Da caverna ao algoritmo, a arte acompanha a evolução dos meios.
Por Maurício Marques

O ser humano sempre buscou expressar, simbolizar, comunicar e criar. Durante milênios, essa expressão foi manual e material. Somente na década de 1960 a informática começou a integrar o processo artístico visual, inaugurando uma nova etapa na produção estética.
Toda transformação tecnológica provoca ruído: desconforto, resistência, adaptação. Foi assim com a fotografia, com o cinema e com o design digital. Com a inteligência artificial não seria diferente. Como designer e ilustrador, escuto com frequência a provocação: “E agora? Qualquer um faz.” A resposta exige precisão. Sim e não.
Arte pressupõe intenção. É visão de mundo convertida em forma. É subjetividade estruturada em linguagem visual, sonora ou textual. A inteligência artificial, por sua natureza, não possui consciência nem vontade. Opera por processamento estatístico, análise de padrões e organização de dados. Mesmo com avanços como a computação quântica, continuamos falando de sistemas treinados a partir de bases informacionais. Processo e banco de dados.
A máquina não experiencia o mundo. Ela reorganiza informações previamente assimiladas. Para gerar uma imagem, depende de treinamento anterior. Não há impulso criador autônomo, há recombinação sofisticada. Criação envolve intenção; replicação envolve referência.
É nesse ponto que a arte se torna crucial para a inteligência artificial. Sem o repertório humano, não haveria conteúdo para treinar modelos, nem contextos para interpretar nuances. A IA depende da arte como fonte, inspiração e estrutura, transformando obras humanas em matéria-prima para novas formas de expressão. Em outras palavras, a criatividade humana alimenta e orienta o potencial da máquina. A arte não é apenas resultado; é insumo, é ponte entre tecnologia e sentido.
E onde ficam os artistas? No mesmo lugar histórico de sempre: na adaptação. Desde que deixamos a arte rupestre para dominar pigmentos, perspectiva, fotografia e softwares, a lógica permanece. A tecnologia redefine ferramentas, não substitui visão.
A singularidade continua sendo humana. Repertório cultural, vivência, erro, imperfeição e risco não são totalmente parametrizáveis. São elementos constitutivos da autoria. Quando Michelangelo pintou o teto da Capela Sistina, incluindo A Criação de Adão e, anos depois, o Juízo Final, dedicou quase uma década de trabalho intenso, com poucos assistentes. O tempo, o esforço e o estudo fazem parte da obra. O processo integra o significado.
No filme O Homem Bicentenário, Andrew Martin, interpretado por Robin Williams, deseja tornar-se mais humano. Ao modelar sua pele sintética, Rupert Burns, vivido por Oliver Platt, revela que o realismo nasce dos defeitos. A perfeição convincente depende de imperfeições sutis.
A arte opera nesse território. Não é apenas imagem. É intenção, contexto, trajetória e gesto irrepetível. E é também o elo que permite à inteligência artificial gerar novas expressões sem perder contato com a sensibilidade humana. Sem a arte, a IA é cálculo; com a arte, ela participa de uma cultura viva.
O futuro não é ameaça, é ambiente. A inteligência artificial já integra a cultura visual contemporânea. Negá-la é improdutivo. Submeter-se integralmente a ela também. O desafio não é escolher entre humano e máquina. É compreender a hierarquia: tecnologia é instrumento, consciência é autoria, e a arte é a essência que conecta ambos.
Arte não é apenas resultado. É origem. E é a força que orienta até mesmo a inteligência artificial.



