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O que a Anthropic sabe sobre confiança que o Brasil ainda está aprendendo

Enquanto os EUA lançam um programa de IA gratuito para professores com governança construída desde o início, o Brasil ainda debate uma comissão. A diferença não está na tecnologia.

Após ter conduzido diversas rodadas de treinamentos com professores da rede municipal de Flores da Cunha nos últimos meses, percebi uma mudança sutil, mas reveladora, no tipo de pergunta que chega até mim.

Há um ano, a dúvida mais comum era sobre como usar a ferramenta. Hoje, a pergunta que mais se repete é outra: quem protege os dados dos meus alunos quando eu uso isso em sala de aula?

(Confesso que essa mudança me deixa mais satisfeito do que qualquer ganho de produtividade que a IA possa entregar.)

Essa pergunta, vinda de professores do interior do Rio Grande do Sul, ecoou de um jeito curioso quando vi a notícia que motivou este artigo. A Anthropic, empresa por trás do Claude, acaba de lançar um programa que oferece a educadores da educação básica nos Estados Unidos um ano inteiro de acesso gratuito a recursos premium de IA.

E o que há por trás dessa gratuidade importa mais do que ela mesma.

Divulgado na semana passada, o programa se chama Claude for Teachers. Uma vez verificados, os educadores podem acessar o programa gratuitamente, com inscrições abertas até 30 de junho de 2027 para um ano completo de acesso. Facebook

O pacote vai além do acesso a modelos de linguagem. Inclui também Claude Cowork e Claude Code, dando aos educadores acesso às tecnologias mais recentes da Anthropic. Some-se a isso skills pedagógicas desenvolvidas em parceria com a Learning Commons e conexão direta com currículos amplamente adotados nos Estados Unidos, como o OpenSciEd e o Illustrative Mathematics. Techmeme

(Fico pensando em quantas horas isso representaria, multiplicadas pelos mais de 200 professores que capacitei só em Flores da Cunha nos últimos meses.)

Mas o dado que mais me chamou atenção não foi a gratuidade. Foi o que vem por trás dela.

Os dados dos professores não são usados para treinar o modelo, e o serviço segue a lei americana de privacidade estudantil por meio de uma adenda de processamento de dados dedicada à educação básica. Uma estrutura de proteção construída antes de escalar o produto, não depois. AI Weekly

Governança desenhada dentro do produto. Não emendada depois de um vazamento, de uma denúncia ou de uma crise de confiança.

Fazendo esse contraste com o Brasil, o espelho fica desconfortável.

O Conselho Nacional de Educação só criou uma comissão especial para regulamentar o uso de inteligência artificial na educação brasileira em março deste ano, com diretrizes previstas apenas para o segundo semestre. Salesiano Sorocaba

Temos a LGPD. Temos também o ECA Digital, que junto com a LGPD estabelece princípios transversais obrigatórios para o uso de sistemas de IA nas escolas. Mas nenhum dos dois foi escrito pensando especificamente em IA generativa dentro da sala de aula, e isso deixa escolas, secretarias e professores individuais tomando decisões técnicas complexas sem uma referência estrutural clara. doaj

Não é uma comparação para dizer que os Estados Unidos acertaram tudo. É um espelho para perguntar: o que estamos fazendo enquanto esperamos a regulamentação chegar?

Voltando ao que vivo em campo, essa pergunta não é teórica.

Nas capacitações que conduzo, o entusiasmo dos professores é genuíno e cresce a cada turma. Mas as perguntas sobre proteção de dados dos alunos, critério de escolha de ferramentas e política institucional ainda são respondidas, na maioria das vezes, sessão por sessão, no improviso, sem uma diretriz municipal ou estadual por trás.

Isso não é falha dos professores. É a ausência de uma espinha dorsal de governança que ainda não existe no nosso país, no ritmo que a tecnologia exige.

E aqui está o argumento central deste texto: governança de dados não é entrave à adoção de IA. É o que sustenta a adoção de forma duradoura.

Municípios, escolas e empresas que construírem essa camada de proteção antes de serem obrigados por lei, sairão na frente em confiança, em adesão das famílias e em sustentabilidade do próprio programa. Quem esperar a regulamentação para agir, vai correr atrás do prejuízo quando ela finalmente chegar.

O Claude for Teachers não é, para o Brasil, um modelo pronto para copiar. É uma referência de sequência: primeiro a estrutura de proteção, depois a escala.

Seguindo com as capacitações nos próximos meses, essa é a reflexão que vou levar para a próxima turma de professores.

Será que estamos construindo a confiança necessária antes de multiplicar o acesso, ou estamos multiplicando o acesso na esperança de que a confiança apareça depois?

Seguimos!

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