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O perigo de gritar “lobo” toda hora

Por Luciane Couto

Existe uma lógica antiga que atravessa o tempo porque continua verdadeira: quando alguém avisa sobre o perigo o tempo todo, chega uma hora em que ninguém mais reage com a mesma atenção. A velha história do menino que gritava “lobo” é lembrada como uma lição sobre mentira. Mas ela também ajuda a explicar um problema muito atual nas empresas: o desgaste da atenção. Quando o alerta aparece em excesso, sem critério, ele perde força. E, no dia em que o risco é real, a resposta já está enfraquecida.

 

Em segurança da informação, acontece algo parecido. Quando tudo alerta, tudo parece crítico e toda mensagem pede ação imediata, o time vai perdendo sensibilidade. E o que deveria gerar resposta vira só mais um ruído na rotina. Na teoria isso parece zelo. Na prática, muitas vezes vira cansaço.

 

Toda empresa quer ser rápida, atenta e proativa. Só que, em algum momento, muita operação começa a viver cercada de notificações, dashboards, e-mails marcados como urgentes, mensagens com tom de crise e uma sensação constante de que tudo precisa ser visto agora. O efeito disso não é mais controle. É cansaço. E time cansado não reage melhor. Reage pior.

Quando tudo apita, ninguém escuta de verdade. O alerta deixa de ser sinal e vira parte da rotina.

O vermelho perde força. O urgente deixa de ser exceção. E, no dia em que aparece algo realmente importante, a chance de passar batido aumenta. Isso vale para ferramenta, processo e cultura.

 

Vale para o SOC que recebe volume demais e contexto de menos.

Vale para a liderança que chama tudo de prioridade.

Vale para o usuário que já recebeu tantos avisos genéricos que parou de ler.

Vale para a área de tecnologia que aprende a conviver com o “depois a gente vê” porque não existe energia para tratar tudo com a mesma atenção.

 

A questão nem sempre está na quantidade de alertas. Muitas vezes está na falta de critério. Um ambiente maduro não é o que mais apita. É o que melhor distingue o que merece resposta imediata, o que pode esperar e o que nem deveria estar gerando ruído. Essa é uma armadilha comum em segurança: confundir visibilidade com eficiência.

 

Ver muito não é o mesmo que responder bem. Acumular aviso não significa reduzir risco. Em alguns casos, significa exatamente o contrário. Quanto mais ruído sem tratamento, maior a chance de normalizar desvio. E a normalização do desvio é perigosa porque ela não chega com alarde. Ela chega devagar. Um alerta ignorado aqui. Uma exceção aceita ali. Um acesso fora do padrão mantido porque “não deu tempo”. Um incidente pequeno tratado como rotina. Quando a empresa percebe, o improviso já virou processo paralelo. A organização não fica mais segura. Fica mais acostumada com o desconforto.

 

Esse tema não é só técnico. É humano. O cérebro faz filtro para sobreviver ao excesso. Se tudo parece importante, ele passa a economizar atenção. É por isso que segurança não pode depender apenas de volume de aviso. Precisa de contexto, prioridade e decisão clara. Também por isso o básico continua sendo tão valioso. Nem sempre a resposta está em comprar mais uma ferramenta, ligar mais uma regra ou colocar mais um painel na parede. Muitas vezes, a resposta está no feijão com arroz bem temperadinho: ajustar o que gera ruído desnecessário, definir melhor os responsáveis, revisar severidades, reduzir alerta duplicado, comunicar com mais clareza e criar critérios reais de escalonamento. É menos glamouroso. Mas funciona melhor. Quando uma empresa cuida bem do básico, ela preserva a atenção do time para o que realmente importa. E atenção, hoje, virou ativo de segurança.

 

Se você quiser um teste simples para saber se o ambiente está entrando nessa fadiga, vale observar algumas perguntas.

Os alertas realmente levam a uma ação diferente ou só registram que algo aconteceu?

As pessoas sabem o que é crítico ou tudo chega com o mesmo peso?

Existe dono claro para tratar o que aparece?

Os usuários recebem orientação útil ou só mais um aviso genérico?

A liderança ajuda a priorizar ou aumenta o ruído chamando tudo de urgente?

 

Se a maioria dessas respostas estiver desfavorável, talvez o problema não seja falta de alerta. Talvez seja excesso de barulho. E barulho demais tem um custo silencioso: ele desgasta a capacidade de perceber o risco real. Segurança não pode viver em estado permanente de susto. Precisa saber diferenciar evento de incidente, urgência de ansiedade, visibilidade de ação.

 

A velha história continua válida. Se alguém grita “lobo” o tempo todo, a reação se perde.

No mundo corporativo, o lobo pode ser um alerta legítimo, um acesso indevido, um comportamento fora do padrão ou um incidente começando. Se tudo apita o tempo todo, o risco não é só o cansaço. É parar de escutar justamente quando mais precisa.

 

Resumindo:

Excesso de alerta sem critério desgasta a atenção e reduz a capacidade de resposta.

Fadiga de alerta não é só problema de ferramenta. É também problema de processo, cultura e priorização.

Segurança madura não é a que mais apita, mas a que melhor separa sinal de ruído.

O básico bem feito ainda é o melhor caminho: menos duplicidade, mais contexto, prioridade clara e dono definido.

 

 

E alerta demais também desgasta confiança.

E confiança desgastada vira desatenção, atraso e resposta fraca justamente quando o risco é real. Por isso, antes de pensar em mais avisos, mais notificações ou mais pressão, vale uma pergunta simples:

o que hoje, na sua rotina, está ajudando a enxergar o risco, e o que só está aumentando o barulho?

 

Luciane Couto

Coordenadora de Segurança da Informação e DPO, atua na construção de ambientes digitais mais seguros, éticos e em conformidade com a LGPD. Com experiência em governança de TI, infraestrutura e cibersegurança, acredita que segurança não é só tecnologia, mas também comportamento, cultura e responsabilidade compartilhada. Escreve para traduzir temas técnicos em reflexões práticas, conectando risco, pessoas e decisões do dia a dia.

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