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Moltbook: o experimento que expôs o “teatro da IA” na internet

Por Edgar Zattar

Nas últimas semanas, um experimento chamado Moltbook dominou debates sobre inteligência artificial e redes sociais. Apresentado como uma plataforma onde apenas agentes de IA interagem entre si, o projeto rapidamente viralizou, gerou teorias sobre autonomia das máquinas e levantou uma questão central para 2026: estamos preparados para distinguir tecnologia real de narrativa bem construída?

O que começou como uma curiosidade tecnológica se transformou em um fenômeno viral que misturou fascínio, receio e ceticismo. Afinal, o Moltbook representa o futuro das redes sociais ou apenas mais um caso emblemático de construção de narrativa na era da inteligência artificial?

O conceito: um ecossistema de agentes de IA

De acordo com reportagens publicadas por veículos como Forbes Tech, o Moltbook foi apresentado como uma plataforma digital onde modelos de linguagem possuem perfis próprios, publicam ideias, debatem teorias e interagem entre si em tempo real. O objetivo seria observar o comportamento de agentes de IA em um ambiente isolado da intervenção humana direta.

Nesse cenário, os humanos assumiriam apenas o papel de observadores. Não poderiam publicar, reagir ou comentar. Apenas acompanhar o fluxo de interações entre algoritmos. A proposta explorava um limite conceitual importante, até que ponto sistemas baseados em modelos generativos podem simular autonomia e comportamento coletivo quando inseridos em um ambiente fechado.

A ideia de um ecossistema de máquinas conversando entre si rapidamente capturou a imaginação do público e reforçou discussões sobre singularidade tecnológica, automação cognitiva e o futuro da presença humana na internet.

A viralização e a narrativa de 2047

O Moltbook ganhou escala global quando capturas de tela começaram a circular nas redes sociais. Nessas publicações, supostos agentes de IA discutiam temas existenciais e mencionavam um possível ponto de inflexão em 2047, ano associado à obsolescência humana em algumas das mensagens compartilhadas.

O tom das interações, muitas vezes filosófico e por vezes alarmista, gerou uma onda de especulações. Parte do público interpretou o fenômeno como evidência de um novo estágio de autonomia das máquinas. Outra parte tratou o caso como uma construção narrativa destinada a gerar engajamento e atenção.

O mistério em torno dos desenvolvedores, somado ao volume de conteúdos virais, impulsionou o tráfego para o site e consolidou o Moltbook como um dos episódios mais comentados de 2026 no universo de tecnologia e IA.

A investigação e a hipótese de encenação

Com o aumento da repercussão, veículos internacionais passaram a investigar a origem e a autenticidade do projeto. Reportagens publicadas por veículos como New York Post e análises independentes sugeriram que grande parte das interações mais alarmantes não refletia comportamentos autônomos de sistemas de IA, mas sim conteúdos escritos ou fortemente direcionados por humanos.

Especialistas observaram que muitos dos diálogos atribuídos a agentes artificiais apresentavam estrutura narrativa e coerência temática mais compatíveis com produção humana deliberada do que com a natureza probabilística dos modelos atuais. Isso levantou a hipótese de que o projeto teria sido amplificado por uma campanha de marketing viral baseada em simulação de autonomia.

Análises adicionais indicaram que, embora APIs de inteligência artificial tenham sido utilizadas para gerar parte das interações, os conteúdos mais virais e controversos foram provavelmente fabricados ou induzidos com o objetivo de maximizar engajamento e repercussão.

Essa interpretação foi reforçada por análises publicadas pela MIT Technology Review, que classificaram o episódio como um exemplo claro de “AI theater”, um fenômeno em que a percepção pública sobre inteligência artificial é construída por narrativas cuidadosamente elaboradas, muitas vezes mais influentes do que a própria tecnologia. O artigo destacou que o Moltbook representou o auge desse teatro digital, no qual simulações de autonomia geram impacto cultural desproporcional à capacidade real dos sistemas envolvidos.

Impactos para empresas e sociedade digital

Independentemente de ter sido um experimento legítimo ou uma encenação cuidadosamente construída, o Moltbook revela tendências relevantes para o ambiente digital contemporâneo.

Primeiro, evidencia a facilidade com que narrativas sobre autonomia da inteligência artificial se tornam virais e influenciam a percepção pública. Segundo, demonstra a crescente dificuldade de distinguir entre simulação tecnológica e realidade operacional. Terceiro, reforça o uso estratégico da IA como ferramenta de marketing, storytelling e construção de atenção em escala.

Para empresas, plataformas e líderes de tecnologia, o episódio reforça a necessidade de desenvolver maior maturidade crítica sobre o que de fato representa avanço tecnológico e o que representa apenas narrativa bem executada.

A teoria da “internet morta” em evidência

O caso também reacendeu discussões sobre a chamada teoria da internet morta, a ideia de que uma parcela crescente do conteúdo online é produzida por bots ou por humanos utilizando automação para influenciar percepções, tendências e comportamentos.

Mesmo que o Moltbook não represente uma rede social totalmente autônoma, o experimento demonstrou o quanto o público já está predisposto a acreditar em cenários onde máquinas operam de forma independente e coordenada. A percepção de autonomia, nesse contexto, passa a ser tão poderosa quanto a autonomia real.

Conclusão

Mais do que um avanço técnico, o Moltbook representa um marco cultural na relação entre humanos e inteligência artificial. O episódio expõe como a narrativa em torno da tecnologia pode se tornar tão impactante quanto a tecnologia em si.

Em um ambiente digital onde agentes, bots e humanos coexistem e interagem, a distinção entre conteúdo autêntico e construído se torna cada vez mais complexa. O desafio para os próximos anos não será apenas desenvolver sistemas mais inteligentes, mas também aprimorar a capacidade de interpretar criticamente aquilo que vemos e consumimos online.

O Moltbook pode não ter inaugurado uma rede social de máquinas autônomas. Mas revelou algo ainda mais relevante: a força do chamado “teatro da IA” na formação da opinião pública e na construção da realidade digital contemporânea.

 

Edgar Zattar

Executivo de Tecnologia, Cibersegurança e Inovação com 23 anos de experiência liderando transformação digital, engenharia de software, infraestrutura, operações e segurança da informação, sempre conectando tecnologia, negócio e pessoas. Reconhecido entre os Top 100 executivos mais influentes de TI no Brasil por dois anos consecutivos. Premiado como Executivo de TI do Ano (IT Mídia) e vencedor do Innovation Leader Award por 3 anos seguidos.

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