Decisão, não pedido: o papel da governança de TI no dia a dia
Por Luciane Couto

Quando tudo vira “pedido urgente”, a TI trabalha no modo bombeiro. E, no fim do dia, fica aquela sensação de muito esforço e pouca direção.
Nessa hora, um assunto que costuma parecer distante vira bem prático: governança de TI.
Governança, no dia a dia, é organizar como as decisões de tecnologia acontecem. Quem prioriza. Quem aprova. Quem assume o risco. Quem sustenta depois. Quando isso não está claro, aparecem padrões conhecidos: ferramenta nova que não integra, acesso liberado “só por enquanto” que vira permanente, exceções repetidas, custo recorrente que ninguém enxergava.
Toda empresa decide tecnologia o tempo todo, mesmo sem perceber. Escolhe ferramenta. Define como compartilha dados. Permite acesso para fornecedor. Automatiza um processo. Mantém sistema antigo “porque sempre foi assim”. O problema raramente é decidir. O problema é decidir sem critério e sem dono. A consequência vem depois, em forma de retrabalho, incidente, auditoria mal resolvida, ou dependência de improviso.
Se você quer um começo simples, pense em uma rotina curta, semanal, de 30 a 45 minutos, com as pessoas certas. Sem cerimônia. A pauta cabe em poucos itens, só os que têm impacto real para a operação e para o risco. Prioridades da semana. Mudanças relevantes. Fornecedores novos. Acessos fora do padrão. Custos que vão continuar existindo. Responsáveis definidos, principalmente do lado do negócio, porque tecnologia muda processo, dado e rotina de trabalho.
Três perguntas já organizam quase tudo antes de aprovar qualquer iniciativa.
A primeira é: qual problema concreto isso resolve. Se a resposta não vier clara, normalmente é ansiedade, moda ou vontade de “testar por testar”.
A segunda é: quem é o dono. Dono de processo, de dado e do resultado. Sem esse nome na mesa, a chance de virar “terra de ninguém” é grande.
A terceira é: qual risco está sendo aceito, de forma consciente. Não existe cenário sem risco. Existe decisão que sabe o que está aceitando e decisão que descobre depois. E aqui aparece um efeito colateral positivo. Muita dor de segurança nasce antes das ferramentas, na escolha apressada, no acesso liberado sem prazo, no aplicativo “gratuito”, na planilha que circula por canal errado, no fornecedor que entra sem validação mínima.
Quando a empresa passa a decidir com rotina e registro simples, o improviso diminui. E o improviso é caro. Custa tempo, dinheiro, reputação e noites mal dormidas. Para aplicar já, sem transformar isso em projeto gigante, dá para usar um checklist enxuto.
Se a maioria dessas respostas ainda for “não”, você não precisa de um manual novo. Precisa de consistência. Um ritual pequeno, repetido toda semana ou todo mês, costuma valer mais do que um documento perfeito. Governança começa quando a empresa trata tecnologia como decisão, não como atendimento.
Decisão boa é a que você consegue sustentar depois, inclusive quando algo dá errado.



