A Nova Fronteira do Agro: Segurança da Informação no Campo
Por Allan Kovalscki

A agricultura sempre foi marcada pela capacidade de adaptação às transformações tecnológicas. Se no passado o avanço do setor esteve ligado à mecanização, à genética e à evolução dos insumos, hoje uma nova revolução começa a ganhar forma no campo: a revolução dos dados. Sensores monitoram o solo, drones acompanham o desenvolvimento das lavouras, máquinas operam conectadas por satélite e plataformas digitais analisam informações de produção em tempo real. A chamada agricultura digital, através das agtechs, vem transformando profundamente a forma como a atividade agrícola é planejada, monitorada e executada.
Na minha atuação profissional como Encarregado de Dados (DPO) do Sistema CNA/Senar/ICNA, tenho acompanhado com atenção esse movimento de digitalização do agronegócio. Trata-se de uma evolução extremamente positiva para o setor, com potencial para ampliar a eficiência produtiva, melhorar a gestão das propriedades e fortalecer a competitividade do agro brasileiro. Ao mesmo tempo, essa transformação tecnológica traz consigo uma nova dimensão de risco que ainda é pouco discutida: os riscos relacionados à segurança da informação e à proteção de dados no ambiente rural.
Esse cenário faz parte do que especialistas vêm chamando de Agricultura 4.0, um modelo baseado na integração de sensores, geolocalização, automação e análise de dados para apoiar decisões no campo. Essas tecnologias permitem acompanhar variáveis da produção com níveis de precisão antes inimagináveis, contribuindo para o aumento da produtividade e para o uso mais racional de recursos naturais.
Os ganhos dessa transformação são evidentes. A digitalização do campo permite um nível de precisão e monitoramento que antes era impossível. A gestão da propriedade rural passa a ser orientada por dados, algoritmos e plataformas tecnológicas capazes de integrar informações sobre clima, produtividade, insumos e logística. Essa evolução representa uma enorme oportunidade para o aumento da competitividade do agronegócio brasileiro e para o desenvolvimento de uma produção cada vez mais eficiente e sustentável.
No Brasil, esse movimento também vem sendo estimulado por iniciativas institucionais que buscam aproximar inovação tecnológica e atividade agrícola. Um exemplo é o HUB CNA, iniciativa vinculada ao Sistema CNA/Senar/ICNA, que atua como um ambiente de inovação aberta voltado ao agronegócio. O HUB conecta startups, empresas de tecnologia, pesquisadores e produtores rurais para desenvolver e testar soluções digitais capazes de enfrentar os desafios do setor, aproximando o campo do ecossistema de inovação tecnológica.
Esse tipo de iniciativa demonstra que o setor agropecuário brasileiro está atento às oportunidades trazidas pela transformação digital. Ao mesmo tempo, à medida que novas tecnologias passam a fazer parte da atividade rural, surge também uma dimensão de risco que ainda é pouco discutida: os riscos relacionados à segurança da informação e à proteção de dados no ambiente agrícola.
Sensores instalados nas lavouras, equipamentos conectados, sistemas de gestão agrícola e plataformas de análise de dados passam a coletar e processar informações cada vez mais detalhadas sobre a atividade produtiva. Dados sobre características do solo, produtividade das áreas plantadas, uso de insumos, planejamento de safra e desempenho das culturas passam a existir em formato digital e, muitas vezes, armazenados em plataformas tecnológicas externas às propriedades rurais.
Essas informações possuem valor econômico significativo. Em muitos casos, representam conhecimento estratégico sobre a operação agrícola e sobre o próprio mercado. Estudos recentes indicam que o crescimento das tecnologias digitais no campo amplia também os desafios relacionados à governança e à segurança dessas informações, especialmente em ambientes onde a maturidade digital ainda está em processo de desenvolvimento.
Um aspecto que merece atenção especial é o fator humano nesse processo de transformação. A adoção de tecnologias digitais no campo ocorre em um ambiente onde, muitas vezes, os usuários dessas ferramentas não tiveram formação prévia em tecnologia da informação ou segurança digital. Produtores rurais e profissionais do agro possuem profundo conhecimento técnico sobre cultivo, manejo e gestão agrícola, mas nem sempre estão familiarizados com os riscos associados ao uso de sistemas conectados, plataformas digitais e dispositivos IoT.
Isso não representa uma limitação do setor, mas evidencia a necessidade de ampliar a cultura de segurança digital no ambiente rural. Assim como o produtor aprende a lidar com novos insumos, equipamentos e técnicas de manejo, a digitalização do campo também passa a exigir novos conhecimentos relacionados à proteção de dados, à segurança de redes e à gestão de sistemas tecnológicos.
Outro ponto que ganha relevância nesse cenário é a governança dos dados gerados pela atividade agrícola. Muitas soluções tecnológicas utilizadas no campo são oferecidas por empresas especializadas em tecnologia agrícola, frequentemente no modelo de plataformas digitais ou serviços em nuvem. Esse modelo traz inúmeras vantagens operacionais, mas também levanta questões importantes sobre propriedade, controle e utilização das informações geradas nas propriedades rurais.
À medida que dados agrícolas passam a ter valor estratégico para decisões de mercado, planejamento logístico e desenvolvimento tecnológico, cresce também a importância de discutir quem controla essas informações, como elas são utilizadas e quais garantias existem para sua proteção. Em um setor cada vez mais orientado por dados, a governança dessas informações torna-se um elemento essencial para a sustentabilidade da própria transformação digital.
Esse debate também começa a ganhar uma dimensão mais ampla no cenário internacional. Em diversos países, pesquisadores e formuladores de políticas públicas já discutem a ideia de soberania de dados agrícolas, conceito que envolve o controle estratégico das informações geradas pela atividade produtiva no campo. Dados sobre produtividade, clima, uso de insumos e comportamento das lavouras podem revelar padrões econômicos relevantes para mercados globais de alimentos, o que torna a proteção e a governança dessas informações um tema cada vez mais relevante.
Os riscos digitais no setor agropecuário não são apenas hipotéticos. Em 2021, por exemplo, a empresa brasileira JBS, uma das maiores companhias de alimentos do mundo, sofreu um grande ataque de ransomware que interrompeu operações em diversos países e afetou cadeias de produção e distribuição de alimentos. O incidente demonstrou como empresas ligadas ao setor agroalimentar passaram a se tornar alvos relevantes para criminosos digitais, justamente pela importância estratégica da produção de alimentos e pela dependência crescente de sistemas tecnológicos nas operações.
Durante décadas, os principais riscos do agronegócio estiveram associados a fatores como clima, pragas, logística e volatilidade de mercado. Com a evolução tecnológica do setor, surge uma nova categoria de risco que começa a ganhar relevância: o risco digital. À medida que dados, conectividade e sistemas automatizados passam a ocupar um papel central na gestão da atividade agrícola, proteger essas informações e garantir a segurança dos sistemas passa a ser também parte essencial da estratégia do agronegócio moderno.
Nesse contexto, alguns cuidados simples podem fazer grande diferença. É importante que produtores e gestores rurais estejam atentos à escolha das plataformas tecnológicas utilizadas na propriedade, buscando fornecedores confiáveis e que demonstrem compromisso com a proteção de dados e a segurança das informações. Também é fundamental manter equipamentos e softwares atualizados, utilizar senhas fortes e evitar compartilhar acessos de sistemas de gestão agrícola sem controle adequado.
Outro ponto essencial é a proteção da infraestrutura digital da propriedade. Redes Wi-Fi utilizadas para conectar equipamentos, sensores ou computadores devem possuir configurações de segurança adequadas e, sempre que possível, é recomendável manter cópias de segurança dos dados mais importantes da propriedade, como registros de produção, planejamento de safra e informações de gestão. Esses cuidados ajudam a reduzir impactos caso ocorra algum problema tecnológico ou incidente digital.
Também é importante que produtores e equipes estejam atentos ao uso de aplicativos e plataformas digitais que solicitam acesso a dados da propriedade. Sempre que possível, é recomendável compreender quais informações estão sendo coletadas, onde serão armazenadas e como poderão ser utilizadas. Em um ambiente cada vez mais orientado por dados, compreender a governança dessas informações torna-se parte da própria gestão estratégica da atividade agrícola.
A digitalização do campo abre uma nova fronteira de oportunidades para o setor. Sensores, inteligência artificial, automação e análise de dados têm potencial para transformar profundamente a forma como produzimos alimentos e gerimos propriedades rurais. No entanto, essa nova agricultura também depende de algo que, até pouco tempo atrás, não fazia parte das preocupações do produtor rural: a segurança digital. E quanto mais conectado o campo se tornar, mais importante será garantir que essa transformação tecnológica venha acompanhada de segurança, governança e responsabilidade no uso dos dados.
Porque, no agro digital, proteger a informação também passa a ser uma forma de proteger a própria produção.



