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Com a ajuda da IA cientistas avançam na criação de rim “universal” compatível com qualquer tipo sanguíneo

Pesquisa mostra uso de enzimas para transformar temporariamente rins tipo A em tipo O, reduzindo risco de rejeição em transplantes

Pesquisadores da Universidade da Colúmbia Britânica (UBC), em parceria com instituições científicas da China, deram um passo importante rumo ao desenvolvimento de um rim considerado “universal” — ou seja, potencialmente compatível com pacientes de qualquer tipo sanguíneo.

Em um estudo publicado na revista Nature Biomedical Engineering, a equipe demonstrou que enzimas podem ser usadas para converter temporariamente um órgão do tipo A para o tipo O. A técnica funciona como uma espécie de “camuflagem molecular”, capaz de ocultar o tipo sanguíneo original do doador. Com isso, o rim deixa de ser reconhecido de imediato como estranho pelo sistema imunológico do receptor.

Apesar do termo “universal” indicar o objetivo final da pesquisa, a tecnologia ainda está em estágio experimental. No teste realizado, o rim modificado funcionou normalmente por dois dias em um paciente com morte cerebral. A partir do terceiro dia, porém, os marcadores do tipo sanguíneo A começaram a reaparecer, indicando que a transformação ainda não é permanente e que mais estudos serão necessários antes da aplicação clínica.

Remoção de marcadores sanguíneos pode revolucionar transplantes

A descoberta é vista como um marco relevante na área de transplantes de órgãos, especialmente diante do desafio das longas filas de espera. Atualmente, pessoas com sangue tipo O enfrentam os maiores tempos de espera por um rim, muitas vezes anos a mais do que pacientes de outros tipos. Isso ocorre porque esses receptores só podem receber órgãos do mesmo tipo sanguíneo, enquanto doadores tipo O são compatíveis com todos os demais.

Para contornar esse obstáculo, os cientistas recorreram a enzimas que atuam como verdadeiras “tesouras moleculares”. Elas removem os açúcares — conhecidos como antígenos — presentes na superfície das células do rim e responsáveis por identificar o órgão como tipo A. O processo é comparado à retirada de uma camada de tinta, revelando uma base neutra. Sem esses marcadores, o sistema imunológico deixa de reconhecer o órgão como uma ameaça imediata.

Essa foi a primeira vez que um rim modificado dessa forma foi testado em um corpo humano, ainda que em um receptor com morte cerebral. Durante os dois primeiros dias, o órgão funcionou sem apresentar rejeição hiperaguda, que é a resposta imunológica imediata e intensa típica de transplantes incompatíveis.

No terceiro dia, a volta gradual dos marcadores do tipo A desencadeou uma resposta imunológica leve, bem menos agressiva do que o esperado. Além disso, os pesquisadores observaram sinais de que o organismo começava a se adaptar ao órgão transplantado.

Segundo Stephen Withers, professor emérito de química da UBC e um dos líderes do estudo, essa é a primeira evidência desse tipo em um modelo humano. Para ele, os resultados oferecem informações valiosas para aprimorar a durabilidade e a eficácia da técnica no futuro.

Atualmente, transplantes entre tipos sanguíneos diferentes são procedimentos complexos, caros e arriscados, geralmente dependentes de doadores vivos. A nova abordagem inverte essa lógica ao modificar o órgão, e não o paciente, o que pode permitir o uso mais rápido e seguro de rins de doadores falecidos.

Embora a tecnologia ainda precise passar por novas etapas de pesquisa e aprovação regulatória, o sucesso inicial do experimento é considerado um marco promissor — um verdadeiro avanço que pode transformar o futuro dos transplantes e salvar milhares de vidas.

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