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O Eterno Dilema: Segurança é Custo, Investimento ou Estratégia? Uma Visão Crítica sobre o Risco Existencial no Cenário Brasileiro

Por Charles Camello

Em um tabuleiro corporativo onde a conectividade é a regra e a velocidade de mercado é implacável, a Segurança da Informação (SI) transcendeu a esfera técnica. Ela se tornou um risco existencial e, paradoxalmente, o principal habilitador de velocidade para a inovação.

No entanto, em muitas salas de reunião, o debate ainda se arrasta: a Segurança da Informação deve ser tratada como custo, investimento ou estratégia?

A resposta correta não é um mero exercício de semântica orçamentária, mas sim um reflexo direto da maturidade e do apetite de risco da liderança. É hora de abandonar a visão simplista e encarar a SI como o que ela realmente é: o alicerce invisível da confiança e da continuidade dos negócios.

1. Segurança como Custo: A Falsa Economia

Tratar a segurança como um custo é a visão mais míope e, ironicamente, a mais cara no longo prazo. Nesse paradigma, a SI é vista como uma despesa obrigatória, um mal necessário imposto por regulamentações ou auditorias. As decisões são reativas, focadas em cumprir o mínimo e orientadas ao menor desembolso possível.

A Opinião Crítica: Essa mentalidade não é apenas minimalista; é negligente. É uma aposta perigosa contra a probabilidade.

Essa “falsa economia” é desmascarada pelos números. O Relatório Cost of a Data Breachda IBM de 2025 revela que o custo médio de uma violação de dados no Brasil atingiu a marca de R$ 7,19 milhões [1]. Esse valor, que representa o impacto financeiro de um único incidente, supera em muito o orçamento anual de segurança de muitas empresas que insistem em tratar a área como centro de custo.

Setor

Custo Médio de Violação (Brasil, 2025)

Saúde

R$ 11,43 milhões

Finanças

R$ 8,92 milhões

Serviços

R$ 8,51 milhões

Fonte: IBM Cost of a Data Breach Report 2025 [1]

Para as empresas que operam com a visão de custo, a violação de dados não é um risco mitigado, mas sim uma penalidade inevitável e imprevisível.

2. Segurança como Investimento: O Retorno Tangível

Neste modelo, a liderança evolui para perceber que a segurança impulsiona a eficiência operacional e a continuidade de negócios. O orçamento de SI é planejado e vinculado a metas claras, buscando um Retorno sobre o Investimento (ROI) mensurável.

O Direcionador Estratégico: O foco aqui é na resiliência cibernética, ou seja, na capacidade de manter as operações durante e após um ataque, e não apenas na prevenção.

Um exemplo claro desse retorno é a adoção de tecnologias de ponta. O mesmo relatório da IBM demonstrou que organizações no Brasil que impulsionaram o uso de Inteligência Artificial (IA) e automação seguras observaram custos médios de violação 26% menores em comparação com aquelas sem essas tecnologias [1].

Abordagem

Custo Médio de Violação (Brasil, 2025)

Uso extensivo de IA e Automação

R$ 6,48 milhões

Sem uso de IA e Automação

R$ 8,78 milhões

O investimento em SI, portanto, não é apenas um escudo; é uma ferramenta que reduz custos operacionais ocultos e fortalece a imagem institucional, atraindo clientes e parceiros que valorizam a proteção de dados.

3. Segurança como Estratégia: O Habilitador de Velocidade

Empresas verdadeiramente maduras entendem que a segurança é um habilitador estratégico e parte da própria proposta de valor.

A Opinião Crítica: Segurança Estratégica é o que permite à empresa ir mais rápido. Pense no freio de um carro de corrida: ele não existe para parar o carro, mas sim para permitir que ele atinja velocidades máximas com a confiança de que pode parar quando necessário. A SI é o freio da inovação.

Neste estágio, a segurança está integrada ao planejamento estratégico, e a tomada de decisão é orientada pelo risco de negócio, não pela tecnologia.

Exemplo Real: Bancos digitais e fintechs que conseguem lançar novos produtos e serviços em semanas, e não em meses, o fazem porque a segurança está embutida (security by design) em cada etapa do desenvolvimento. A conformidade regulatória (como a LGPD no Brasil) deixa de ser um obstáculo e se torna um diferencial competitivo que gera confiança imediata no mercado.

A SI Estratégica foca em:

Governança de IA: Apenas 29% das organizações brasileiras utilizam tecnologia de governança de IA, apesar de ela reduzir o custo de violação em mais de R$ 600 mil [1]. Isso representa uma falha estratégica grave na era da IA.
Gestão de Complexidade: Sistemas de segurança excessivamente complexos aumentaram o custo de violação em cerca de R$ 725 mil [1]. A estratégia exige simplicidade e integração.
Cultura: O foco se desloca da tecnologia para as pessoas. O phishing ainda é o principal vetor de ataque no Brasil (18% das violações) [1], reforçando que a primeira linha de defesa é a consciência humana.

Conclusão: O Dilema é Menos sobre Dinheiro e Mais sobre Visão

O dilema “segurança é custo, investimento ou estratégia?” revela menos sobre a tecnologia e mais sobre o estágio de maturidade da liderança.

Visão

Foco Principal

Resultado no Longo Prazo

Custo

Conformidade Mínima

Penalidade Imprevisível

Investimento

ROI e Eficiência

Resiliência e Crescimento

Estratégia

Proposta de Valor e Risco

Liderança e Confiança

Empresas que tratam segurança como custo sobrevivem. Empresas que tratam segurança como investimento crescem. Empresas que tratam segurança como estratégia lideram.

A régua ideal será sempre aquela que equilibra o apetite de risco com a ambição estratégica. No fim, a verdadeira vantagem competitiva está em compreender que segurança não é algo que se compra — é algo que se constrói através de uma cultura de risco madura e de uma liderança que enxerga além do balanço trimestral.

Referências

[1] IBM. (2025). Relatório da IBM: Custo médio de uma violação de dados no Brasil atinge R$ 7,19 milhões. IBM Newsroom Brasil. https://brasil.newsroom.ibm.com/2025-07-30-Relatorio-da-IBM-Custo-medio-de-uma-violacao-de-dados-no-Brasil-atinge-R-7,19-milhoes

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