
A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) avalia criar um dashboard para compartilhamento de informações sobre ataques e ameaças cibernéticas no setor de telecomunicações. A proposta pretende melhorar a capacidade de resposta de operadoras e provedores de internet diante de incidentes, especialmente entre empresas menores que podem não contar com estruturas próprias de monitoramento.
A ideia foi apresentada pelo conselheiro da Anatel Edson Holanda durante um evento realizado em São Paulo. Segundo ele, o sistema precisaria receber informações tanto das grandes empresas de telecomunicações quanto dos provedores de banda larga para que os dados sejam úteis na identificação e no acompanhamento de ameaças.
O projeto ainda está em fase de avaliação e não representa, neste momento, a implantação de uma plataforma nacional já disponível.
Dashboard pretende ampliar a troca de informações
A proposta parte de um problema recorrente no setor: empresas maiores normalmente possuem equipes e estruturas próprias para acompanhar ataques, enquanto provedores de menor porte podem ter menos recursos para identificar rapidamente uma ameaça que já esteja afetando outras organizações.
O dashboard imaginado pela Anatel funcionaria como uma espécie de ponto de compartilhamento de informações.
A partir dos dados enviados pelas empresas, seria possível acompanhar indicadores relacionados a ataques, ameaças e incidentes que estejam afetando as redes de telecomunicações.
A intenção é permitir que uma empresa que identifique determinado padrão de ataque consiga alertar outras organizações antes que elas sejam atingidas pelo mesmo problema.
Pequenos provedores estão entre as preocupações
A diferença de capacidade técnica entre empresas de telecomunicações é um dos motivos que levaram a Anatel a considerar a iniciativa.
Grandes operadoras possuem centros especializados e equipes dedicadas à segurança cibernética. Já provedores regionais podem ter estruturas muito menores.
Na avaliação de Edson Holanda, a falta de informação pode fazer com que um incidente identificado por uma grande empresa não seja percebido imediatamente por organizações menores.
Nesse cenário, o compartilhamento de indicadores poderia funcionar como uma camada adicional de proteção.
Em vez de cada empresa tentar identificar individualmente uma campanha maliciosa, informações sobre determinado ataque poderiam circular entre diferentes participantes do setor.
Anatel quer ampliar seu papel na cibersegurança
A discussão sobre o dashboard faz parte de uma atuação mais ampla da Anatel na segurança digital das telecomunicações.
A agência já possui o Grupo Técnico de Segurança Cibernética e Gestão de Riscos de Infraestrutura Crítica (GT-Ciber), criado dentro do Regulamento de Segurança Cibernética aplicado ao setor de telecomunicações. Entre suas atribuições estão justamente o acompanhamento de políticas de segurança, requisitos técnicos, fornecedores, compartilhamento de informações e boas práticas.
O próprio regulamento estabelece obrigações relacionadas à segurança cibernética das prestadoras, incluindo a elaboração de políticas internas e a comunicação de incidentes relevantes que afetem substancialmente a segurança das redes ou dos dados dos usuários.
Assim, o novo painel poderia complementar mecanismos que já existem, concentrando informações de diferentes participantes em uma estrutura de acompanhamento comum.
Informações compartilhadas podem acelerar respostas
Em ataques cibernéticos, velocidade é um fator decisivo.
Uma campanha pode atingir diversas empresas utilizando a mesma infraestrutura, vulnerabilidade ou técnica. Quanto mais tempo uma organização demora para reconhecer o padrão, maior pode ser o impacto.
Um sistema de compartilhamento permitiria, por exemplo, que uma ameaça identificada em uma determinada rede fosse comunicada rapidamente a outros provedores.
Isso poderia ajudar empresas a reforçar regras de firewall, bloquear indicadores associados ao ataque, revisar sistemas vulneráveis e aumentar o monitoramento antes que o incidente evolua.
A lógica é semelhante à adotada em mecanismos de inteligência de ameaças (threat intelligence), mas aplicada de maneira coordenada ao ecossistema de telecomunicações.
Projeto também envolve desafios de privacidade
Embora o compartilhamento de informações possa melhorar a proteção das redes, a criação de uma plataforma desse tipo exige cuidados.
Dados relacionados a incidentes podem conter informações técnicas sensíveis sobre a infraestrutura de uma empresa. Se forem divulgados de maneira inadequada, essas informações poderiam ser utilizadas pelos próprios criminosos para identificar vulnerabilidades.
Por isso, um eventual dashboard precisaria estabelecer regras claras sobre quais dados seriam compartilhados, quem poderia acessá-los e em que nível de detalhamento.
Também seria necessário diferenciar informações estratégicas, que precisam permanecer restritas, de indicadores técnicos que podem ser distribuídos para ajudar outras empresas a bloquear uma ameaça.
Anatel defende coordenação nacional
Edson Holanda também voltou a defender que a Anatel seja designada como entidade responsável pela coordenação das ações de cibersegurança no Brasil.
Entre os argumentos apresentados está a presença da agência em diferentes regiões do país e a experiência acumulada na regulamentação da segurança cibernética das telecomunicações.
A proposta, contudo, está inserida em uma discussão mais ampla sobre o futuro da governança nacional de cibersegurança.
A Anatel já possui competências específicas relacionadas à proteção das redes e dos serviços de telecomunicações, mas a definição de uma autoridade nacional mais ampla depende do debate legislativo em andamento.
PL de Cibersegurança ainda pode demorar
O conselheiro também comentou o Projeto de Lei 4.752/2025, que trata de aspectos relacionados ao marco legal de cibersegurança.
Segundo Holanda, a tramitação do projeto pode levar tempo. Por isso, ele defendeu que empresas e órgãos públicos avancem paralelamente com iniciativas voluntárias de segurança.
A avaliação é de que esperar exclusivamente pela aprovação de uma nova legislação poderia atrasar a adoção de medidas necessárias para aumentar a resiliência das organizações.
Nesse contexto, mecanismos de compartilhamento de informações podem ser implementados como parte de uma estratégia preventiva, mesmo antes de eventuais mudanças legais.
Segurança das telecomunicações afeta toda a economia
A importância do projeto vai além das operadoras.
As redes de telecomunicações sustentam serviços bancários, comércio eletrônico, sistemas públicos, hospitais, empresas, data centers e uma série de aplicações utilizadas diariamente.
Um ataque de grande escala contra provedores ou operadoras poderia provocar efeitos em cadeia.
Além disso, a expansão do 5G, da computação em nuvem e de dispositivos conectados aumenta a quantidade de sistemas que dependem de conectividade permanente.
A proteção dessas redes, portanto, tornou-se parte da segurança da própria infraestrutura digital do país.
Próximo passo será definir como o sistema funcionaria
Ainda não há indicação de quando o eventual dashboard seria lançado nem de quais empresas seriam obrigadas a fornecer informações.
A própria proposta depende da definição de uma estrutura de governança capaz de equilibrar colaboração e proteção de informações estratégicas.
A Anatel já possui mecanismos formais de segurança cibernética e metas relacionadas à proteção de infraestruturas críticas. Seu plano de gestão para 2025-2026, por exemplo, prevê ações para obter informações sobre medidas de proteção adotadas por prestadoras em estruturas como cabos submarinos e data centers.
Se avançar, o novo painel poderá representar uma evolução desse modelo, transformando informações isoladas de incidentes em uma visão mais ampla das ameaças que atingem o setor.
Um sistema de alerta pode mudar a resposta a ataques
O principal ganho potencial da iniciativa está na velocidade de disseminação das informações.
Em vez de uma ameaça ser descoberta individualmente por cada empresa, um incidente identificado em uma rede poderia gerar alertas para todo o ecossistema.
Para os grandes grupos, isso significaria uma camada adicional de inteligência. Para provedores menores, poderia representar acesso a informações que normalmente exigiriam equipes especializadas.
O desafio será transformar essa ideia em um sistema seguro, confiável e útil, sem criar novos riscos para as próprias empresas que participarem da iniciativa.
Se o projeto avançar, a Anatel poderá dar um passo importante na direção de uma defesa mais colaborativa das redes brasileiras, em que a informação sobre um ataque deixe de ficar isolada em uma única empresa e passe a contribuir para a proteção de todo o setor.



