Alphabet, Microsoft, Meta e Amazon devem, juntas, destinar quase US$ 700 bilhões em 2026 para acelerar a adoção e a expansão da inteligência artificial. O movimento reforça a corrida tecnológica entre as gigantes, mas também começa a acender sinais de atenção entre investidores focados em retorno financeiro.
Com a temporada de resultados do setor de tecnologia chegando ao fim, o mercado já consegue dimensionar a intensidade dos investimentos previstos para o próximo ano. As quatro maiores empresas de hiperescala projetam elevar seus aportes em mais de 60% em relação aos níveis históricos de 2025, impulsionadas pela compra de chips avançados, construção de grandes data centers e aquisição de soluções de rede para sustentar a infraestrutura de IA.
Esse avanço tem um custo direto: a pressão sobre o fluxo de caixa livre. Em 2025, as principais companhias de internet dos Estados Unidos somaram cerca de US$ 200 bilhões em caixa livre, abaixo dos US$ 237 bilhões registrados em 2024. A expectativa é de um aperto ainda maior, já que os investimentos se concentram no curto prazo, enquanto os retornos ficam para o futuro.
Esse cenário tende a afetar margens, reduzir a geração de caixa imediata e aumentar a dependência de captação via mercado de ações ou dívida. A Alphabet, por exemplo, realizou uma emissão de US$ 25 bilhões em títulos em novembro, e sua dívida de longo prazo saltou para US$ 46,5 bilhões em 2025, quatro vezes maior que no ano anterior.
A Amazon, que anunciou a intenção de investir cerca de US$ 200 bilhões neste ano, pode registrar fluxo de caixa livre negativo em 2026. Estimativas do Morgan Stanley apontam déficit próximo de US$ 17 bilhões, enquanto o Bank of America projeta um rombo de até US$ 28 bilhões. Em documento enviado à SEC, a companhia admitiu que pode buscar novos recursos no mercado conforme sua expansão avança.
Mesmo após superar as expectativas de receita no trimestre, as ações da Amazon recuaram quase 6%, ampliando a queda acumulada no ano para 9%. No mesmo período, a Microsoft registrou desvalorização de 17%, enquanto Alphabet e Meta tiveram desempenho levemente positivo.
Embora a Amazon lidere em agressividade nos gastos, a Alphabet também planeja um forte avanço. A empresa estima desembolsar até US$ 185 bilhões em capital neste ano para fortalecer sua nuvem e os modelos Gemini. Analistas do Morgan Stanley projetam que esse valor pode chegar a US$ 250 bilhões em 2027. A Pivotal Research calcula que o fluxo de caixa livre da Alphabet pode despencar quase 90% em 2026, caindo para cerca de US$ 8,2 bilhões.
Na Meta, o Barclays estima uma retração semelhante no caixa livre após a companhia anunciar investimentos de até US$ 135 bilhões em 2026. Os analistas mantiveram recomendação de compra, mas alertaram para a possibilidade de fluxo de caixa negativo em 2027 e 2028, cenário que consideram provável para empresas envolvidas na “corrida armamentista” da infraestrutura de IA.
Já a Microsoft, apesar de também ampliar seus investimentos, deve sentir um impacto menor no curto prazo. O Barclays projeta queda de 28% no fluxo de caixa livre em 2026, com recuperação prevista para 2027.
Mesmo diante das incertezas, analistas seguem otimistas. Um dos principais diferenciais dessas gigantes frente a startups de IA, como OpenAI e Anthropic, é a robusta posição de caixa acumulada ao longo dos últimos anos. Ao final do último trimestre, as quatro empresas somavam mais de US$ 420 bilhões em caixa e equivalentes.
Especialistas do setor destacam que a expansão da infraestrutura cria uma vantagem competitiva relevante, já que a IA é vista como uma oportunidade geracional, com potencial de gerar receitas trilionárias. Ainda assim, permanecem dúvidas sobre a sustentabilidade do crescimento, especialmente diante da dependência do mercado em torno de grandes players e projetos bilionários.
Para analistas mais cautelosos, o setor vive o início de uma nova era tecnológica, marcada por avanços rápidos, altos investimentos e um nível de incerteza maior na previsão de receitas futuras — um cenário que pode trazer tanto grandes oportunidades quanto surpresas inesperadas.



