O CEO da Stellantis, Antonio Filosa, afirmou nesta sexta-feira que a montadora continuará operando como uma única companhia global, afastando rumores sobre uma possível venda de marcas ou divisão do grupo após resultados financeiros abaixo do esperado.
“A Stellantis é uma empresa global extremamente sólida, com organizações regionais fortes”, disse Filosa durante uma teleconferência com jornalistas. “Manter o grupo unido faz todo o sentido. Nossa intenção é seguir juntos por muitos anos.”
As declarações ocorreram poucas horas depois de a empresa anunciar encargos de aproximadamente 22 bilhões de euros (cerca de US$ 26 bilhões), ligados a um amplo processo de reestruturação. Entre as mudanças estão a revisão dos planos de eletrificação e o retorno de motores V8 em alguns modelos vendidos nos Estados Unidos.
Segundo Filosa, as decisões fazem parte de uma “reorientação estratégica profunda do modelo de negócios”, com foco em recolocar as preferências dos consumidores no centro das decisões da companhia. O executivo destacou que a prioridade agora é retomar o crescimento, após perdas relevantes de participação de mercado nos últimos anos.
A reação do mercado foi negativa. Em Milão, as ações da Stellantis recuaram cerca de 25% na sexta-feira. Já em Nova York, os papéis da montadora listados em Wall Street caíram aproximadamente 23%.
Apesar de descartar uma divisão do grupo, Filosa não excluiu ajustes regionais ou uma reorganização do portfólio de 14 marcas da empresa. O conglomerado reúne nomes como Jeep, Ram e Chrysler, nos Estados Unidos, além de Fiat e Alfa Romeo, na Itália — algumas delas enfrentando desempenho fraco em seus mercados de origem.
“Queremos administrar nossas marcas oferecendo os produtos e tecnologias que os clientes realmente desejam e precisam”, afirmou o CEO. “Essa é a essência da nossa missão.”
Mais detalhes sobre o futuro da Stellantis devem ser apresentados em um evento voltado a investidores marcado para o dia 21 de maio.
O anúncio também acontece poucos dias após executivos da montadora se reunirem com concessionários nos EUA durante a conferência anual da Associação Nacional de Concessionários de Automóveis (NADA). Segundo participantes, a mensagem foi de que a empresa pretende impulsionar as vendas em todo o portfólio no mercado norte-americano.
Encargos de €22 bilhões e revisão da estratégia
Do total anunciado, cerca de 14,7 bilhões de euros estão ligados ao realinhamento de produtos às preferências dos consumidores e às novas regras de emissões nos Estados Unidos. Outros custos incluem 2,1 bilhões de euros para ajustes na cadeia de suprimentos de veículos elétricos, 4,1 bilhões de euros em despesas com garantias e 1,3 bilhão de euros destinados à reestruturação das operações europeias.
A Stellantis também decidiu suspender o pagamento de dividendos em 2026 e emitiu um título híbrido não conversível no valor de 5 bilhões de euros.
Os gastos com veículos elétricos seguem um movimento semelhante ao de outras montadoras, como General Motors e Ford, que também anunciaram bilhões em despesas após revisarem seus planos de eletrificação. Ainda assim, o impacto no valor de mercado da Stellantis foi mais intenso, refletindo projeções financeiras abaixo das expectativas e um histórico recente de decisões estratégicas contestadas.
A empresa informou que espera registrar prejuízo líquido em 2025. Para 2026, a projeção é de crescimento médio de um dígito na receita líquida e avanço modesto na margem operacional ajustada.
Analistas seguem cautelosos. Para Tom Narayan, da RBC Capital Markets, o volume dos encargos supera os registrados por concorrentes diretos e reforça a necessidade de a Stellantis recuperar competitividade, especialmente nos Estados Unidos, onde perdeu espaço devido a preços elevados e à percepção de pouco investimento em produtos.
Ajustes após erros do passado
Filosa também fez críticas mais diretas às decisões tomadas por gestões anteriores, algo incomum desde que assumiu o cargo em junho, após a saída de Carlos Tavares. O ex-CEO deixou a companhia em dezembro de 2024, em meio a divergências com o conselho, e chegou a sugerir publicamente que o grupo poderia ser dividido sob pressão de acionistas.
Criada em janeiro de 2021 a partir da fusão entre a Fiat Chrysler e o Groupe PSA, em um negócio avaliado em US$ 52 bilhões, a Stellantis se tornou a quarta maior montadora do mundo em volume. No entanto, enfrentou dificuldades nos últimos anos, impulsionadas por investimentos pesados em veículos elétricos, foco excessivo em margens de lucro e cortes de custos que afetaram a competitividade dos produtos.
Entre 2021 e 2024, as vendas globais da empresa recuaram 12,3%, passando de 6,5 milhões para 5,7 milhões de veículos. Nos Estados Unidos, a queda foi ainda mais acentuada, com retração de cerca de 27%, reduzindo as vendas para 1,3 milhão de unidades. Nesse período, a Stellantis caiu da quarta para a sexta posição no ranking de vendas do país.
Dados da S&P Global Mobility indicam que a participação global da montadora caiu de 8,1% em 2020 para cerca de 6,1% no ano passado, evidenciando os desafios que o grupo ainda precisa enfrentar para retomar relevância e crescimento sustentável.



