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Feijão com arroz bem temperadinho contra o barulho da internet

Por Luciane Couto

A guerra acontece longe, mas o barulho chega aqui. Nem sempre como apagão ou ataque cinematográfico. Às vezes chega como aumento de tentativas de invasão, mais golpes temáticos no e-mail, mais derrubadas de serviço, mais “oportunistas” surfando no assunto do momento.

Nos últimos dias, apareceram alertas de monitoramento indicando pico de atividade hacker, com Israel como um dos principais alvos e um salto grande no volume diário de tentativas de ataque. Esses números variam conforme a fonte e a forma de medir, mas o sinal é conhecido por quem acompanha incidentes: quando o mundo físico entra em tensão, o mundo digital vira parte do cenário.

E aí vale separar duas coisas.

A primeira é o impacto direto. Não dá para dizer que o Brasil, como alvo, está vivendo o mesmo nível de pressão que países envolvidos no conflito. A maioria das empresas brasileiras vai continuar operando “normal”.

A segunda é o impacto indireto. Esse, sim, costuma aparecer. Grupos que não têm nada a ver com geopolítica aproveitam o ruído para aplicar golpe. A cadeia de fornecedores fica mais exposta. Provedores e serviços digitais entram em modo de atenção. E, quando existe mais ataque acontecendo no mundo, existe mais tráfego malicioso circulando. Mais tentativa de credencial vazada. Mais força bruta. Mais e-mail bem escrito tentando te fazer clicar.

Em outras palavras, talvez a sua empresa não esteja no alvo principal. Mas você continua vivendo na mesma internet.

Nessas horas, o que aumenta risco não é só tecnologia. É comportamento e processo. É a pressa de resolver. É o atalho. É o “libera esse acesso rapidinho”. É o “vamos usar essa ferramenta sem passar pelo fluxo”. É o “depois eu vejo esse alerta”. Só que o “depois” vira incidente com uma facilidade absurda.

Por isso, em vez de tentar prever exatamente quem vai atacar quem, a pergunta mais útil para uma empresa aqui no Brasil é outra: se o ambiente ficar mais barulhento por algumas semanas, eu aguento sem cair no improviso?

A resposta costuma estar no básico. No feijão com arroz bem temperadinho.

Não é glamour. Não vira post bonito. Mas é o que segura a operação quando a maré sobe.

O básico bem feito é o que evita que um golpe simples vire acesso indevido. É o que limita o estrago quando alguém clica onde não devia. É o que dá para recuperar quando um serviço cai. É o que reduz a chance de uma falha virar manchete.

E o básico, quase sempre, cabe em poucos itens.

Autenticação forte, principalmente em e-mail e sistemas críticos. Se ainda existir conta sem MFA em acesso importante, isso é prioridade. E aqui não importa a guerra, importa o mundo real: o e-mail é a porta de entrada de quase tudo.

Gestão de acessos com o mínimo de disciplina. Acesso por função, revisão periódica, remoção rápida quando alguém sai, e privilégio administrativo bem controlado. A história do “só por enquanto” precisa ter prazo de verdade.

Backup que volta. Backup não é ter cópia. É conseguir restaurar. Teste uma amostra, com tempo cronometrado, e descubra hoje o que você não quer descobrir no dia do ataque.

Atualização e correção do que é crítico. Não dá para estar 100 por cento em dia, mas dá para ser racional: o que está exposto, o que tem dado sensível, o que sustenta operação, isso não pode ficar no “depois”.

Monitoramento e resposta com dono. Alerta sem responsável vira ruído. Ruído vira normalização. Normalização vira incidente. Defina quem olha, quando olha e o que faz quando aparece algo fora do padrão.

E, talvez o item mais subestimado, comunicação interna clara. Em momentos de ruído externo, cresce o golpe com tema do dia. Uma mensagem curta para o time, dizendo “se chegar pedido urgente por e-mail ou WhatsApp, confirme por outro canal”, já evita muita dor de cabeça. Sem terror, só orientando o hábito.

Se você quiser um checklist rápido para a semana, aqui vai um que funciona para empresas de qualquer tamanho.

1. Confirme se MFA está ativo no e-mail e nos sistemas mais críticos.
2. Revise quem tem acesso administrativo e se isso é mesmo necessário.
3. Garanta que desligamentos removem acessos no mesmo dia.
4. Teste um restore de backup em amostra.
5. Alinhe um canal oficial para confirmar pedidos urgentes e suspeitos.
6. Reforce a regra de dupla checagem para pagamento e troca de dados bancários.

Repare que não tem nada “de guerra” aqui. E esse é o ponto.

Conflitos mudam o volume e o contexto. O que reduz risco continua sendo o básico bem feito. O feijão com arroz pode não ser sofisticado, mas é o que alimenta. E, no final do dia, segurança madura é isso. Menos improviso. Mais consistência. Menos esperança. Mais preparo.

 

Luciane Couto

Coordenadora de Segurança da Informação e DPO, atua na construção de ambientes digitais mais seguros, éticos e em conformidade com a LGPD. Com experiência em governança de TI, infraestrutura e cibersegurança, acredita que segurança não é só tecnologia, mas também comportamento, cultura e responsabilidade compartilhada. Escreve para traduzir temas técnicos em reflexões práticas, conectando risco, pessoas e decisões do dia a dia.

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