A nova Siri expõe a maior mudança de rota da Apple na era da IA
Por Guilherme Domingues

A Apple sempre jogou um jogo próprio. Controle total do ecossistema, desenvolvimento interno e uma obsessão quase religiosa por privacidade. Mas a nova fase da Siri deixa claro que, na corrida da inteligência artificial, até Cupertino precisou recalcular a rota.
Segundo informações de Mark Gurman, a Apple deve apresentar a nova Siri — agora fortemente impulsionada por IA — já na segunda metade de fevereiro, com liberação prática prevista para março, junto ao iOS 26.4. A apresentação pode acontecer em um evento pontual ou até em um comunicado à imprensa, algo próximo de uma “mini-WWDC”.
O detalhe importante não é quando, nem como. É por quê.
Esses recursos haviam sido anunciados ainda na WWDC 2024, mas foram adiados após atrasos e dificuldades internas no desenvolvimento dos modelos de IA da própria Apple. Enquanto concorrentes avançavam rápido, a Siri permanecia estagnada — e isso começou a custar caro em percepção de mercado.
Diante desse cenário, a Apple fez algo raro: buscou ajuda externa.
OpenAI e Anthropic chegaram a ser consideradas. A primeira foi descartada após começar a contratar talentos da Apple e demonstrar ambições claras em hardware próprio. A segunda não agradou nos termos financeiros. O Google, que inicialmente não liderava o setor, evoluiu rápido com o Gemini e acabou se tornando a opção mais viável.
A manutenção do acordo entre Apple e Google envolvendo o Safari, validada recentemente pela Justiça dos Estados Unidos, reduziu riscos jurídicos e abriu caminho para uma parceria mais profunda. Agora, o Gemini não apenas alimentará a nova Siri, como também será a base da reformulação completa da assistente, codinome “Campos”, prevista para a WWDC 2026.
Mas talvez a mudança mais sensível esteja nos bastidores.
A partir da geração 27 dos sistemas da Apple, os modelos de IA deixarão de rodar no Private Cloud Compute da empresa e passarão a operar diretamente nos servidores do Google. Uma decisão que, poucos anos atrás, pareceria impensável para uma companhia que sempre tratou infraestrutura e dados como ativos estratégicos intocáveis.
Isso não significa que a Apple esteja abandonando sua própria visão de IA. Pelo contrário: a empresa segue investindo em modelos proprietários e pesquisa interna. O movimento atual parece muito mais pragmático do que ideológico.
A mensagem é clara: ficar para trás na IA não é uma opção.
A nova Siri não é apenas uma atualização de software. Ela representa a maior mudança estratégica da Apple desde a transição para seus próprios chips. Um reconhecimento silencioso de que, nesta fase da tecnologia, velocidade e resultado imediato pesam mais do que controle absoluto.
No fim das contas, a Apple entrou de vez no jogo da inteligência artificial. E, desta vez, aceitou que liderar também pode significar dividir o campo com antigos rivais.



