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Quando a IA esquece e você também!

O duplo apagão que ninguém está discutindo. Por Ricardo Brasil

Há uma ironia perturbadora no centro da revolução da inteligência artificial: a mesma tecnologia que promete turbinar nossa produtividade pode, silenciosamente, estar apagando nossa capacidade de pensar. E o pior? Ela esquece por design. Nós esquecemos por comodidade.

Um estudo recente conduzido por pesquisadores da Microsoft Research em parceria com a Universidade de Cornell jogou luz sobre algo que muitos usuários de chatbots já sentiram na pele, mas não sabiam nomear. Analisando mais de 200 mil diálogos com modelos como GPT-4.1, Gemini 2.5 Pro e Claude 3.7 Sonnet, os pesquisadores constataram que a precisão dessas ferramentas despenca conforme a conversa se alonga. Em perguntas isoladas, acertos chegam a 90%. Em interações encadeadas, esse número cai para 65%, uma perda média de 39%, gerada pelo acúmulo de pressupostos errados lá atrás e por respostas cada vez mais verbosas que disfarçam a confusão com volume. Curiosamente, modelos menores se saíram melhor justamente por serem mais literais, sem a tendência de inventar coerência onde não há.

Mas esse é apenas um lado da moeda.

Enquanto a máquina perde o fio da meada por limitações técnicas de memória, pesquisas paralelas do MIT revelam que nós estamos perdendo o fio da meada por algo bem diferente: preguiça cognitiva. O termo técnico é “dívida cognitiva”, e ele descreve o que acontece quando usamos ferramentas como o ChatGPT de forma passiva, sem questionar, sem verificar, sem refletir. O engajamento cerebral cai. A atividade neural em áreas ligadas ao pensamento crítico reduz em até 47%. A memória sofre. O cérebro, como qualquer músculo não exercitado, começa a atrofiar.

Uma pesquisa de Gerlich, publicada em 2025, encontrou uma correlação negativa de -0,68 entre uso frequente de IA e habilidades de pensamento crítico. Não é uma coincidência estatística. É um sinal de alerta. E os jovens, acostumados desde cedo ao chamado “offloading cognitivo”, que consiste em delegar ao algoritmo o que antes exigiria esforço mental, são os mais vulneráveis a esse efeito.

O paralelo entre os dois fenômenos é desconcertante. O chatbot remenda seus próprios erros iniciais ao longo da conversa, acumulando distorções. O usuário passivo, confiando cegamente no que a IA entrega, acumula vieses sem nunca questioná-los. Ambos degradam com o uso extenso e acrítico. Tecnologia e humano, cada um à sua maneira, entram em colapso lento.

Então o que fazer com tudo isso? 

A resposta não é jogar fora a ferramenta, mas mudar a postura diante dela. Use a IA como um sparring intelectual, não como uma muleta. Divida seus prompts em partes menores e mais precisas para evitar o acúmulo de erros do modelo. Questione as respostas que receber. Escreva um rascunho antes de pedir ajuda. Tente lembrar antes de consultar. Exercite o cérebro offline com a mesma regularidade com que abre o ChatGPT.

A tecnologia avança em ritmo impressionante, mas se não cultivarmos o hábito da crítica e do esforço cognitivo, corremos o risco de nos tornar extensões dela, e não o contrário. A IA esquece por design. Nós não podemos ter essa desculpa.

Até o próximo Café com Bytes! Com a cabeça bem acordada. =)

Ricardo Brasil

Executivo de IA e Transformação Digital | Colunista Café com Bytes Com mais de 20 anos liderando inovação e transformação em larga escala nos EUA e América Latina, trago para o Café com Bytes uma perspectiva estratégica sobre o futuro da IA corporativa. Minha jornada começou em cibersegurança, onde construí expertise em gestão de riscos e governança de TI, alicerces que hoje orientam minha atuação em IA Responsável e Agentic AI. Foi na Microsoft que adquiri minha experiência mais significativa em IA, desenvolvendo frameworks de governança e estratégias empresariais que garantem que a IA seja implantada com impacto, ética e escala. Sou autor do livro “5 Passos para a IA Responsável”, onde sistematizo essa abordagem prática para implementação ética de IA nas organizações. Já liderei equipes globais de 500+ profissionais e conduzi integrações pós-M&A e programas de excelência operacional. Combino visão estratégica com execução disciplinada, sempre traduzindo tecnologias emergentes em resultados de negócio mensuráveis. Aqui no Café com Bytes, compartilho insights práticos sobre IA corporativa, governança tecnológica, cibersegurança e liderança em transformação digital para executivos que precisam navegar a revolução da IA com confiança, segurança e clareza estratégica.

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