ColunistasNews
Tendência

Quando a inteligência artificial começa a comprar por você

Por Iana Furst

O impacto do agentic commerce no varejo brasileiro

O varejo digital brasileiro já vem sendo transformado pela inteligência artificial, mas agora uma mudança ainda mais profunda começa a ganhar forma: sistemas que não apenas recomendam produtos, mas que agem em nome do consumidor.

É o que especialistas chamam de agentic commerce, o comércio mediado por agentes inteligentes .

Estamos falando de tecnologias capazes de pesquisar, comparar preços, analisar avaliações, entender padrões de comportamento e até concluir compras automaticamente, com base em preferências previamente registradas. A decisão deixa de ser totalmente humana e passa a ser parcialmente delegada a um sistema.

O que já está acontecendo no Brasil:
O movimento já começa a se manifestar no mercado brasileiro.
O Magazine Luiza evoluiu sua assistente virtual, a Lu, integrando experiências conversacionais que orientam e conduzem compras dentro do próprio ambiente digital. O Mercado Livre utiliza IA intensivamente para personalização e priorização de ofertas. A Natura investe em dados e recomendação inteligente para aprimorar a jornada do consumidor. A Renner aplica algoritmos para prever comportamento de compra e ajustar estoque e sortimento.
Ainda não estamos em um cenário totalmente autônomo, mas a base já está construída.
Os agentes começam recomendando. Depois passam a decidir. Em seguida, passam a executar.
A jornada de compra deixa de ser apenas uma sequência de cliques humanos e passa a ser um fluxo orientado por inteligência de dados.

O que muda para o marketing e o varejo:
Quando um sistema passa a influenciar ou executar a decisão de compra, o marketing deixa de disputar apenas atenção e passa a disputar relevância algorítmica.
É aí que cada vez mais passa a importar qualidade e organização de dados, reputação digital, avaliações consistentes, integração de estoque e logística, clareza de proposta de valor e a performance mensurável.
A criatividade continua sendo fundamental, mas ela já não opera sozinha. Ela precisa dialogar com estrutura, tecnologia e inteligência operacional.
A marca não fala mais apenas com pessoas. Ela passa a ser analisada por sistemas.

O risco invisível:
Existe, porém, uma camada mais profunda nessa transformação.
Quando delegamos decisões à inteligência artificial, transferimos também parte da nossa autonomia de escolha. A IA tende a operar com base em critérios objetivos como preço, prazo, avaliações, frequência de compra e histórico de comportamento.
Isso pode gerar eficiência. Mas também pode gerar padronização.
Se todos os agentes utilizarem critérios semelhantes, o mercado corre o risco de se tornar cada vez mais homogêneo. As marcas passam a competir prioritariamente por métricas técnicas. A diferenciação emocional pode perder espaço. A inovação pode ser reduzida a desempenho estatístico.
O risco invisível não é apenas tecnológico. É estratégico.
Empresas que constroem marca apenas para agradar algoritmos podem enfraquecer identidade, cultura e propósito. Ao mesmo tempo, empresas que ignoram a lógica dos sistemas inteligentes podem simplesmente deixar de ser recomendadas.
Há ainda uma questão mais delicada. Quando a decisão passa a ser mediada por IA, quem controla os critérios de escolha controla, em parte, o mercado. Plataformas, big techs e sistemas proprietários passam a ter influência direta sobre quais produtos ganham visibilidade e quais ficam invisíveis.
Nesse cenário, o poder deixa de estar apenas na relação marca-consumidor e passa a incluir uma terceira força: o intermediador algorítmico.
A pergunta deixa de ser apenas como vender mais.
Passa a ser como manter relevância, identidade e autonomia em um ambiente onde decisões são filtradas por sistemas.

O que isso exige das lideranças:
Empreendedores e líderes de marketing precisam compreender que essa transformação não é opcional.
Ignorar agentes inteligentes significa correr o risco de perder competitividade silenciosamente. Adaptar-se de forma acrítica significa correr o risco de diluir identidade.
O desafio é equilibrar eficiência operacional com construção de marca.
Dados com propósito.
Automação com posicionamento claro.

A inteligência artificial pode otimizar decisões.
Mas a estratégia ainda precisa ser humana.
Se, em breve, a IA começar a decidir por seus clientes, sua marca será apenas mais uma opção eficiente ou será uma escolha relevante?

Essa é a conversa que o varejo brasileiro precisa começar agora.
Mas nós estamos preparados para isso?

Iana Furst

CEO do Noroeste Summit, um dos maiores eventos de inovação do interior do RS, que conecta empresas, lideranças e comunidades para gerar negócios, conhecimento e impacto real. Também a frente da Viu Comunicação, agência especializada em humanização de marcas e desenvolvedora do Stories Que Vendem e do método Agência Lucrativa. Cofundadora e host do Podcast Concha Acústica. Ao longo da minha trajetória, já impactamos milhares de pessoas por meio de eventos, projetos e campanhas que unem criatividade e estratégia para transformar marcas e territórios. Acredito no poder da comunicação humanizada, que aproxima pessoas e gera resultados concretos. Seja em um palco, liderando uma equipe ou criando uma campanha, o foco é o mesmo: potencializar ideias para transformar negócios e regiões inteiras.

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo