
Um novo relatório do Unicef dimensiona um dos lados mais graves da expansão da vida digital entre crianças e adolescentes. Cerca de 20 milhões de jovens entre 12 e 17 anos sofreram pelo menos uma forma de exploração ou abuso sexual facilitado pela tecnologia em um período de apenas um ano, considerando os 21 países analisados.
Isso equivale a aproximadamente uma em cada cinco crianças e adolescentes usuários de internet nos países pesquisados.
A informação apresentada na publicação está correta, mas os números precisam ser diferenciados: 15 milhões correspondem especificamente aos que foram expostos a conteúdo sexual indesejado. O universo estimado de vítimas de alguma forma de exploração ou abuso sexual facilitado pela tecnologia chega a 20 milhões.
Os dados fazem parte do relatório Through Children’s Eyes: How Digital Technologies Enable Child Sexual Abuse, divulgado pelo Unicef em setembro.
15 milhões receberam conteúdo sexual que não queriam ver
A pesquisa mostra diferentes formas de violência ocorrendo por intermédio da tecnologia.
Mais de 15 milhões foram expostos a conteúdo sexual indesejado.
Outros 9 milhões receberam solicitações para participar de conversas de natureza sexual ou compartilhar imagens íntimas contra a própria vontade.
Cerca de 4 milhões tiveram imagens íntimas divulgadas sem consentimento.
Os grupos não devem ser simplesmente somados, já que uma mesma vítima pode ter passado por mais de uma situação.
Por isso, o Unicef estima em aproximadamente 20 milhões o total de crianças e adolescentes atingidos por pelo menos uma forma de exploração ou abuso facilitado pela tecnologia.
Redes sociais aparecem no centro do problema
Um dos pontos mais importantes do levantamento é onde essas situações acontecem.
Quase 60% dos casos ocorreram em plataformas de redes sociais, incluindo serviços amplamente utilizados como Facebook, Instagram, Snapchat, TikTok e WhatsApp.
Outros 14% ocorreram em jogos online.
Isso mostra que o risco não está concentrado apenas em áreas obscuras da internet ou plataformas desconhecidas.
Ele aparece justamente nos ambientes digitais utilizados diariamente para conversar, estudar, jogar e manter contato com amigos.
Agressor muitas vezes já conhece a vítima
Outro dado quebra a percepção de que o principal perigo necessariamente vem de desconhecidos encontrados na internet.
Em 57% dos casos, a pessoa envolvida no abuso já era conhecida pela criança ou adolescente.
O grupo inclui colegas, amigos, parceiros afetivos e até familiares.
Em outros casos, porém, o primeiro contato ocorreu pela própria internet.
Isso mostra como a tecnologia pode funcionar tanto como ponto inicial para a aproximação quanto como ferramenta utilizada para ampliar uma situação de abuso que começou fora do ambiente digital.
Menos de 1% chega às autoridades
Talvez um dos dados mais preocupantes seja o silêncio em torno das ocorrências.
Segundo o Unicef, menos de 1% das experiências foi comunicada à polícia, a um assistente social ou a uma linha de ajuda.
Mais de quatro em cada dez vítimas não contaram o ocorrido para ninguém.
Esse nível de subnotificação significa que estatísticas policiais e denúncias formais mostram apenas uma pequena parcela do problema.
Vergonha, medo, ameaças, sentimento de culpa e desconhecimento sobre onde procurar ajuda podem contribuir para que crianças permaneçam em silêncio.
Impacto vai muito além da tela
O relatório também identificou uma forte associação entre essas experiências e problemas de saúde mental.
Crianças e adolescentes que passaram por formas de exploração ou abuso sexual facilitadas pela tecnologia apresentaram probabilidade quatro vezes maior de relatar pensamentos e comportamentos suicidas.
A incidência de automutilação também foi quatro vezes maior.
Os níveis de ansiedade ficaram aproximadamente 11 pontos percentuais acima daqueles observados entre jovens que não relataram essas experiências.
Esses dados mostram que chamar esse fenômeno simplesmente de “problema da internet” minimiza sua dimensão.
A violência pode começar ou ser ampliada no ambiente digital, mas suas consequências são reais e podem acompanhar a vítima na escola, na família e em suas relações pessoais.
Inteligência artificial cria uma nova ameaça
O avanço da IA generativa acrescentou outra camada ao problema.
Ferramentas capazes de criar ou manipular imagens tornam possível produzir conteúdo sexual falso envolvendo pessoas reais.
Segundo o levantamento, aproximadamente 1,1 milhão de crianças foram afetadas por imagens sexuais geradas ou manipuladas por inteligência artificial.
Esse cenário amplia significativamente o desafio da proteção infantil.
Uma fotografia comum publicada em uma rede social pode, tecnicamente, ser utilizada como matéria-prima para produzir uma imagem falsa de natureza sexual.
A vítima não precisa ter produzido ou enviado conteúdo íntimo para que esse tipo de material seja criado.
IA pode aumentar a escala dos abusos
A preocupação não está apenas na geração de imagens.
Sistemas de inteligência artificial podem tornar golpes e abordagens mais convincentes, ajudar criminosos a produzir identidades falsas e automatizar interações.
Isso cria um problema de escala.
Um agressor que anteriormente precisava conversar individualmente com diferentes vítimas pode utilizar automação para ampliar suas abordagens.
O avanço de agentes autônomos e ferramentas generativas torna ainda mais urgente a criação de mecanismos de proteção incorporados diretamente às plataformas.
Estudo ouviu aproximadamente 21 mil jovens
Os resultados são baseados em uma das maiores bases internacionais já reunidas sobre o tema.
As pesquisas utilizadas envolveram aproximadamente 21 mil crianças e adolescentes usuários de internet entre 12 e 17 anos, em 21 países.
Grande parte dos dados foi coletada entre 2020 e 2025 dentro do projeto internacional Disrupting Harm, apoiado pela Safe Online e desenvolvido com participação do Unicef Innocenti, ECPAT International e Interpol.
Por isso, existe uma ressalva importante: os 20 milhões não representam uma estimativa de todas as crianças do planeta.
O número corresponde aos países analisados.
O próprio Unicef considera provável que a dimensão real seja significativamente maior devido à subnotificação.
Brasil também enfrenta um cenário grave
O Brasil possui dados específicos dentro do projeto Disrupting Harm.
No país, aproximadamente 19% das crianças e adolescentes de 12 a 17 anos relataram ter sofrido exploração ou abuso sexual facilitado pela tecnologia no período analisado.
Isso corresponde a cerca de 3 milhões de meninas e meninos brasileiros.
O resultado coloca o problema diretamente dentro da realidade nacional.
Redes sociais, aplicativos de mensagens, jogos e outras ferramentas digitais podem participar de diferentes etapas da violência — desde aproximação e aliciamento até coerção, extorsão, produção ou disseminação de imagens.
Segurança precisa estar no desenho das plataformas
O Unicef defende que empresas de tecnologia assumam maior responsabilidade na prevenção.
Isso envolve dificultar contatos indesejados entre adultos e menores, melhorar sistemas de denúncia, detectar comportamentos potencialmente abusivos e impedir que algoritmos ampliem a exposição de crianças a conteúdos inadequados.
A discussão está relacionada ao conceito de safety by design: mecanismos de proteção devem fazer parte da arquitetura do produto desde sua criação, em vez de aparecer apenas depois que problemas graves já ocorreram.
Também existe um equilíbrio delicado.
Ferramentas de detecção precisam proteger crianças sem criar sistemas desproporcionais de vigilância ou comprometer indiscriminadamente a privacidade dos usuários.
Responsabilidade não pode recair sobre a criança
Orientar crianças e adolescentes sobre segurança digital continua sendo importante.
Não compartilhar imagens íntimas, desconfiar de abordagens suspeitas, utilizar ferramentas de bloqueio e procurar adultos de confiança são medidas úteis.
Mas os números apresentados pelo Unicef demonstram que o problema não pode ser tratado apenas como uma questão de comportamento individual.
Crianças utilizam serviços desenvolvidos por algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo.
Essas plataformas definem mecanismos de recomendação, configurações de privacidade, mensagens privadas, descoberta de perfis e formas de contato entre usuários.
Por isso, governos, empresas, escolas e famílias possuem responsabilidades complementares.
Um em cada cinco é um alerta para toda a indústria de tecnologia
O relatório desmonta a ideia de que exploração sexual infantil online seja um fenômeno restrito a uma pequena parcela da internet.
Nos países pesquisados, aproximadamente um em cada cinco jovens usuários da internet entre 12 e 17 anos sofreu alguma forma de exploração ou abuso sexual facilitado pela tecnologia em apenas um ano.
Mais de 15 milhões receberam conteúdo sexual indesejado.
Milhões foram pressionados a participar de conversas ou enviar imagens.
Outros milhões tiveram imagens compartilhadas sem consentimento.
E menos de 1% das situações chegou às autoridades.
Com redes sociais ocupando papel central e a inteligência artificial criando novas possibilidades de manipulação de imagens e automação, a proteção de crianças deixa de ser apenas uma discussão sobre moderação de conteúdo.
Ela passa a ser também uma questão fundamental sobre como a próxima geração de plataformas digitais deve ser projetada.



