilhões é outra.
Quanto maior o mercado, maior também será sua exposição a ciclos econômicos, desemprego e deterioração de crédito.
O recorde de 10% de inadimplência mostra que essa expansão não está ocorrendo sem riscos.
É justamente por isso que os próximos dois anos serão importantes.
Se bancos e fintechs conseguirem combinar escala, taxas competitivas e controle de risco, o consignado privado poderá realmente se transformar em uma das principais modalidades de crédito às famílias brasileiras.
Se o crescimento for perseguido sem a mesma velocidade na avaliação de risco, o salto para R$ 300 bilhões poderá trazer uma conta bem mais complicada.
O mercado enxerga potencial para dobrar o consignado privado até 2028. O desafio agora não é apenas conceder mais crédito — é provar que essa expansão pode acontecer sem dobrar também o risco para bancos e trabalhadores.



