
Nem sempre um filme precisa ser unanimidade entre os críticos para cumprir um papel relevante. É o caso de Ladies First, comédia da Netflix dirigida por Thea Sharrock e estrelada por Sacha Baron Cohen, que recebeu avaliações majoritariamente negativas da imprensa especializada, mas conquistou parte do público ao provocar uma reflexão sobre desigualdade de gênero por meio da inversão de papéis entre homens e mulheres.
A trama acompanha Damien (Sacha Baron Cohen), um homem machista que, após sofrer um acidente, desperta em uma realidade alternativa onde as mulheres ocupam posições de poder e reproduzem os mesmos comportamentos machistas que, tradicionalmente, recaem sobre elas. Nesse novo mundo, ele passa a experimentar na própria pele situações de assédio, objetificação, interrupções constantes em reuniões, pressão estética e discriminação no ambiente profissional.
O elenco também reúne Rosamund Pike, que interpreta uma funcionária no mundo original e a chefe de Damien na realidade invertida, além de Fiona Shaw, que faz uma secretária em um universo e uma executiva autoritária no outro.
Humor como ferramenta de reflexão
Apesar do tom de comédia, Ladies First utiliza o humor para evidenciar práticas de sexismo frequentemente naturalizadas. Pequenos detalhes reforçam essa proposta, como a inversão de marcas voltadas ao público feminino — a Victoria’s Secret se transforma em “Victor’s Secret” — e situações cotidianas em que homens passam a enfrentar os mesmos julgamentos estéticos e profissionais normalmente impostos às mulheres.
Embora a narrativa apresente limitações, especialmente por retratar um universo predominantemente binário e heteronormativo, o longa consegue transformar experiências comuns de muitas mulheres em algo visível para um público amplo. É justamente essa simplicidade que faz com que a mensagem alcance espectadores que talvez nunca tenham refletido sobre o tema.
Crítica especializada dividida
A recepção da crítica foi bastante negativa. No agregador Rotten Tomatoes, o filme alcançou apenas 26% de aprovação entre os críticos especializados, recebendo o selo de “rotten”. Em contrapartida, a avaliação do público foi significativamente mais positiva, chegando a 64%.
Um dado curioso é que as principais críticas publicadas nos grandes jornais britânicos foram assinadas exclusivamente por homens, evidenciando outro debate recorrente: a baixa representatividade feminina na crítica cinematográfica.
A reação do público masculino
Entre as manifestações mais comentadas está o relato de um usuário no Reddit, que afirmou ter revisto sua percepção sobre o machismo após assistir ao filme.
Ele escreveu que sempre se considerou feminista e acreditava que homens e mulheres já eram tratados de maneira igualitária. No entanto, ao assistir à inversão de papéis apresentada em Ladies First, percebeu que muitas situações retratadas não pareciam exageradas justamente porque reproduziam experiências reais vividas diariamente por mulheres.
Segundo o autor da publicação, a discussão gerou reações negativas em fóruns masculinos, onde diversos usuários minimizam ou negaram a existência dos comportamentos retratados pelo filme.
Entre o exagero e a realidade
Diversos críticos argumentaram que a obra exagera ou simplifica questões complexas. Ainda assim, especialistas que atuam no combate à violência contra mulheres destacam que o desconforto provocado pelo filme decorre justamente da proximidade entre a ficção e situações reais.
Farah Benis, fundadora do Centre for Prevention of Violence Against Women and Girls, reconheceu que o filme apresenta problemas narrativos, mas alertou para o risco de desconsiderar experiências de assédio por parecerem “irreais”. Segundo ela, décadas de pesquisas, relatos e dados oficiais demonstram que o assédio sexual e as microagressões continuam sendo uma realidade cotidiana para inúmeras mulheres.
Ela também destaca um fenômeno recorrente: muitas mulheres relatam já ter sofrido algum tipo de abuso ou assédio, enquanto poucos homens afirmam conhecer alguém que pratique esse tipo de comportamento. Para Benis, essa contradição evidencia uma das principais barreiras enfrentadas pelas vítimas: a descrença e a minimização de seus relatos.
Um filme atual, apesar das críticas
Outro ponto levantado pela crítica é que Ladies First parece datado. A produção é baseada no filme francês Eu Não Sou um Homem Fácil, lançado em 2018, cuja proposta já havia sido considerada pouco inovadora na época.
Ainda assim, profissionais do ambiente corporativo afirmam que muitas das situações apresentadas permanecem extremamente atuais. Tanya Loeb, gerente de Recursos Humanos, destacou que as cenas envolvendo assédio no trabalho e pressão por padrões de beleza mostram como comportamentos discriminatórios acabam sendo naturalizados, especialmente quando direcionados às mulheres.
Vale a pena assistir?
Mesmo com falhas de roteiro e uma abordagem por vezes caricata, Ladies First consegue cumprir um objetivo importante: provocar empatia. Ao colocar um homem na posição de quem sofre discriminação cotidiana, o filme oferece ao público uma perspectiva diferente sobre práticas que muitas vezes passam despercebidas.
Sua força não está na sutileza, mas justamente na capacidade de transformar desigualdades reais em uma linguagem acessível para um grande público. Talvez por isso tenha dividido tanto a crítica e, ao mesmo tempo, encontrado receptividade entre muitos espectadores.
No fim, Ladies First pode não ser uma grande obra cinematográfica, mas certamente é um filme capaz de estimular conversas necessárias sobre machismo, preconceito e desigualdade de gênero — temas que, infelizmente, continuam bastante atuais.



