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Pela primeira vez, o medo número um dos CEOs brasileiros não é a economia. É o hacker

Por Luciano Takeda

Por muito tempo, o medo número um de quem comanda uma grande empresa foi previsível: a economia. Inflação, câmbio, juros, essas eram as preocupações que tiravam o sono de um CEO. Em setembro de 2026, essa lista mudou de líder, e a nova preocupação não usa terno nem fala de bolsa de valores.

Segundo o CEO Outlook, estudo da consultoria EY-Parthenon com 50 CEOs de grandes empresas brasileiras de setores como indústria, energia, saúde, consumo e serviços financeiros, as ameaças cibernéticas e a privacidade de dados assumiram, pela primeira vez, o topo da lista de riscos de negócio para os próximos doze meses. Foram apontadas por 26% dos entrevistados, à frente de tensões geopolíticas, com 16%, incerteza regulatória, com 14%, rupturas na cadeia de suprimentos, com 12%, e até da volatilidade macroeconômica, com apenas 10%.

Pare nesse dado por um instante. Gente que decide sobre bilhões, que lida todos os dias com câmbio e cenário internacional, está mais preocupada com um clique errado do que com a próxima crise econômica. Se você acha que segurança digital é um assunto só de quem trabalha com tecnologia, esse número deveria bastar para mudar de ideia.

Por que o medo mudou de endereço

Esse tipo de virada não acontece por moda. Ela acontece porque o preço de ignorar o problema ficou visível demais para continuar sendo tratado como detalhe técnico.

Ataques de ransomware que paralisam operações inteiras, vazamentos que destroem reputações construídas em décadas e fraudes que atravessam cadeias de fornecedores transformaram a segurança digital numa variável de sobrevivência do negócio, não mais um item de manutenção de sistemas. Quando um incidente é capaz de interromper o faturamento, derrubar o valor de mercado de uma empresa e acionar responsabilidade legal da própria diretoria, a decisão sobre o que proteger deixa de caber só ao time de TI e sobe direto para o conselho.

Ou seja, o hacker deixou de ser um incômodo técnico e virou um problema de sobrevivência. E essa lógica, olhando de perto, vale exatamente do mesmo jeito para a sua vida pessoal. Trocando “faturamento da empresa” por “conta bancária” e “reputação corporativa” por “seu nome limpo”, a equação é idêntica.

O setor que já vive esse futuro

Se você quer ver como fica uma organização que trata segurança como prioridade real, e não como discurso, o setor financeiro brasileiro é o retrato mais nítido que existe hoje.

A Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026, feita pela Deloitte com 25 bancos que respondem por cerca de 85% dos ativos da indústria bancária nacional, projeta 50,4 bilhões de reais de investimento em tecnologia neste ano, um crescimento de 58% no orçamento em cinco anos. Dentro dessa cifra, a cibersegurança chegou a um patamar que nenhuma outra tecnologia atingiu: 100% das instituições a classificam como prioridade alta ou média, à frente até de nuvem e de inteligência artificial generativa, que ficaram em 84% cada uma.

Faz sentido o motivo. Os bancos brasileiros processaram 240,8 bilhões de transações em 2025, com 78% delas feitas pelo celular, sustentando um sistema de pagamentos instantâneos que não pode parar nunca. Nesse ambiente, segurança não compete com o negócio, ela é a própria condição para o negócio existir.

Mas o detalhe mais revelador do levantamento talvez seja um número menos comentado: mais de 220 mil profissionais do setor foram treinados em tecnologia e cibersegurança no último ano, o que representa praticamente metade de todo o quadro de bancários do país.

O setor mais maduro em defesa digital do Brasil não apostou só em comprar ferramenta. Apostou em preparar gente, porque sabe que a porta de entrada da maior parte dos incidentes continua sendo o clique de alguém desatento, não uma falha sofisticada de sistema.

Guarde essa frase. Ela é o fio que liga o mundo dos CEOs ao seu dia a dia.

Governança antes de ferramenta

A experiência do setor financeiro ensina algo que vale para qualquer escala, inclusive a de uma casa. A transição de “assunto técnico” para “prioridade real” passa menos por comprar mais soluções e mais por mudar como você decide.

Quando um risco é levado a sério, ele ganha três coisas: um responsável claro, uma forma de medir se está sendo controlado, e um espaço garantido na agenda, não as sobras do que sobrou depois de tudo o resto. Empresas maduras também partem de uma premissa desconfortável, mas realista: o incidente vai acontecer, é questão de tempo.

A diferença entre um problema absorvido rapidamente e um desastre raramente está na ferramenta de detecção. Está na velocidade e na ordem das decisões tomadas nas primeiras horas.

O que isso ensina para a sua vida, sem envolver bilhões

Você não administra uma empresa com 50 bilhões de orçamento, mas administra algo igualmente valioso: a sua própria vida digital. Pense nos mesmos princípios, na escala certa para você:

Tenha um “responsável” definido em casa. Alguém precisa ser a referência de segurança digital, quem confere se as contas têm verificação em duas etapas.

Treine, e treine de novo. O banco não treinou 220 mil pessoas uma única vez e considerou resolvido. Conversar sobre golpes uma vez por ano é insuficiente.

Reduza o excesso de acesso. Revise quem tem acesso às suas contas e quais apps antigos continuam conectados a tudo.

Tenha um plano para quando, não para se. Saiba de cor os passos: bloquear o banco, trocar senhas, avisar quem precisa saber.

Fique de olho na sua própria “cadeia de fornecedores”. Cada app conectado à sua conta principal é um elo a mais que pode falhar.

O que vem pela frente torna isso mais urgente, não menos

A mesma pesquisa da EY-Parthenon traz um dado que aumenta a pressão sobre esse tema: 72% dos CEOs brasileiros pretendem ampliar investimentos em inteligência artificial nos próximos meses, o que amplia a exposição a riscos de dados, governança e segurança.

Empresas e pessoas estão, ao mesmo tempo, digitalizando o que têm de mais valioso e ampliando a superfície que precisa ser defendida. Vale para a empresa deles, e vale para o seu celular.

O recado que fica

Durante décadas, cibersegurança foi tratada como assunto de nicho. O momento em que ela vira a preocupação número um de quem decide o destino de bilhões marca uma mudança estrutural, não passageira.

Se as pessoas mais poderosas do ambiente corporativo brasileiro estão redesenhando prioridades por causa disso, talvez seja hora de você fazer o mesmo na escala da sua casa. Não precisa de orçamento de banco. Precisa de hábito, de repetição e de um responsável que leve o assunto a sério antes que o incidente decida por você.

Fica a pergunta: se o risco que mais assusta quem manda bilhões é o mesmo que mora no seu celular, o que você está fazendo hoje que seria digno da atenção de um conselho?

Fonte: TI Inside, “Cibersegurança saiu da sala de TI e vira o risco número um” (10 de setembro de 2026), com dados do CEO Outlook (EY-Parthenon) e da Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026 (Deloitte).

Luciano Takeda

Especialista em Segurança da Informação com foco em conscientização e comportamento humano. Atuo traduzindo riscos cibernéticos em decisões simples do dia a dia, ajudando empresas a construírem uma cultura de segurança que realmente funciona

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