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Inteligência artificial revoluciona indústria de alimentos, mas humanos ainda decidem o sabor final

Empresas como Unilever e McCormick aceleram desenvolvimento de produtos com IA, enquanto especialistas alertam para limites da tecnologia

A inteligência artificial já faz parte da rotina das grandes indústrias de alimentos há anos. Muito antes do atual “boom” tecnológico, empresas globais passaram a usar algoritmos para acelerar pesquisas, testar combinações de ingredientes e reduzir o tempo de lançamento de novos produtos.

A McCormick, dona de marcas como Frank’s RedHot, Cholula e Old Bay, utiliza IA no desenvolvimento de sabores há quase uma década. Segundo a companhia, a tecnologia ajudou a encurtar os ciclos de criação entre 20% e 25%, ao identificar combinações promissoras e filtrar quais ideias realmente merecem virar protótipos físicos.

Na Unilever, a IA está incorporada em praticamente todo o processo de pesquisa e desenvolvimento. Sistemas internos conseguem simular milhares de receitas em segundos, reduzindo drasticamente a necessidade de testes em laboratório. Produtos como a pasta de tomate Knorr Fast & Flavourful foram desenvolvidos em cerca de metade do tempo tradicional. Já no setor de embalagens, algoritmos ajudaram a modelar o comportamento de formulações na embalagem squeeze Easy-Out da Hellmann’s, economizando meses de experimentação.

O uso de IA na gastronomia não é recente. Em 2017, uma equipe do Google Brain — atualmente integrada ao Google DeepMind — utilizou inteligência artificial para criar uma receita considerada o “biscoito de chocolate perfeito”.

IA ajuda, mas não substitui a criatividade humana

Apesar dos avanços, executivos do setor reforçam que a tecnologia funciona como apoio — não como substituta da experiência humana.

Annemarie Elberse, responsável por ecossistemas digitais e dados em P&D de alimentos na Unilever, afirma que a criatividade e o julgamento humano continuam centrais no processo. Já Anju Rao, diretora científica da McCormick, define a IA como ferramenta de cocriação que amplia a capacidade dos cientistas de sabor, mas não elimina o papel das pessoas.

Enquanto isso, startups como Journey Foods, NielsenIQ e AKA Foods oferecem plataformas baseadas em IA que prometem funcionar como “sensoriais virtuais”, analisando receitas digitalmente e prevendo a aceitação do consumidor antes mesmo da produção física.

A proposta é reduzir custos com testes, diminuir falhas em lançamentos e encurtar o tempo de desenvolvimento. Analistas estimam que o mercado global de IA aplicada a alimentos e bebidas pode saltar de cerca de US$ 10 bilhões em 2025 para mais de US$ 50 bilhões até 2030, impulsionado por automação, personalização e uso intensivo de dados.

Desafios técnicos e limitações biológicas

Mesmo com projeções otimistas, especialistas alertam que a tecnologia ainda está em estágio inicial. Brian Chau, cientista de alimentos e fundador da consultoria Chau Time, afirma que muitas startups ainda estão concentradas na coleta de dados para tornar seus modelos realmente preditivos.

Segundo ele, boa parte das plataformas atuais se assemelha a grandes modelos de linguagem treinados com receitas e tendências de consumo, mas sem capacidade real de criar produtos viáveis de forma totalmente independente. O maior obstáculo, na visão de Chau, é o acesso a dados proprietários das grandes fabricantes — algo sensível devido à propriedade intelectual.

Do ponto de vista científico, o desafio vai além da tecnologia. O professor Julien Delarue, da Universidade da Califórnia, Davis, destaca que prever a percepção sensorial humana é extremamente complexo. Fatores como genética, cultura, experiências prévias e contexto individual tornam praticamente impossível definir um “consumidor médio”.

“A IA pode analisar compostos químicos e organizar dados com eficiência, mas prever como cada pessoa perceberá uma mistura complexa de sabores ainda é uma tarefa limitada”, avaliam pesquisadores da área.

Eficiência é o verdadeiro ganho da IA no setor alimentício

Empresas como a AKA Foods reforçam que suas soluções não substituem cientistas ou especialistas sensoriais, mas ajudam a organizar conhecimento interno e priorizar testes mais promissores.

Jason Cohen, fundador da Simulacra Data e também criador da Analytical Flavor Systems — adquirida pela NielsenIQ em 2025 — afirma que a IA é especialmente útil para identificar notas indesejadas, restringir opções e acelerar análises. Ainda assim, a decisão final continua nas mãos dos consumidores.

Para especialistas como Delarue, o maior valor da IA está na eficiência operacional: lidar com a crescente complexidade de desenvolver alimentos que sejam ao mesmo tempo saborosos, saudáveis, sustentáveis e acessíveis.

No fim das contas, porém, o veredito continua humano. Por mais avançadas que sejam as máquinas, é o paladar das pessoas que determina o sucesso de um produto nas prateleiras.

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