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Ultramaratona me ensinou uma coisa sobre golpes: ninguém erra descansado.

Por Luciano Takeda

Rota da Baleia, 2023. Oitenta quilômetros. Eu tinha um plano de hidratação montado com a minha nutricionista, revisado, testado nos treinos. Sabia o que beber, quanto e de quanto em quanto tempo. Não era dúvida, não era falta de informação. Estava tudo ali, decidido semanas antes, por uma versão minha bem mais lúcida.

No quilômetro 65, eu não segui.

Não foi rebeldia. Foi enjoo, cansaço e aquela névoa que baixa quando o corpo já gastou o que tinha. A cabeça começa a negociar. “Depois eu bebo.” “Agora não desce.” “Tá tudo bem, falta pouco.” Cada uma dessas frases parecia razoável no momento em que foi pensada. Nenhuma delas era.

O preço veio nos últimos quilômetros, como sempre vem. Não na hora do erro, mas bem depois, quando não dava mais para corrigir. E é aí que mora a lição que eu levei da prova para o meu trabalho com segurança digital.

Ninguém erra descansado

Passo boa parte dos meus dias explicando golpes para pessoas comuns. E existe uma reação que se repete, quase sempre com vergonha na voz: “mas como eu fui cair nisso? Eu sei que não pode clicar.”

Sabe mesmo. Essa é a parte que ninguém conta.

As pessoas que caem em golpes quase nunca são desinformadas. Elas conhecem a regra. Já viram o aviso do banco, já leram o post, já ouviram o alerta no jornal. O que acontece é outra coisa: a regra chega até elas num momento em que a cabeça não está funcionando bem. No fim de um dia longo. Na correria antes de sair. No meio de uma preocupação com outra coisa. No quilômetro 65 do dia delas.

Os números do setor apontam para o mesmo lugar. Segundo a Verizon (DBIR 2025), 60% das violações de dados envolvem o chamado elemento humano. E, quando se olha para incidentes causados por gente de dentro das empresas, cerca de 53% vêm de negligência, não de má intenção, de acordo com o relatório Ponemon/DTEX (2026). Traduzindo: o problema quase nunca é o vilão. É a distração.

Golpista bom sabe disso melhor do que ninguém. Ele não tenta vencer a sua inteligência, porque essa briga ele perde. Ele espera o seu cansaço. Por isso as mensagens fraudulentas chegam com urgência artificial, com “só hoje”, com “última chance”, com prazo correndo. A pressa não é um detalhe do golpe. A pressa é o golpe. Ela existe para te pegar antes que a sua versão lúcida entre em campo.

Conhecimento não é o mesmo que preparo

Aqui está a parte incômoda da minha história: eu tinha o plano. O conhecimento estava impecável. O que faltou foi ele resistir ao momento em que eu mais precisava dele.

E é exatamente por isso que campanhas de conscientização em segurança falham tanto. A maioria trata o assunto como um sprint. Um treinamento anual, uma palestra, um e-mail com dicas, um cartaz na parede. Informação entregue de uma vez, com a expectativa de que fique.

Só que ninguém corre 80 quilômetros porque leu sobre corrida. E ninguém fica seguro porque assistiu a um vídeo de trinta minutos em janeiro.

Conscientização não é evento. É treino. É repetição do gesto até ele virar automático, para que ele ainda funcione quando a cabeça já não está ajudando. Na ultramaratona, a gente treina justamente para o momento ruim, não para o momento bom. O objetivo não é ter energia infinita, é conseguir executar o básico quando a energia acabou.

Segurança digital é igual. A pergunta certa não é “você sabe que não deve clicar em link suspeito?”. Praticamente todo mundo sabe. A pergunta é: “você vai lembrar disso às onze da noite, cansado, quando chegar uma mensagem dizendo que sua conta será bloqueada em dez minutos?”

A decisão que salvou a minha prova

Se o quilômetro 65 foi o meu erro, teve uma decisão que segurou tudo em pé, e ela é bem menos heroica do que parece: eu desacelerei.

Em vários momentos daquela prova, corri mais devagar do que poderia. Não porque estivesse dando o meu melhor tempo, mas porque o objetivo nunca foi o tempo. Era concluir. Mantive o foco em terminar, e isso mudou cada decisão pelo caminho.

Essa é a mentalidade que mais falta quando o assunto é proteção digital. As pessoas querem a solução heroica, o aplicativo definitivo, a ferramenta que resolve tudo. E o que realmente protege é bem mais chato: manter o ritmo básico por muito tempo. Ativar a verificação em duas etapas e deixar ligada. Usar senhas diferentes e não voltar atrás. Conferir o nome de quem recebe o Pix, todas as vezes, inclusive nas duzentas vezes em que não tem golpe nenhum. Ninguém ganha medalha por isso. Mas é isso que faz você chegar inteiro no fim.

Como treinar para o seu quilômetro 65

Se o erro acontece quando você está cansado, a estratégia não pode depender de você estar atento. Ela precisa funcionar sozinha. Algumas formas de conseguir isso:

  • Decida antes, não na hora. Assim como o plano de hidratação foi montado com a cabeça fresca, defina agora a sua regra: nunca clico em link de mensagem, sempre abro o site ou o aplicativo por conta própria. Decisão tomada com calma resiste melhor à pressa.

  • Deixe a proteção ligada por padrão. Verificação em duas etapas, alertas de transação, bloqueio de tela. Ferramentas que trabalham mesmo quando você não está prestando atenção valem mais do que qualquer boa intenção.

  • Trate urgência como sinal de alerta, não de importância. Toda vez que uma mensagem tentar te apressar, use isso como gatilho para desconfiar. Urgência é o sintoma mais confiável de golpe.

  • Tenha um plano de socorro. Na prova, saber o que fazer quando algo dá errado importa tanto quanto o preparo. No digital vale o mesmo: saiba de cabeça como bloquear seu banco e trocar suas senhas rápido. Prejuízo pequeno é o que você percebe cedo.

  • Repita até virar automático. Falar de segurança uma vez por ano é como treinar uma vez por ano. Conversa curta e frequente, em casa e no trabalho, vale mais do que a palestra anual mais bonita do mundo.

Terminar é o que conta

Eu terminei a Rota da Baleia. Sofri no fim, paguei pelo erro do quilômetro 65, mas cruzei a linha. E saí de lá com uma convicção que carrego até hoje: o objetivo nunca é ser perfeito no percurso. É ser preparado o bastante para que os erros inevitáveis não te tirem da prova.

Segurança digital funciona exatamente assim. Você vai clicar em algo errado um dia. Vai reutilizar uma senha, vai se distrair, vai confiar em quem não devia. Isso não faz de você um descuidado, faz de você uma pessoa. O que decide o resultado é o que você construiu antes, e com que velocidade você reage depois.

Fica a pergunta que eu me faço em toda largada, e que serve muito bem para a vida digital: quando o cansaço chegar, e ele sempre chega, o que você deixou pronto para trabalhar por você?

Luciano Takeda

Especialista em Segurança da Informação com foco em conscientização e comportamento humano. Atuo traduzindo riscos cibernéticos em decisões simples do dia a dia, ajudando empresas a construírem uma cultura de segurança que realmente funciona

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