
Infraestruturas funcionando, ferramentas implantadas, contratos ativos e processos em ação, reforçam uma percepção de controle do ambiente. Com o tempo, essa percepção passa a ser encarada como certeza de que tudo está bem.
Estamos realmente protegidos ou operando sob uma ilusão de segurança?
Uma pergunta que raramente aparece nas reuniões e que deveria orientar decisões estratégicas.
Incidentes com dados e serviços que dependem da informação, seguem presentes mesmo em organizações que investem em segurança. Além dos impactos no âmbito financeiro, revelam-se dificuldades concretas de recuperação, com consequências prolongadas sobre a operação e a confiança de serviços críticos.
Na saúde, esse impacto assume outra dimensão. A interrupção de sistemas não se limita a uma indisponibilidade operacional. Isso afeta diretamente decisões clínicas, compromete todo contexto assistencial e amplia os riscos na condução do cuidado.
Ainda assim, muitas organizações operam numa lógica defensiva, tratando a segurança como um conjunto de controles isolados e desconectados da estratégia e da visão assistencial. Um padrão já observado em análises de maturidade cibernética no Brasil, que apontam estruturas formais de segurança com baixa ou nenhuma integração à tomada de decisão.
Esse desalinhamento reforça ainda mais a ilusão de segurança.
A ausência de clareza sobre o valor do dado aprofunda essa desconexão. A organização se apoia nos mecanismos que possui, mas nem sempre compreende o que precisa ser protegido, em que nível e com qual impacto. Decisões tratadas de forma homogênea não refletem o risco real. O resultado fica distorcido e não permite equilíbrio ou sustentação.
A expansão tecnológica intensifica esse cenário. Um exemplo básico que acelera esse problema é a adoção de novos modelos, como aplicações baseadas em inteligência artificial, que já apresentam impactos mensuráveis. O Relatório do Custo das Violações de Dados 2025, produzido pela IBM em parceria com o Ponemon Institute, apresenta que cerca de 31% das organizações que sofreram incidentes relacionados a esses modelos reportaram interrupções operacionais, acesso não autorizado a dados e perda de integridade das informações.
A evolução tecnológica avança mais rápido do que a capacidade de compreender e gerenciar risco. O ponto crítico não está na tecnologia, mas na velocidade de adoção dissociada da governança. É nesse ponto que a ilusão de segurança se estabelece.
A reflexão necessária não está nas ferramentas adotadas, mas no entendimento do impacto que uma falha impõe sobre a operação e o cuidado das pessoas. Quando o foco permanece centrado em sistemas ou controles técnicos, indica que a análise do problema está na camada errada. A segurança da informação deixa de ocupar um espaço periférico e passa a integrar o fluxo assistencial.
A segurança que acreditamos ter, apoia-se na pergunta do que conseguimos visualizar em nossas telas de dashboard. Uma grande e perigosa zona de conforto.
A resposta para segurança real que precisamos, está na compreensão de tudo aquilo que oferece impacto no cuidado da vida das pessoas. É por aí que se deve começar.



