Os riscos invisíveis de deixar a inteligência artificial planejar sua viagem
Por Caio Fritzen

A inteligência artificial já assumiu um papel central no planejamento de viagens. Chatbots e agentes digitais prometem roteiros completos em segundos, sugerem destinos personalizados e oferecem soluções aparentemente inteligentes com base em preferências descritas pelo usuário. A promessa é eficiência e praticidade. O ponto crítico é que esses sistemas não entendem o mundo físico. Eles trabalham com probabilidade estatística de palavras, não com consciência geográfica, climática ou operacional.
Casos recentes mostram como essa limitação pode gerar problemas reais. Destinos inexistentes, trilhas sugeridas sem considerar altitude ou clima, horários incorretos de transporte e experiências que simplesmente não existem. Quando ocorre uma alucinação, o modelo apresenta a informação inventada com a mesma segurança de uma resposta correta. Para quem está planejando uma viagem, essa diferença nem sempre é perceptível. No turismo, erro não é apenas frustração. Pode ser prejuízo financeiro, perda de tempo e, em situações extremas, risco físico.
Do ponto de vista tecnológico, isso é consequência natural do funcionamento dos grandes modelos de linguagem. Eles analisam enormes volumes de texto e preveem qual sequência de palavras faz mais sentido dentro de um contexto. Não há validação factual automática nem entendimento do ambiente real. A interface conversacional transmite confiança, mas o sistema continua operando com base em probabilidade e não em verificação prática.
Eu acredito que a inteligência artificial é uma ferramenta poderosa quando usada como apoio, mas perigosa quando tratada como autoridade. No meu trabalho com gestão estratégica de viagens, vejo a IA como aceleradora de pesquisa e geração de possibilidades, nunca como decisão final. Dados precisam ser confirmados, regras tarifárias avaliadas, condições locais verificadas e oportunidades analisadas com contexto. Tecnologia amplia a capacidade de decisão, mas não substitui responsabilidade.
O turismo entra definitivamente na era da inteligência artificial, mas maturidade digital exige senso crítico. Acredito que o futuro das viagens será híbrido, combinando automação, análise de dados e estratégia humana. A diferença entre uma viagem inteligente e um problema inesperado estará na forma como usamos a tecnologia, e não apenas no fato de utilizá-la.



