Vibe Security
Por que estamos criando sistemas com "sabor" de seguro. Por Jeremias Goedert

Existe um novo fenômeno nas trincheiras do desenvolvimento de software, identificado recentemente em pesquisas acadêmicas como Vibe Coding. O termo descreve a prática de usar IA para gerar código baseada puramente na intuição, tentativa e erro, e — aqui mora o perigo — sem entender a lógica real por trás do que foi gerado. Se o código roda e a mensagem de erro some, a vibe é boa, e o commit é feito. O problema é que segurança cibernética não é uma vibe.
O estudo “Vibe Coding in Practice” revelou um paradoxo aterrorizante: a “produtividade sem compreensão”. Desenvolvedores (especialmente os menos experientes) sentem uma onda de dopamina ao ver uma funcionalidade pronta em segundos. A sintaxe é perfeita, as variáveis têm nomes bonitos e o código parece profissional. Ele tem “sabor” de código seguro. Mas, tal qual um alimento ultraprocessado que tem gosto de morango sem conter uma única fruta, esse código muitas vezes é nutricionalmente vazio em termos de robustez.
A segurança da informação vive nos detalhes que a “vibe” ignora. Uma vulnerabilidade de Race Condition, uma falha de lógica de negócios ou uma sanitização de entrada incompleta não impedem o código de rodar. O software funciona perfeitamente para o usuário feliz, e funciona ainda melhor para o atacante.
Ao praticar o Vibe Coding, pulamos a etapa crítica da “Engenharia”. Aceitamos a primeira saída da IA que funciona, ignorando que LLMs são treinados para serem prestativos, não paranoicos. Eles priorizam a resposta que satisfaz o prompt do usuário, não a que resiste a um ataque de SQL Injection sofisticado.
O paper alerta para o acúmulo de “débito técnico oculto”. Diferente do código ruim feito por humanos (que geralmente parece ruim), o código inseguro da IA parece ótimo. Isso cria uma falsa sensação de confiança. O desenvolvedor júnior, empoderado pela IA, acredita que entregou uma solução sênior, quando na verdade apenas copiou e colou uma brecha de segurança complexa que ele não tem capacidade cognitiva para auditar.
Estamos caminhando para um cenário de “Vibe Security”: empresas cheias de softwares que foram construídos rápido, parecem modernos, mas desmoronam ao primeiro sopro de adversidade real.
A solução? A governança precisa intervir no processo. Não podemos impedir o uso da IA (não vamos e nem devemos), mas precisamos mudar a definição de “Pronto”. Se você não consegue explicar linha por linha o que o código da IA faz, você não “programou”, você apenas “torceu”. E no mundo da segurança, torcida não é estratégia.
O Vibe Coding pode ser ótimo para protótipos, mas nunca levar para produção sem “guardrails” (testes automatizados, revisão de código humana e registros de decisão).
Vibe Coding in Practice: Motivations, Challenges, and a Future Outlook – a Grey Literature Review – https://arxiv.org/pdf/2510.00328



