O Irã enfrenta um dos maiores apagões de internet de sua história recente, afetando uma população de mais de 90 milhões de habitantes, em meio à escalada das tensões com os Estados Unidos e Israel.
De acordo com dados divulgados pela organização independente NetBlocks, o país já ultrapassou 48 horas com conectividade reduzida a cerca de 1% dos níveis habituais. As informações foram publicadas às 2h35 (horário do leste dos EUA), indicando um bloqueio quase completo do acesso à rede.
A entidade afirmou que a interrupção foi resultado de um desligamento nacional da internet “imposto pelo regime”, embora o governo iraniano não tenha se pronunciado oficialmente sobre o caso.
Segundo a NetBlocks, esse tipo de medida não é inédita. Em janeiro, um bloqueio semelhante se estendeu por várias semanas, coincidindo com protestos de grande escala. A organização destacou que restrições digitais já foram utilizadas anteriormente durante períodos de instabilidade política e social no país.
O analista de tráfego digital Doug Madory afirmou na rede social X que os pequenos sinais de atividade online registrados podem estar ligados a um novo sistema de “lista branca” implementado pelo governo iraniano, que permitiria acesso limitado apenas a grupos considerados leais ao regime.
Ataques cibernéticos intensificam disputa entre Irã, EUA e Israel
Paralelamente ao bloqueio interno, surgiram relatos de que atores ligados aos Estados Unidos e a Israel teriam promovido ataques virtuais contra infraestruturas digitais iranianas, além de ações militares convencionais.
Segundo reportagem da Reuters, diversos sites de notícias alinhados ao governo iraniano teriam sido alvo de invasões e ciberataques. Um dos casos mais emblemáticos envolve o aplicativo religioso BadeSaba Calendar, que possui mais de 5 milhões de downloads. A plataforma teria sido comprometida e passou a exibir mensagens conclamando integrantes das forças armadas a “abandonarem as armas e se juntarem ao povo”, além da frase “É hora de acertar contas”.
O Comando Cibernético dos EUA não respondeu aos pedidos de esclarecimento sobre as alegações. Já os responsáveis pelo aplicativo não foram localizados para comentar o ocorrido.
Em janeiro, a televisão estatal iraniana também sofreu um ataque hacker que transmitiu, por alguns instantes, discursos do então presidente dos EUA, Donald Trump, e do filho exilado do último xá do Irã, incentivando a população a se rebelar.
Risco de retaliação digital aumenta no Oriente Médio
Especialistas alertam que, diante da troca de ataques militares e do uso de drones contra alvos americanos e aliados na região, grupos alinhados a Teerã podem intensificar ofensivas no ambiente virtual.
Em declaração à CNBC, Adam Meyers, chefe de Operações de Contra-Adversários da CrowdStrike, afirmou que já foram identificadas movimentações compatíveis com atores de ameaça ligados ao Irã e grupos hacktivistas conduzindo reconhecimento e iniciando investidas digitais.
Segundo ele, esse tipo de atividade costuma anteceder operações de maior escala. Em confrontos anteriores, agentes cibernéticos iranianos alinharam suas ações a objetivos estratégicos mais amplos, ampliando a pressão sobre setores considerados sensíveis, como energia, infraestrutura crítica, finanças, telecomunicações e saúde.
O cenário reforça que o conflito ultrapassa o campo militar tradicional e se consolida também como uma guerra digital, com impactos diretos na população e na estabilidade regional.



