Do papel à inteligência operacional: repensando a engenharia até o Facility Management
Por Marcus Granadeiro

Durante décadas, proprietários e gestores de edifícios conviveram com a desconexão entre a engenharia de construção e a gestão de facilidades. Essa ruptura histórica resultou em bases documentais extremamente heterogêneas, nas quais plantas em papel, PDFs digitalizados, arquivos contendo desenhos vetoriais bi e tridimensionais e modelos BIM (Building Information Modelling) de qualidade variável coexistem em um mesmo portfólio, dificultando a operação, a manutenção e a tomada de decisão estratégica.
De fato, nos últimos 20 anos, a metodologia BIM se consolidou como padrão em novos projetos, mas sua adoção efetiva em processos de Facility Management (FM) e Operation Maintenance (O&M) ainda enfrentam barreiras relevantes.
Um levantamento do governo com unidades administrativas que atuam na contratação e fiscalização de obras, assim como na operação e manutenção de ativos, da esfera federal às municipais, indo das administrações públicas diretas e indiretas às fundações públicas e autarquias de ensino, indica que o uso específico do BIM para atividades de O&M não passa de 3% num universo de 346 respondentes.
Considerando que a Estratégia BIM BR é o grande motivador do BIM no Brasil por ser uma política pública estruturante, este dado alerta para uma condição que pode reverter esse cenário: se o uso do BIM para manutenção é evitado porque parte do portfólio não está modelado, é possível partir da documentação que já se possui e integrá-lo aos processos diários, construindo conjuntos de dados passo a passo.
O mesmo acontece no setor privado, quando proprietários herdam modelos que não conseguem utilizar no dia a dia, seja pela baixa qualidade dos dados, seja pela falta de integração com processos e sistemas de operação.
O contraste com a ampla utilização do BIM nas fases de projeto e construção evidencia que o problema não é apenas técnico, mas sistêmico e estrutural dentro das organizações, acarretando na perda de valor dos modelos, que se tornam obsoletos e abandonados.
Por conta dos riscos e dos custos que a desinformação acarreta, é imprescindível mudar essa cultura. Mas, primeiro, temos que entender que a verdadeira transformação da engenharia na fase de operação não é apenas tecnológica, é estratégica. Trata-se de deixar de tratar a informação como um artefato estático da obra e passar a enxergá-la como um ativo vivo, capaz de acompanhar o edifício ao longo de todo o seu ciclo de vida.
Nesse contexto, um dos erros mais comuns é tentar digitalizar tudo de uma vez e a experiência mostra que a abordagem mais eficiente é a digitalização gradual. Em vez de paralisar a gestão à espera de um modelo tridimensional completo de edifícios construídos há décadas, a engenharia deve começar a organizar a documentação existente, garantindo que ela seja acessível, pesquisável e utilizável por qualquer profissional envolvido na operação. Para sustentar esse processo é fundamental adotar uma estrutura de gestão da informação que vá além de arquivos isolados, é aqui que entra o conceito de Common Data Environment (CDE).
De acordo com normas internacionais, um CDE é a fonte única de informações de um projeto ou ativo, responsável por coletar, gerenciar e disseminar dados de forma organizada e sob controle de versões. Essa estrutura viabiliza a colaboração entre equipes multidisciplinares e garante que todos trabalhem a partir da mesma “verdade” sobre o edifício.
A partir dessa base, se torna possível criar uma estrutura digital simplificada, um verdadeiro “esqueleto” do edifício, com a identificação clara dos ambientes e de seus principais elementos. Mesmo nesse estágio inicial, os ganhos são significativos, especialmente na gestão de espaços, no planejamento operacional e na administração de contratos.
Com a estrutura estabelecida, cada reforma, manutenção ou vistoria técnica passa a ser uma oportunidade de atualização da informação, possibilitando que a obra física e o ambiente digital evoluam de forma sincronizada. Isso exige uma estrutura de dados padronizada, na qual ambientes, sistemas e componentes possuam identidades únicas, permitindo que diferentes áreas da organização falem a mesma linguagem.
Os benefícios dessa mudança vão muito além da conveniência operacional. Essa metodologia se traduz em uso mais eficiente das áreas, redução de erros e retrabalhos, maior confiabilidade das informações em campo e uma base sólida para decisões mais inteligentes ao longo do tempo. Além disso, cria as condições para uma gestão mais sustentável, com potencial de integração a sensores, monitoramento energético e análise contínua de desempenho dos ativos.
A transição do papel para uma gestão digital integrada não acontece da noite para o dia. Quando conduzida de forma pragmática, centrada em processos e nas pessoas que operam os edifícios, a engenharia cumpre seu verdadeiro papel, não apenas de construir, mas de garantir que os ativos operem com eficiência, segurança e inteligência ao longo de toda a sua vida útil. A tecnologia é o meio. A estratégia é o que define o sucesso.



